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dos monstros

por M.J., em 28.02.15

tenho tido insónias. recorrentes. dei por mim a socorrer-me dos químicos depois de desesperar horas sem conseguir dormir. não sou uma pessoa que tenha paciência para esperar pelo descanso.

viro-me de um lado, do outro.

incomodam-me as calças do pijama. volto a virar-me para as compor.

a almofada está muito alta, bato-lhe com força num basqueiro parvo.

sinto frio nas costas, puxo lençóis e cobertores.

tenho calor, ponho os pés de fora. fico com frio.

o cabelo incomoda-me. levanto-me e vou à casa de banho. amarro-o. volto à cama.

as calças do pijama novamente sobem até ao joelho, numas rugas que me chateiam.

viro-me. fico destapada, outra vez. puxo os cobertores que entalo nas costas.

o cabelo está repuxado no elástico e dói-me. desamarro-o. faz-me comichão no pescoço.

fico de barriga para o ar, na escuridão, a olhar o tecto. a vizinha de cima levantou-se e caminha em passos pesados até à casa de banho. o silêncio percorre tudo, apenas os passos dela a entoar nos meus ouvidos e a respiração profunda do rapaz ao lado.

sinto vontade de fazer xixi. levanto-me. não encontro os chinelos. vou descalça.

volto à cama. tenho os pés gelados. encosto às pernas dele, que nem dá conta.

o lençol por baixo de mim está enrodilhado de tanta volta e incomoda-me as costas. tento ficar quieta um minuto que seja. o cérebro foge-me para um dos livros que ando a ler. penso que o eça devia perdoá-la. é compreensível a traição com o primo. abano a cabeça. sei o livro de cor, de trás para a frente. é estúpido lê-lo tantas vezes e não ler nada novo.

de repente dou conta que não leio nada novo há muito tempo. repito os mesmos, num medo de perda de tempo. só quando jantava com uns amigos do rapaz, há uns tempos, e ele disse que eu não conseguia ver nenhum filme, nenhuma série, nenhum livro sem primeiro saber o final é que percebi que é verdade. não há um único filme em que não vá ver na net o desfecho antes de decidir se o vejo. já comecei a ver um desses concursos que, apesar de estar a gostar, desisti no terceiro episódio porque descobri na net que ganhava um rapaz que eu não gostava.

continuo sem sono. nem uma ponta. já pensei em mil coisas. às vezes tenho o truque de visualizar mentalmente todos os ingredientes das minhas receitas preferidas,ou as personagens dos meus livros de sempre. quase resulta mas acabo por acordar esfomeada ou com sonhos parvos.

acabo por me virar mais umas três vezes. sinto os olhos cansados, a cabeça pesada mas não consigo dormir.

tenho sede. ignoro mas a vontade aumenta de tal modo que vou à cozinha buscar a água.

quando me deito uma comichão atroz espalha-se na perna direita. coço. não passa. se continuar sou capaz de coçar até fazer ferida. paro.

uma frecha de luz entra pela janela mal fechada e estende-se pelo quarto todo.

lembro-me que li alguém dizer que o verdadeiro amor nem sempre dá borboletas no estômago.

se olhar as horas e vir que é tarde fico ainda pior.

apetece-me chorar.

 

tenho monstros que me abrem os olhos quando quero dormir.

 

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publicado às 23:50



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