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e é isto

por M.J., em 24.10.16

há dois anos atrás despedi-me.

gostava muito de dizer que acordei um dia de manhã e decidi bater com a porta mas não foi isso. foram antes meses de uma intensa ansiedade, incapacidade de lidar com alguns aspectos e uma perene certeza de que ali "não ia ser feliz". 

como muita gente fiz contas à vida e ponderei aspectos. ninguém se despede no mundo actual. espera-se que alguém nos despeça e depois lamentamos a vida injusta. eu achava que era esse o percurso certo:

que não fazia sentido dar cabo de uma coisa segura.

que eu fazia parte de um trabalho e perderia quem sou se o perdesse a ele.

 

ainda assim vim embora. sem nada à espera do outro lado. como quem dá o salto na espera de não partir as duas pernas na queda. e não pensem que foi coragem que analisando bem tudo, assumo ter sido só incapacidade de lidar com as pessoas na minha inabilidade social. foi a certeza que ou batia com a porta ou dava cabo da minha sanidade mental.

vim embora, pois então.

acima do receio do amanhã vinha a certeza de que vivemos uma vez só e não podia continuar a viver dois dias por semana sobrevivendo em torturas nos restantes cinco. que não poderia transitar pela vida com a sensação que as horas eram perdidas em função de nada e que dinheiro algum seria uma recompensa pela ausência de ansiedade.

os primeiros dias no desemprego* foram uma merda. ainda que tenha descoberto um ritmo que não vivia desde os dezoito anos, com possibilidade de passar horas numa esplanada, sentir o sol às quatro da tarde ou caminhar sem destino no momento em que quisesse, essa sensação de liberdade não era capaz de eliminar os gritos de inutilidade, vazio, incertezas e dúvidas: durante anos fora medida pelo meu trabalho e agora vivia ao deus dará, como se tivesse arrancado um braço, uma perna ou algo integrante do que era.

depois, com o tempo, a sensação desvaneceu-se e comecei a poder amadurecer. não imaginam como conseguimos transformar-nos, abrir a mente, ganhar conhecimento acerca do nós e do outro se a ansiedade de ver perder a vida for eliminada.

cresci de uma forma estonteante. da forma que não pude crescer quando era suposto porque ocupada a trabalhar.

realizei sonhos: escrevi um livro, editei um livro, fui pedida em casamento, casei. visitei países. descobri que gosto de fazer certas tarefas domésticas. aprendi a beleza da alquimia de um chá quente com um bolo de maçã. mesmo que feito com farinha integral. percebi como é dedicar-nos ao outro e cuidarmos da vida que construimos em conjunto com amor. compreendi a beleza de flores frescas numa jarra e a maravilha de esperar alguém que amamos depois de transformarmos uma casa num lar.

uma autêntica pirosa, bem sei, mais ainda assim é quem sou. 

 

ah MJ, ouço as vozes, isso é tudo muito bonito desde que haja pilim, massa, aquilo que faz mover o mundo. 

bem sei, e é esse o busílis da questão. quem é despedido e não tem como pagar o tecto onde dorme está pouco importado em ter um lar ou amadurecer. precisa é da certeza que pode fazer face a um sem número de despesas e não que está mais apto à convivência com o próximo.

eu tive sorte, confesso. mesmo em casa pude trabalhar por freelancing, controlando o que fazia, como fazia, quando fazia e tive, nos momentos em que isso não chegava, alguém do meu lado a amparar-me. 

uma sortuda, mas as coisas são o que são. 

 

em resumo, foram os dois anos mais serenos da minha vida: mesmo com dúvidas acerca do presente, incertezas relativamente ao que fazia com o meu futuro, questões se não estava a desperdiçar capacidades.

foram os dois anos mais compensadores da minha vida: mesmo sentindo, às vezes, o estigma de estar a ficar muito para trás, o não conseguir enfrentar colegas que continuavam.

foram, garanto, os dois anos em que mais cresci. 

e agora retomo. 

não no mesmo ponto onde fiquei, evidentemente, mas com uma inteligência emocional superior. retomo ao mundo da gente crescida com horários que não controlo, a impossibilidade de trabalhar de pijama ou remela nos olhos e ainda a certeza de que não posso evitar falar com pessoas, o sorriso nos lábios, o trato cordial e as excelências da vida sempre que solicitadas. 

agora retomo.

muito mais preparada do que algum dia estive. e se alguma coisa aprendo - eu que nada sei acerca da vida - é que vale a pena bater com a porta quando sentimos que desperdiçamos mais horas a sobreviver do que a viver. nunca estamos presos a nada mesmo quando há algemas. um trabalho é só um trabalho mesmo que pareça tudo o que somos. e ter tempo para nos conhecermos vale mais do que qualquer salário do mundo. 

juro. 

nem sempre insistir é sinónimo de coragem: às vezes, acreditem, é de uma intensa cobardia.

há lá cobardia maior do que perder vida perante os próprios olhos?

