Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Do Natal

por M.J., em 13.12.13
O Natal aproxima-se a passos largos. Acho que nunca falei tanto do Natal como este ano. Não me lembro, aliás, de ter alguma vez estado tão entusiasmada com o Natal como este. Minto. Antes dos seis anos, o Natal era a minha época favorita do ano. Eu acreditava no Pai Natal e uma vez fui buscar musgo com o meu pai, já não me lembro bem onde, e fizemos um presépio, com um menino jesus gigante, comprado na feira, maior que os pais. Antes dos seis anos púnhamos enfeites na árvore de Natal, e eu acordava às cinco da manhã do dia vinte e cinco e ia buscar os presentes que o pai natal deixara em frente à lareira.
Depois dos seis anos a coisa mudou. A Ana disse-me que não havia Pai Natal, eu dei-lhe uma carga de porrada porque tinha a certeza que ela estava a mentir. A minha mãe foi chamada à escola pela professora e perante a minha fúria confessou-me que o Pai Natal sempre fora ela. Foi uma tarde de lágrimas.
Continuou-se a fazer a árvore de Natal, mas deixei de achar piada. Também nunca mais fui buscar musgo com o meu pai para fazer o presépio. No dia de Natal de manhã vestia uma roupa nova e ia à missa, onde no fim, todos nós, em fila indiana, íamos beijar a imagem do menino jesus. Não era lá muito higiénico.
A partir de uma determinada altura comecei mesmo a odiar o Natal. Desde os filmes de tudo cor-de-rosa que passavam na televisão, às mil expectativas que criava, ao jantar, cheio de comida, em frente à lareira e o tempo que não passava. Odiava com tanta força que sabia que ia ser castigada por um ser divino.
Mais tarde, passei simplesmente a desprezar. Está claro que nunca mais fui à missa beijar o mesmo sítio onde todos beijavam. Comia os chocolates e via os filmes. Aproveitava a lareira, e com uma atitude de adolescente desprezava a época.
No ano passado, depois de um ano repleto de sofrimento, perdas, ausências e uma doença que tomou conta de tudo o que era, pela altura do natal, a minha existência tornou-se mais doce. Não só por ter encontrado mesmo na véspera de Natal alguém a quem amar, como, e sobretudo, por isso, esse alguém me ter, de forma tão abrupta, levado a um crescimento e a um amadurecimento que não era previsível.
Comecei a sentir gosto pela vida, não por ele, não por nós, mas por mim. Por poder sentir. Por não ter posto fim à vida que me permite sentir, ser amada, cuidar e ser cuidada. E esse gosto pela vida associo ao natal, essa época abjecta.
Fiz árvore de Natal. Vou fazer jantar de Natal. Compras prendas de Natal. E sinto-me tão entusiasmada, como quando fui buscar musgo para o presépio, ou me levantava às cinco da manhã para ver se o pai natal se tinha lembrado de mim.

 

É Natal!
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:43



foto do autor