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há três anos que não vou ao carnaval.

não que isso interesse a ponta de um nariz de palhaço.

a última vez que vi gente fantasiada, em cortejos de samba e chuva foi noutro tempo, noutra vida, quando me humilhava em algo que apelidava de amor e me escondia de mim fingindo ser o que não era.

ah, bons tempos.

 

às vezes penso que nunca perdoarei nem recuperarei totalmente do que fui naquela altura.

ou da pessoa que me ajudou a chegar aquele ponto.

verdade seja dita, sei-lhe das dores, fortes, como pontapés nas trombas, num moer doloroso que o vai corroer os anos todos que respirar. e não me entristeço.

o karma é fodido.

 

tem dias que tudo aquilo me é indiferente, num desprezo maior.

depois, se penso no assunto a sério, percebo que quando ele me deixou para morrer sozinha, assim nesse dramatismo que me consumia na época, levou-me também necessária e ordinariamente  pessoas que faziam parte da minha vida, desde sempre, e que eu afastei porque de uma forma ou outra o desculparam, o perdoaram.

não fincaram o pé na certeza de que ele estava mal.

 

acreditem:

quando temos amigos que cultivamos durante anos, num sentimento leal e fraternal de irmandade esperamos que fiquem do nosso lado quando a pessoa com quem partilhamos amor decide que já chega.

chama-se talvez lealdade, ou amizade.

por mais que estejamos errados. 

 

acho que foi isso que não perdoei a muitas, ou pelos menos algumas, pessoas dessa época. fiquei sempre com o rancor, a certeza que mais dia menos dia iam sair com ele, em grandiosos cafés de amigos, falando de como a MJ era ridícula no seu sentimento mórbido e tétrico, na sua doença estúpida e de como ele estivera bem em pegar nas botinhas e sair da relação.

que no fundo esteve.

se algum dia ultrapassar o rancor talvez lhe mande um bilhetinho a agradecer o gesto e a decisão.

até essa altura espero que tenha muitas vezes diarreia. 

 

nesse tempo não perdi só a pessoa de quem estava absurdamente dependente. perdi amigos, que afastei com garra por me dizerem, de uma forma ou outra, mais claro ou menos, que ele não tinha culpa.

tenho a certeza, ainda hoje, que nenhum amigo que se preze tinha o direito de mo dizer, estando eu no estado mental que estava. era obrigação deles soltarem caralhadas em direcção ao homem, apelida-lo de cobarde, como fora.

ainda que eu estivesse impossível de aturar. 

 

não o fizeram.

assumiram que a culpa era minha, que talvez fosse, e não esperaram que eu ficasse saudável para exprimirem essa opinião.

mas de que caralho vale dizer a um esquizofrénico em plena crise que não está, não senhor, a jantar com dez pessoas? não é melhor brindar com as dez até a crise passar e depois dizer-lhe que as cadeiras estavam vazias e que ninguém tocava violino ao cimo da mesa?

 

é por isso que não posso, não vou retomar a amizade que ficou ali parada, naquele ponto.

tenho a consciência de ter feito o melhor que podia e sabia à época e que nenhum deles o fez também. 

decidiram manter, estranhamente, um sentimento de justiça na defesa do fulano que conheceram através de mim no período mínimo de alguns meses em contrapartida da pessoa que conheciam há anos e que sempre fizera tudo para os apoiar.

 

está aí a explicação. 

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publicado às 10:30


6 comentários

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De diana a 18.02.2015 às 17:44

Sem enfiar o barrete que ele servirá apenas a quem o quiser meter, vejo-me impelida a comentar:

não estamos sempre certos...e eu, necessariamente, não estou.
não agimos sempre certo...e eu, necessariamente, não ajo.

temos opiniões diferentes sobre muita coisa...e neste texto tendo a concordar e a discordar, veemente, da tua opinião.
dizes que tens "a consciência de ter feito o melhor que podia(s) e sabia(s) à época"...resta saber se depois da época também o fizeste? se o fazes hoje.?...a época passou...interessa-me o agora..

eu tenho a consciência que, não tendo consciência, pouco se pode exigir...pouco se deveria ter exigido...

contudo, tendo-a (a consciência) acho que nunca fazemos o que podemos, porque podemos fazer sempre mais...lixado(fodido na linguagem do tasco) é admitir essa consciente inacção. Fácil é culpar os outros pela nossa própria inacção, e imputar ao passado o que hoje não se tem vontade de fazer...

A tua inteligência sempre me fascinou...tenho a consciência de muito fazer para que te lembres de mim, nem que seja apenas te arreliar em comentário pobre como este. Gosto de ti...

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De M.J. a 18.02.2015 às 17:50

"Fácil é culpar os outros pela nossa própria inacção, e imputar ao passado o que hoje não se tem vontade de fazer"

A nossa própria inacção pode ser derivada do passado. No meu caso é. Sempre foi. Nem sempre conseguimos perdoar. Sobretudo se somos rancorosos e nos magoaram tão fundo que jamais o esqueceremos. Se quiseres podemos falar sobre o assunto directamente, sem ser aqui, nesta pobre taberna suja. Ainda que o meu telemóvel nunca tenha dado sinal de ocupado para ti. E creio que nunca dará.

(e não me importo que me exijam coisas quando sintam necessidade disso e o laço o justifique.)
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De diana a 18.02.2015 às 19:51

Comecei por dizer que não enfiei o barrete...E o teu telm nao deu sinal de ocupado. Noutra vertente, eu acho que ainda tenho o mesmo número...

Falar sobre isso?eu?...não...sobre o passado não tenho nada a acrescentar. Se tu tiveres, claro, estarei cá para o ouvir, para concordar e para discordar.... Há passados que irremediavelmente são para esquecer.
Há outros que serão sempre para lembrar. Ainda há saladas, sandes e o parque??E as pizas a meio da avenida?

De todo o modo, a mim interessar-me-à sempre mais falar sobre o presente.Como está Aveiro?e pa kndo uma visita a nobre briosa?
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De diana a 19.02.2015 às 16:33

existem respostas dentro das não-respostas;(
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De M.J. a 19.02.2015 às 16:47

não é uma não resposta. mas ás vezes as palavras entram em nós de forma crua. precisamos de tempo para as digerir. bem sabes que "as palavras são pedras".

aveiro está bem, não sei quando vou a coimbra, depende dos planos dos próximos fins de semana.
mas se for para marcar qualquer coisa aí podemos combinar e assim há um dia e hora para aparecer :) que não apenas circunstâncias banais :)
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De diana a 20.02.2015 às 12:17

ok...aguardo então...

não esqueças que tudo isto porque gosto imensamente de ti...
e até já me habituei a este tasco sujo...manda vir um tinto!!

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