 

*diz que está desempregado quem não estando a trabalhar procura activamente emprego e isso não se confunde com a imagem que querem fazer desse facto, com a ideia de coitaditos, números, estatísticas, gente sem ter o que comer e esfarrapados. no entanto, o estigma acerca do desemprego é coisa para outro post.

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oh vai ver ali:

publicado às 10:15


18 comentários

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De sarabudja a 24.10.2016 às 10:30

Cuido que tens razão.
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De M.J. a 24.10.2016 às 18:54

experiência (também) própria?
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De sarabudja a 25.10.2016 às 09:14

Só na mudança de curso. Que assustou todos. A primeira assustada fui eu mesma, como é óbvio.
Imagina: estava em educadores de infância e soltei a bomba: detesto ver/falar/brincar/ensinar os mesmos meninos todos os dias durante horas.

Eu: criatura talhada para a criançada. Desde miúda que cuidei dos mais pequenos. Tirava um tempinho dos meus dias para ir até à creche do colégio. E conseguir perceber tal coisa?!

No mundo laboral já fiz algumas coisas diferentes. Algumas por opção própria, outras por acaso. De todas gostei. Adoro o que faço. Mesmo, de coração e de corpo. Não gosto tanto de algumas pessoas com quem tenho de conviver para fazer o que faço, mas muitas portas nos separam e tenho conseguido gerir este desamor.
Daqui a uns anos, quando a paciência para a pirralhada (sim, trabalho diariamente com meninos, mas não são sempre os mesmos) me faltar, imagino-me voltar para Cabo Verde e ter um lugar simpático para menos de meia dúzia de turistas.
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De M.J. a 25.10.2016 às 09:18

não digas a ninguém:
desde que voltei de cabo verde que penso voltar. andei mesmo a ver possibilidades de trabalho.
sou uma sonhadora, bem sei, mas tocou-me de alma e coração.
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De sarabudja a 25.10.2016 às 09:30

Na tua área (direito) e na área do teu marido (informática?!) há sempre emprego. E, no que a ti diz respeito, em aspectos muito nobres como o empoderamento das mulheres, a protecção de menores, e, claro, nas outras questões legais, que, não sendo menos nobres, não me são tão caras.
Não se trata de ser sonhadora, digo eu. Há qualquer coisa de muito bonito na simplicidade de ser feliz.
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De (des)Esperança a 24.10.2016 às 11:22

muita sorte, meu amor.... muita sorte! que empenho sei que tens!
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De M.J. a 24.10.2016 às 18:58

obrigado minha querida
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De Novembro a 24.10.2016 às 11:43

Bom dia!
Fico feliz pelo que conseguiste alcançar. Eu sinto o que descreveste, a inutilidade e frustração do tempo perdido a trabalhar. Sinto que me roubou muito da minha vida. Roubou-me demasiado tempo... e não me permitiu usufruir da companhia dos que mais amo e de quem já partiu/morreu e eu muito amava.
E a recompensa monetária simplesmente dá para sobreviver. Já necessitei de ter 2 trabalhos.
Queria mudar, como tu fizeste. Dou voltas a pensar como?! Ainda não consegui encontrar solução. Dependo do meu pequeno salário para comer, pagar habitação e tudo o que está inerente.
Não perdi a esperança...
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De M.J. a 24.10.2016 às 19:00

não é fácil, sobretudo quando se está entre a espada e a parede... lamento.
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De cb a 24.10.2016 às 13:21

ui que texto tentador....obrigado pela tua partilha....mulher de coragem!
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De M.J. a 24.10.2016 às 19:00

às vezes a única maneira de viver é deixar de sobreviver ;)
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De Quarentona a 24.10.2016 às 13:23

Eu, cobarde, me confesso... mas são quase 17 anos de casa, sendo que o mal estar instalou-se nos últimos 3/4 anos, por isso o saldo ainda é positivo e a esperança que uma próxima mudança reponha a alegria no trabalho continua intacta. A ver vamos...
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De M.J. a 24.10.2016 às 19:00

está é a minha experiência. não quer dizer que quem insiste seja cobarde. pelo contrário: são sempre dois os lados da moeda.
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De Violinista a 24.10.2016 às 14:56

Acho que é preciso ter coragem para se fazer isso, olha que não é fácil. E sim, um bocado de sorte também.
Leio-te um pouco mais amadurecida e, talvez, determinada. Só te posso desejar boa sorte e força para isso.
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De M.J. a 24.10.2016 às 19:01

sim, mais amadurecida do que pensei.

obrigada.
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De Susana a 25.10.2016 às 13:33

Boa sorte para essa nova etapa :)
Já agora, posso saber o nome do livro que escreveu?
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De Maria Araújo a 25.10.2016 às 19:56


Gostei muito de ler este post.
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De Claudia a 27.10.2016 às 17:49

O meu marido arriscou o mesmo há mês e meio, foi a decisão mais difícil das nossas vidas, mas concordo a 100% contigo - vivemos uma vez só, let's make it count.

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