Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




do romance.

por M.J., em 16.04.15

nunca ninguém escreveu o meu nome numa árvore. nunca ninguém o rabiscou numa mesa. não foi junto, jamais, em letras de colegial, numa fórmula matemática de eu + tu = amor. 

 

nunca ninguém me ofereceu realmente um ramo de flores. minto. um dia ofereceram-me rosas, remetidas com brilhantes para o escritório onde trabalhava. foi a primeira vez que um rapaz me deu flores. eram vermelhas e fiquei longo tempo sem acreditar que eram minhas. as minhas flores. pouco tempo depois das flores murcharem riscaram o meu nome de mim mesma, matando-me mais do que eu já estava morta. nunca mais quis flores.

 

o meu primeiro beijo não foi dado por amor. não havia uma música de palavras de túlipas como pano de fundo. não me foi dito, no exacto momento em que os meus lábios pousaram nos dele, que eu era especial ou importante. não me foi dito que o coração dele era o meu ou que a partir daí os dois iam bater em uníssono. não senti borboletas no estômago ou fadas brilhantes no cabelo. não amei nem fui amada no meu primeiro beijo. 

 

nunca ninguém me ofereceu um pendericalho para pôr na chave do carro ou de casa. nunca ninguém me deu um peluche pequenino para andar comigo, a lembrar de momentos de amor em dias de chuva. 

 

nunca dancei com ninguém. nunca fui arrebatada para o meio de uma pista de dança, numa valsa de ternura enquanto alguém me cantava, baixinho, que só tinha olhos para mim

 

nunca me despedi de ninguém, com um beijo de dor, numa estação de comboios. nunca me estendi por uma janela, os lábios hirtos em direcção ao outro que ficava, ou que se ia, numa jura de amor eterno.

 

mas,

 

ainda assim, ele diz o meu nome, todos os dias, pondo nele toda a ternura que uma alma pode conter. pega nas letras que formam o meu nome e junta-as na melodia que lhe tolda a voz em amor puro. enrola-me a alma com o meu nome pondo nele a dedicação que só quem consegue sorrir dizendo-o tem. que só ele consegue.

 

ainda assim ele comprou todas as flores da varanda, depois de um dia lhe dizer o quanto sentia falta do jardim de casa. escolheu-as com carinho, uma a uma, e plantou-as em vasos coloridos. viu-as crescer, regou-as, cortou-lhe os caules secos e tirou-lhe as primeiras larvas. foi ele quem semeou os girassóis que eu quis ter na vida e lhes arranjou longas canas, num sábado escuro. e é ele que, às vezes, corta as flores mais bonitas e as põe na mesa da sala, para eu sorrir quando chego a casa, zangada da vida que eu sou.

 

ainda assim, ele estendeu-me os lábios, num compromisso sério de quem não exige nada para além de mim enquanto eu. sem me cobrar dramas e incertezas, cenas e amarguras, depressões e ansiedades. foi ele que pegou nos beijos que eram meus e os reconstruiu, um a um, tornando-me melhor, maior. contando os pedaços das minhas lágrimas para transformar em sorrisos, com os beijos que me oferecia quando nenhuma palavra me acalmava o coração.

 

ainda assim, ele deu-me o mundo que me permite ser eu e respirar e sentir e olhar os dias como sendo um pedaços de mim e não momentos de meus onde eu me intrometo à força. deu-me ursos de peluche do tamanho de pessoas quando eu chorava do desespero das situações que criava. deu-me a mão quando eu julgava que não aguentaria, outra vez, a dor de viver. contou-me histórias para adormecer quando a ansiedade aumentava e o sono não vinha. telefonou-me de hora a hora para saber se eu ainda continuava a respirar quando me recusava a fazê-lo. fez-me sorrir quando eu só queria chorar. fez-me rir às gargalhadas quando eu só queria rir. deu-me a mim própria o que eu era e não sabia, escondida numa névoa de desilusão. 

