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dúvidas

por M.J., em 18.05.17

aos 16 anos tinha certezas de tudo.

do que queria, do que não queria, quem era e quem não era.

certezas do que acreditava. do que estava certo e totalmente errado, sem meias medidas. o meu cérebro era um pedaço de água límpido, plenamente consciente de tudo. 

eu era e por ser sabia quem era.

 

aos 29 - ainda não tenho 30 e quero gozar esse facto o mais tempo que puder -  perdi totalmente essa capacidade.

o mundo deixou de ser transparente e claro.

as minhas convicções desapareceram e deixei de saber no que acredito. evidentemente que há coisas que claras, quase transparentes de tão lúcidas: onde vivo, como me chamo, que idade tenho, onde nasci. mas tudo o resto é uma continua aprendizagem, um completo reformular de coisas, um total e absurdo questionamento.

sei onde nasci mas não sei onde é a minha casa.

sei quem são os meus pais e o amor que lhes devoto, mas não o entendo na sua totalidade e completa essência.

sei quais são os valores por que me pauto, mas não todos e alguns perdem-se e outros encontram-se.

sei o que certo mas não sei o que é certo e sei o que é errado mas não sei o que é errado.

não há certezas de nada nem em questões tão fraturantes.

fui obrigada por uma data de circunstâncias a olhar sempre para o caso em concreto e não generalizar, mesmo que na maioria das vezes caia nessa falácia.

aponto o dedo ao Outro, em impulso e depois perco horas num questionamento do que faria no lugar do Outro mesmo nunca sabendo ao todo porque não o sou, nas suas particularidades e circunstâncias.

questiono muito mais do que afirmo e mesmo quando afirmo acabo por questionar.

 

aos 29 não sei bem o que que quero porque vou querendo e deixando de querer à medida que o tempo passa.

aos 29 as coisas são uma espécie de neblina que vou desbravando sem saber bem quem me espera do outro lado que sou eu.

 

não imagino o tempo ou a personalidade dos outros no que diz respeito a descobrir quem são e o que querem.

na maior parte das vezes, acredito até - sem certeza alguma - que grande parte das pessoas se vá deixando ir, dominada pelos traços de personalidade e circunstâncias sem pensar, raciocinar, perceber os motivos do que sente ou do caminho que optou. 

queria tanto ser mais do que isso e ao mesmo tempo não ser.

 

deus, como é difícil. 

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publicado às 15:05


5 comentários

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De Malik a 18.05.2017 às 15:14

Chama-se crescer, não é? Quem disse que era bom? Ou mau?
Pois... quando nos dispomos a uma reflexão para responder a três questões e acabamos sem nenhuma resposta e o triplo das questões... estamos no bom caminho. (seja lá o que isso for)
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De Margarida a 18.05.2017 às 15:47

É engraçado que também eu... aos 29 me sinto assim! Deve ser do crescimento ou então não sei!
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De Corvo a 18.05.2017 às 16:37

Atingiu a meta. Nada mais há a acrescentar.
Vai continuar sempre a saber o que é certo sem saber o que é certo.
O mesmo para o errado.
Deixou de saber no que acredita, e vai continuar sempre sem saber.
Aponta o dedo por impulso, e vai apontá-lo sempre
Questiona-se depois por que o fez, e vai questionar-se sempre
E por aí adiante em todas as dúvidas que enumerou.
Será sempre igual agora aos 29 aninhos como o será aos 92
A única diferença, MJ, - se é que se pode chamar diferença à normalidade, - é que com o avançar da idade essas dúvidas vão-se perdendo, ou melhor; metamorfoseando em conveniências ajustadas aos nossos interesses que o cinismo e a mentira foram aperfeiçoando.
Mas não se sinta mal por isso. Em não sei quantos biliões de pessoas encarrapitadas neste planeta, de qualquer cor ou crença, seguem todas o mesmo paradigma.
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De Filipa a 18.05.2017 às 16:40

Aos 31 e meio posso dizer que deixei de querer coisas que talvez há uns cinco atrás juraria a pés juntos que nunca ia desistir. Não sei se foram as circunstâncias da vida ou o próprio crescimento que me influenciou mas hoje sei como nunca que é bom ter duvidas, faz-nos pensar "fora da caixa", ver as coisas de outra perspectiva, aprender que não podemos -e nem devemos - dar nada como garantido.
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De Fátima Bento a 18.05.2017 às 17:17

Sabes, eu tenho 49 e continuo às voltas com essas mesmas questões e exercicios.
Felizmente.
No dia em que as respostas às perguntas que (me) faço deixarem de terminar num ponto de interrogação, a vida perdeu a razão de existir.

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