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cavacas é no são gonçalinho

por M.J., em 12.01.15

a fila serpenteia em volta da capela.

há sacos e sacos de doces duros, cobertos de açúcar, amontoados, uns nos outros.

cheira a bolos no pequeno largo e as pessoas amontoam-se numa agitação que fervilha no ar.


estamos encostados mesmo a uma das casas, não podendo recuar mais. há kizomba num altifalante e o frio cortante entra casaco dentro, deixando-nos despidos, tremendo na noite.
fala-se alto. ecoam cantos, há balões pelo ar e uma criança, mesmo em frente, pergunta ao pai quando começa a chuva de açúcar.


há gente com grandes canas, encimadas com rede. algumas pessoas, numa tentativa de graça abrem os guarda chuvas e viram-nos ao contrário, na espera.
longos minutos depois, no frio cortante, na agitação da noite sobem as primeiras pessoas da fila, ao cimo da capela, lançado as primeiras cavacas à multidão, que em baixo, se movimenta, em gritos histéricos na procura dos doces.
algumas são arremessadas com arte. um velho à minha frente levanta os braços, na certeza que vai apanhar aquela. a cavaca acerta-lhe na cara, fica o lábio inchado, cheio de sangue:
- bolas!
reclama, virando-se para trás, cuspindo o sangue no chão.

a chuva de cavacas não pára, a fila mal se mexeu, na quantidade de gente a cumprir promessa. começo a ter medo de tanto açúcar, duro como o raio, sobretudo quando uma acerta na parede atrás de mim e caem pedaços no cabelo.


à minha frente um casal jovem, com o filho nos braços, ri alto. a mãe preocupa-se com o miúdo:
- temos de ir embora, uma coisa daquelas racha a cabeça do menino.


ponho as mãos na cabeça também. há uma tempestade de cavacas e pessoas corajosas, que se atiram à multidão procurando apanhar algumas. o velho que tinha os lábios inchados, come agora uma, apanhada do chão num grande sorriso gordo.
grito histericamente quando arremessam várias na minha direcção. sempre soube que ia ter uma morte esquisita, mas morrer com uma cavaca nas trombas foi coisa que nunca me ocorreu.


conseguimos escapar da multidão, que se agitava, rugia, quase dançava ao ritmo das cavacas. tenho os olhos molhados, de tanto rir, no medo histérico da cabeça rachada.
no rossio um monte de gente, espalmaa junto ao palco, para ver os the gift.

encolho os ombros. queria apenas ter um vislumbre da mulher, no palco, que berra com garra, como se tivesse apanhado com vinte cavacas a sangue frio.
lembro de outros anos, em que ficávamos até ao fim, outras pessoas, outros mundos, outras vidas.

 

vem um frio gelado da ria.
dirigimo-nos a uma barraquinha de doces e comprámos cavacas, mas das moles, recomenda o moço ao homem. chegámos a casa pouco depois das dez, acabando a noite a comer açúcar com vinho do porto.


antes de ir dormir, constatei, enquanto tirava a maquilhagem, que tenho rugas nos cantos dos olhos e um monte de cabelos brancos, bem à vista.
estou, meus senhores, não há forma mais leve de dizer isto, velha!

 

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publicado às 15:25


6 comentários

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De J.B. a 12.01.2015 às 15:56

Só tu para me fazeres gargalhar: "sempre soube que ia ter uma morte esquisita, mas morrer com uma cavaca nas trombas foi coisa que nunca me ocorreu" lol
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De M.J. a 12.01.2015 às 16:04

Aquilo é dramático, juro, mete medo :)
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De voosemdestino a 13.01.2015 às 10:51

Hello,

Cruzei-me com o teu blog à poucos dias, e adorei a dezena de posts que li, sobretudo pela escrita simples e sem filtros.

À medida que ia lendo fiquei com a sensação que eras "vizinha", coisa que confirmei com este teu post.

Beijinho e continuação de bons posts.
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De M.J. a 13.01.2015 às 15:12

somos bizinhos, caramba?
não me digas que fazes parte da familia de baixo, com o cão e a criança que não se cala?
ai pelas tuas costelas!
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De voosemdestino a 13.01.2015 às 18:14

He he he,

Nada disso, somos vizinhos no sentido de habitarmos na mesma cidade!!!

Mas sinceramente e depois de hoje quase, quase ler todos os teus posts e ter adorado não faço ideia de quem és, embora aqui o burgo seja pequeno e toda a gente se conhecer, mais não seja de vista.

Mas penso que isso não é importante, o importante é que ganhaste um leitor assíduo, pela forma como te expressas, que tanta gargalhada me soltou.

Keep going

Abreijos
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De M.J. a 13.01.2015 às 18:17

Muito obrigado. Nem toda a gente acha muita piada, acredita 😁

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