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dos lençóis

por M.J., em 07.03.15

não gosto de betos, meninos bem, senhores com ar fino e ar de que a vida lhes obedece com serventia.

nunca gostei. gente que diz fosgasse em vez de foda-se, modela as palavras com a língua toda e enuncia que a crise finalmente chegou porque este ano, pasme-se, não conseguiu ir de férias para o exterior (chiquérrimo) as duas vezes que ia anteriormente.

 

há uns meses fui obrigada a ir a uma festa muito chique, numa quinta ao entardecer, com gente repleta de roupas caras, sapatos do mesmo preço de ordenados e música ambiente ao vivo. pois que saí ainda antes de acabarem as entradas (ah a maravilha de sopa de tomate fria em copo de shot) com uma desculpa esfarrapada.

não consigo.

afasto-me dessa gente com asco. crio para mim, por contraste propositado, uma personagem, uma pessoa bruta e mal encarada (e na verdade, se me conhecêsseis saberíeis que raramente digo asneiras, solto um berro, frequento tascos ou arroto impropérios).

 

não sei porquê este enjoo a gente bem.

quando andava na faculdade davam-me vómitos as meninas com ar queque e frágil de quem parte à mínima rabanada de vento. meninas tísicas, saltos gigantes, que abriam muito a boca nuns dentes brancos de aparelho desde adolescência e que se embebedavam à noite, com bebidas brancas, mas ar fino. meninas que, tenho a certeza, estavam convencidas que a merda delas (ia dizer cocó mas arrependi-me) cheirava a tulipas e quando vomitavam saíam rosas (ou outra plantinha mais chique).

e ainda assim, meus senhores, as lindas figuras que vi tantas fazer!

 

uma vez, numa inusitada loucura, saí com uns amigos até a um bar, na avenida.

era tarde já, o álcool abundava, o curso estava ali, perto do fim e nós soltávamos impropérios à vida, na falta de rumo a tomar. a meio da noite uma rapariga apareceu a convite de um dos elementos do grupo. ar bem, cabelo estupidamente alinhado, roupa devidamente conjugada, aparência cara de quem sabe o que veste. menina rica a quem as dificuldades maiores se traduziam em anunciar ao mundo que a faculdade "era uma coisa triste porque se via muita gente vestida com roupa de marca".

mal chegou olhou-nos a todos, ar de desprezo, cumprimentou levemente com um aceno de cabeça os conhecidos e afastou-se para outra mesa, onde permaneceu o resto da noite na companhia de outro fulaninho, fazendo questão de se manter devidamente desviada do grupo com que viera ter, lançando olhares de secura,  com chicotadas de cabelo, como se tivéssemos piolhos ou, na melhor das hipóteses chatos saltitões.

 

esse episódio, dessa noite absolutamente banal, permaneceu sempre comigo, como tantas outras banalidades que o meu cérebro faz questão de guardar. creio, na verdade, que se pudesse tinha-lhe vomitado em cima as bebidas engolidas de um travo.

não vomitei.

tinham-me sido bem caras.

 

conheci muita gente assim, depois do curso acabar. gente nova rica, a fingir ter classe e educação que, logicamente, não existia e cuja ausência combinava com as unhatas de gel e o asneiredo dito em surdina.

gente pobre armada em rica, a comprar roupas caras com cartão de credito e queixando-se o resto do mês que não tinha como pagar os sapatos.

 

tanta gente meus senhores!

gente que explorava outra gente para usar vestido um trapinho do mesmo preço com que pagava a subalternos necessitados. gente bem, armada em bem, que batia com as mãos no peito para jurar classe e valores e que não passava, meus senhores juro que não, de gentinha pequenina, triste, amarelecida, cavalgaduras moles, de um nível pior, muito pior, do que os senhores que nas tardes de verão se sentam na tasca da aldeia, a jogar à sueca e a escarrar ao chão, bebendo tacinhas de vinho fraco.

 

nunca mais soube da menina que recusou a companhia dos pobres numa noite de bebedeira em coimbra.

mas acredito, ao que tenho visto, que esteja por aí casada, dois filhos de grandes laços na cabeça de melão, a fazer fretes ao marido, ar alinhado, rico, decente, dizendo com voz em risco "bernardo atenção, não se venha nos lençóis de linho".

 

será, possivelmente agora, que alguém me dirá que tenho inveja.

e eu, só porque gosto de ser do contra, digo que sim, muito séria e compenetrada.

 

o meu sonho sempre foi dormir em lençóis de linho.

não nos da avó em noites frescas de verão, mas dos adquiridos (ia dizer transaccionados, mas o que é demais e demais) em lojas cujos nomes se pronunciam com sotaque estrangeiro.

s-e-m-p-r-e.

 

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publicado às 22:48


2 comentários

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De Gaffe a 09.03.2015 às 17:18

Descreves um grupo abjecto que não representa de forma nenhuma uma classe realmente favorecida que existe realmente neste país.
Há uma exígua margem ocupada por gente muito interessante que nada tem a ver com as criaturas que descreves ou com o grupelho que inclui, não esqueçamos, os Espíritos Santos do reino, mas que pode ser misturada neste teu post.

Corremos sempre o risco de generalizar e isso é pena.
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De M.J. a 09.03.2015 às 17:39

acredita que quando escrevia este post pensava exactamente no que dizes.
o objectivo não era generalizar. foi por isso que à medida que ia escrevendo ia tentando exemplificar. até porque acho que os realmente favorecidos e interessantes - não isto a que me referi - não têm as atitudes, os (ou a falta dos) valores e a falta de senso comum que falei no post.
acredita que não queria generalizar ainda que, admito, isso tenha acontecido na vontade de passar uma imagem. penitencio-me por isso.

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