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do nada

por M.J., em 21.04.15

estava frio. consigo lembrar-me do frio que nos lambia as pernas numa penumbra de nevoeiro. sentámo-nos quietas, no canto. eu pedi leite com chocolate, ela um café. ouvíamos os gritos da multidão na rua, no brinde ao ano que nascia, outra vez, em mil promessas e sonhos. eu sentia a alma em chamas, numa amargura de gelo que me queimava as entranhas e me fazia querer desistir, derreter em lágrimas como o açúcar no leite quente que me foi estendido. 

quis parar as lágrimas. na rua os sorrisos erguiam-se em direcção ao céu e tu dizias palavras sem nexo apenas para me fazer sorrir. a tua voz, sempre doce, mais doce que o chocolate que eu bebia sem gosto, entrava-me na alma já desfeita em mil dores. interrompi-te abruptamente E porque não? Que mal há nisso do morrer? Que desespero cego pode impedir que eu desista, neste ano que começa semelhante aos outros em que morri todos os dias? perguntei, quase em prantos, na revolta da noite que estava fria e nos congelava ainda que ali dentro o ar abafado nos enlevasse em tempo de girassóis e cheiro a biscoitos quentes.

Porque é um desperdidio maria joão. Um enorme desperdicio, a tua voz serena, de sempre, a tua, tu, assim, sem esperança, sem sonhos, com medo do turbilhão que era eu, que sou eu, na opinião pensada, ponderada. Um desperdicio do que és e vais ser. 

quis dizer-te que não. que nada em mim havia que pudesse ser perdido. que eu desistira há muito do que pensara ser. que não sabia das capacidades, da força, da luta que escondia nos bolsos. não sabia, ainda, que só o passado é eterno, por ler em ecrãs de fundo branco. não sabia ainda que os dias de imensidão de vazio podem transformar-se em girassóis na varanda. conhecia apenas a dor e os cortes e os gritos e a certeza que eu era nada, fraca, pequenina e mesquinha. inútil num mundo que quisera maior e se revelara obsoleto de nada. 

ainda assim, acreditei em ti. cegamente. um desperdício.

 

e ainda assim, também, há dias em que perco, devagarinho mas perco, a certeza que depositei. não pode ser, na verdade, um desperdício a perda do nada que sou. 

e ainda assim, tu estás tão longe, tão distante que mesmo que grites a tua voz de chá quente não consegue acalmar a alma que me dilacera na certeza do nada que habito. 

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publicado às 23:01


4 comentários

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De marta a 22.04.2015 às 10:35

"eu sentia a alma em chamas, numa amargura de gelo que me queimava as entranhas e me fazia querer desistir" - gosto muito.

Eu faço parte dos que acreditam, que algures, seja em nós ou nas varandas podem sempre florescer girassóis, virados para a luz, e que no fundo não é importante se eles depois murcham e morrem, o importante é acabam sempre por renascer.

parabéns pelo post, voltei a gostar muito.
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De M.J. a 22.04.2015 às 19:54

oh... obrigado.
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De (des)Esperança a 22.04.2015 às 15:36

arrancas-me lagrimas de emoção, tremores de raiva... mas depois penso... se não fosses assim, se fosses "parda", nada seria igual nem teria tanto.... tanto tudo!
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De M.J. a 22.04.2015 às 19:54

Às vezes acho que sou apenas parda... ainda que digas que não.

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