Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




é isto

por M.J., em 03.11.16

(confusão de coisas, escritas sem nexo, numa espécie de entrevista a mim própria, sem qualquer cuidado de compreensão. se não perceberem o problema não é, de todo, meu).

 

uma vez tive uma paixoneta por um tipo estranho. foi uma coisa rápida, duas semanas não mais, que nem me levou sequer a aproximar-me, seguindo-o com o olhar, ao longe. era vermelhusco, meio careca, não dizia duas frases seguidas e tinha um ar constante de peixe fora de água. e eu tinha dezasseis ou dezassete anos e estava completamente fascinada por aquela pessoa.

ai MJ, que visão do diabo (sempre que estiver em itálico e alguém me vier dizer ai MJ imaginem uma voz fininha de alguém sabedor) tinhas paixonetas estranhas aos dezasseis?

sim. aos dezasseis, aos vinte e aos vinte e cinco (e outros anos que não me lembro). 

é que não sendo gostar era ainda um fascínio por algo que ao moço fascinava: a paixão pela música. era um músico excelente e demonstrava, sempre que o fazia, o transporte para uma outra dimensão. como se o vermelhusco, a careca e a incapacidade de dizer meia dúzia de palavras fossem apenas uma máscara para uma revelação maior, apenas acessível a quem quisesse, de facto, olhar. 

o homem não tocava: o homem era a arte que a minha pequenez acerca do mundo conseguia vislumbrar. 

depois, duas semanas após, passou-me, como me passaram sempre esses fascínios de "descobri alguém tão superior ao que sou" porque ninguém é só maravilhoso e eu não tinha pejo em desiludir-me.

o para maravilhar o outro existe e nem sempre direccionado para o evidente. ao longo dos tempos, e reavaliando relações (não interessa se curtas, se longas) descubro um padrão: a paixão que aquela pessoa em concreto depositava em algo. o intenso brilho nos olhos quando falava (se fosse capaz) acerca do assunto. o conhecimento profundo sobre algo que me embebecia a pontos de ir olhando, com  ar de rafeiro à cata do dono. como que uma revelação, um milagre qualquer que transportava para uma outra dimensão. a capacidade de entrega, quase absoluta, a algo que fazia parte daquelas pessoas de uma forma mais completa do que qualquer outra coisa. 

fascinante, que me levava a não querer saber se tinha um ar absolutamente estrambólico, sentado ao canto, incapaz do relacionamento com o outro ou alheio ao mundo como o conhecemos, numa espécie de autismo canalizado para algo.

constato que na maior parte das minhas relações (quase todas falhadas) me apaixonava pela pessoa mas, sobretudo, pela idealização do que via nela. pelo sentir do sentir que devotava a algo que a apaixonava. como se eu tivesse direito de gostar (amar é tão forte, meu senhores) de alguém pelo que esse alguém amava em detrimento dele mesmo (sim, não é compreensível, temos pena). 

aproximei-me dos esquisitos porque eu própria o sou.

e tenho medo que um dia destes, qualquer que seja, perceba que coloquei de lado a estranheza, demasiado moldada ao que me é pedido para ser com o outro.

felizmente que o meu outro devota tanta paixão a algo que lhe vejo sempre a estranhice que venero.

nerds rules!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:30


4 comentários

Imagem de perfil

De Gaffe a 03.11.2016 às 12:21

Claro, MJ!
Só vale a pena apaixonarmo-nos por aqueles que nos fazem sentir como se estivéssemos numa gare e que passa de repente o alfa enquanto esperávamos pelo regional.
Imagem de perfil

De Gaffe a 03.11.2016 às 13:15

Agora com mais tino.

O que receio é que esta atracção por génios, não passe de esperança. Acreditamos que o amor que dedicam a determinadas coisas, possa ser canalizada para nós.
Imagem de perfil

De M.J. a 03.11.2016 às 16:40

tudo dito meu amor.
tudo dito.
Imagem de perfil

De Violinista a 03.11.2016 às 16:39

Palmas. Sim, é isso, sinto o mesmo, mas conseguiste pôr por palavras melhor do que eu tenho tentado escrever.

Comentar post



foto do autor