 

ainda assim, ele cantou para mim, de manhã, quando me ia levar ao trabalho por eu estar incapaz de conduzir na dor que me queimava e eu não sabia de onde. caminhou comigo debaixo de chuva quando eu precisava de arejar e apanhar vento na cara para me sentir viva. arrancou-me numa dança de amor do abismo onde me queria enterrar. dançou comigo enquanto montávamos a árvore de natal para me dar a magia que eu precisava e murmurou-me, todas as noites desde que principiou a amar-me, que era eu era a vida dele.

 

ainda assim, ele disse que, como assim, não precisaria jamais de me despedir dele com um beijo de filme numa estação de comboios porque ele não iria para lugar nenhum para onde eu não fosse.

 

e eu que julgava que não sabia o que era o amor.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:06


19 comentários

Imagem de perfil

De Magda L Pais a 16.04.2015 às 15:31

nunca pensei dizer isto nesta tasca (que sabes bem o quanto gosto dela, da tasca) mas amei este texto, é lindissimo e sente-se que é sentido. Parabéns por esse amor que não sabias que podias sentir e inspirar
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 16:31

tens de ir ao faz de contos para veres a faceta desta personagem aqui :)
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 16:32

*a outra faceta
Imagem de perfil

De Petrolina a 16.04.2015 às 16:23

Soberbo. Afinal sabes melhor que muitas o que é o amor. :)
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 16:32

tive sorte. uma sorte imensa.
Imagem de perfil

De Pandora a 16.04.2015 às 16:39

Foda-se, pá. Quando é que escreves um livro, dos bons, daqueles que nos fazem arrepiar os pelos da nuca e sentir as lágrimas nos olhos, tamanho é o sentir que transborda das palavras que nos dançam à frente dos olhos?! Como tu dirias, escreves bem pra caralho!
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 17:30

és muito querida. sempre que alguém elogia a minha escrita fico com vontade de me ajoelhar a agradecer (não estou a ser irónica).
tenho muito medo de escrever uma coisa mais séria. nem me parece, sequer, que seja capaz.
Imagem de perfil

De Pandora a 16.04.2015 às 17:33

São bloqueios que colocas (coloco-os eu também) a ti própria. Escreve como escreves aqui, escreve com alma, com sentimento, com o sangue que te corre nas veias, com as lágrimas que te escorrem pela cara. Escreve porque faz-te sentir viva.
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 17:48

acho que vou tentar. e depois mesmo que não saia nada de jeito, pelo menos sempre estive a fazer uma coisa que gosto :)

obrigado.
Imagem de perfil

De (des)Esperança a 17.04.2015 às 13:34

CALA-TE E ESCREVE !!!
Imagem de perfil

De M.J. a 19.04.2015 às 17:22

queredo. calma. isto não é como fazer omeletes. :P
Sem imagem de perfil

De diana a 16.04.2015 às 21:36

oooh...tão bonito!!
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 23:19

merci.
Sem imagem de perfil

De Cris a 16.04.2015 às 23:49

Eu agora dei-me conta que a maior parte dos favoritos que tenho posto nos últimos tempos são de textos teus...
Imagem de perfil

De M.J. a 16.04.2015 às 23:50

e eu fico muito lisonjeada por isso :) acredita.
Imagem de perfil

De (des)Esperança a 17.04.2015 às 13:35

estupeda, fizeste-me chorar... <3
Imagem de perfil

De M.J. a 19.04.2015 às 17:22

és uma fofa.
Sem imagem de perfil

De marta a 21.04.2015 às 11:59

Fantástico!
Não conhecia o blogue, mas vou ficar cliente da tasca. Pelo que li ali em cima servem-se bons petiscos e vinho carrascão... além dos textos, este por exemplo é dos melhores que li nos últimos tempos.
Imagem de perfil

De M.J. a 21.04.2015 às 16:47

oh... muito obrigado. nem sei que diga... fico realmente comovida quando gostam das palavras que escrevo.

Comentar post