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empire state building

por M.J., em 26.06.18

quando tinha uns dez anos descobri lá por casa - numa casa muito parca em livros - um volume de uma colecção das maravilhas do mundo.

não sei hoje que colecção era e perdi o rasto ao livro. mas lembro que ele estava numa estante ao lado de uma série de documentos e, na altura, apoderei-me dele como se fosse meu.

contrariamente à casa da minha avó - que tinha uma caixa enorme de papelão repleta de livros guardados como tesouros, aos quais só podia aceder com a devida autorização - em minha casa os livros que existiam eram os que eu, desde muito tenra idade, comecei a coleccionar, comprados na escola com o dinheiro do almoço ou oferecidos por quem sabia que eu gostava da coisa.

aquele volume portanto, das maravilhas do mundo, de capa dura e frases pomposas, com fotografias enormes e um papel suave nos dedos, assemelhava-se a uma relíquia, a um milagre estranho, ali depositado na prateleira dos documentos a que, supostamente, eu não devia ter acesso.

 

durante umas férias inteiras de verão - sem certeza, mas creio que as férias que marcaram a passagem do ensino primário para o ensino básico - eu apoderei-me do livro sem ninguém ver, colocando-o depois no sítio com muito cuidado. e li-o praticamente todo. é verdade que as primeiras páginas foram lidas por necessidade: não tinha mais nada para ler, nem sempre a minha vizinha podia andar na brincadeira comigo, o sol abrasador serrano não permitia que estivesse sempre na rua e não tinha irmãos com quem brincar, numa altura em que estando os meus pais a trabalhar fora de casa, não havia problema de eu ficar sozinha. no entanto, as  páginas seguintes foram devoradas por gozo, mesmo que algumas coisas eu não conseguisse entender.

tentem contextualizar: não havia Internet, não tinha acesso à biblioteca durante as férias, a TV passava apenas um canal e os livros eram limitados. aquela informação ali, das maravilhas do mundo entrou na minha mente e deu-me mais cultura do que a outro miúdo, nas mesmas condições que eu:

  • fiquei a saber, por exemplo, da história de tutankamon e daquele grande tesouro encontrado por um explorador. ou seja, eu, que mal sabia o que eram faraós aprendi ali, numa tarde de calor, tanta coisa acerca deles e jurei que a minha primeira viagem seria ao Egipto.
  • soube também da barreira de corais da Austrália e durante muito tempo quis fazer mergulho.
  • descobri ainda que a ponte 25 de abril era uma maravilha de arquitectura na europa - a única coisa que aparecia do nosso país - e que, anteriormente se chamara ponte salazar.
  • e tantas outras curiosidades que não lembro agora, perdidas na memória.

mas o que descobri e que me encheu a imaginação de histórias e possibilidades remotas foi acerca de um dos maiores (ou maior na altura, não sei) edifícios do mundo: o empire state building. um edifício tão grande, dizia o livro, que poderia assemelhar-se a uma cidade inteira dentro de outra cidade. e o exemplo que me fazia sonhar e abrir a boca de espanto era, segundo o livro, a possibilidade de alguém poder viver dentro dele sem dele sair: havia uma zona de habitação, escritórios e serviços que iam desde cabeleireiros a clínicas médicas, restaurantes e tudo o que alguém precisava para viver.

esta era, para mim, a maravilha mais maravilhosa de todo o sempre.

numa aldeia onde para ir ao hospital precisávamos de andar quilómetros (muitos), onde para ir à escola tinha de apanhar o autocarro, onde não haviam supermercados, veterinários ou grandes fontes de divertimento que não a igreja, um edifício que tivesse nele tudo o que era preciso para viver, sem necessidade de entrar em camionetas bafientas, sem ser preciso apanhar chuva e frio nos dias de inverno com guarda chuvas que se partiam em rabanadas de vento, e ainda aceder a todas as necessidades através de um elevador (algo que eu só entrei umas duas ou três vezes antes dos 15/16 anos) era o expoente da vida. nada mais seria necessário para fazer alguém feliz.

e durante muito tempo passei largas horas fantasiando na minha cabeça, fazendo histórias mentais imensas de como seria magnífico viver num sítio onde recolhida dos elementos da natureza, teria acesso a tudo.

quão maravilhoso seria a possibilidade de ir ao médico descendo as escadas?

ou à biblioteca de elevador?

era como estar dentro de uma casa onde se podia andar de chinelos e pijama para fazer tudo o que era preciso:

poderia ir à escola sem mudar de roupa ou apanhar quilómetros de geada nas costas.

era o sonho: a minha casa seria a minha cidade.

 

com o crescimento, o acesso à informação, a maravilha da Internet e a minha intensa curiosidade, percebi - claro - que nada seria assim linear.

que mesmo que existam prédios cidades a minha vontade será sempre fugir deles e viver numa casa isolada, com acesso a um quintal e grande terreno, sem problemas de andar quilómetros para aceder ao principal.

no entanto, sempre que a vida me apanha na esquina, lembro-me da minha fantasia de infância e, numa espécie de metáfora da imaginação, recolho-me em mim como se eu fosse, sozinha, uma cidade.

eu sou o meu empire state building nos dias das surpresas e nos momentos em que deixo totalmente de saber lidar com o que me rodeia e o que preciso de enfrentar.

fecho-me e ando de elevador dentro de mim, em pijama constante e chinelos, sem precisar de sair do que sou para continuar a viver.

deixo de falar, interagir, reagir com o outro ou ao outro.

se ficar quieta dentro do que sou, constato, a vida percebe que não entra e volta tudo ao que era.

só que não.

 

nestes últimos meses em que deixei de escrever, a vida deu-me vida.

e eu, que julgara já ser impossível, na impaciência de que sou dotada, entrei num pânico cego e doloroso:

nem a minha vida sei viver, tratar ou enfrentar... como ajudar a viver, tratar ou enfrentar a vida alheia que a vida pôs dentro de mim?

recolhi-me portanto ao meu edifício.

fiquei fechada no que sou.

passei dias na escuridão de um quarto negando a possibilidade do que me ocorrera e que eu jurara querer.

as inseguranças de que o meu edifício, tão alto agora, cada vez maior, ruísse entraram em mim e percebi que as fundações próprias do que sou são frágeis e eu continuo avessa à mudança, seja ela qual for, mesmo aquela que acho querer.

não foram meses bons, ainda que o custe admitir na certeza de que não é suposto sentir isso.

foram meses de intenso sofrimento físico, em hormonas e vómitos, enjoos e incapacidade de comer, a consequente fraqueza e o ciclo vicioso do choro fácil e da incapacidade de comunicar.

fui eu, fechada no prédio que sou, sozinha nas escadas, a viver todos os dias nele sem precisar de sair à rua ou falar com o outro.

qualquer que fosse o outro.

 

como sempre precisei de abrir portas e janelas.

o meu empire state building começou a ser pequeno para albergar as mudanças que iam crescendo, aos poucos, em mim.

precisei de sair, arejar, tirar o bafio e a naftalina dos medos e das inseguranças.

precisei de ir às varandas apanhar o sol deste verão tardio e falar com os vizinhos que me compõem os dias.

 

saí.

estou novamente fora de mim própria, completa na integralidade de um todo.

deixei de recolher só ao que sou, no mais escuro do que tenho.

na verdade, o meu empire state building não consegue albergar-nos aos dois, por maior que seja:

a mim e à vida que em mim cresce.

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publicado às 16:10


44 comentários

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De A Caracol a 27.06.2018 às 21:27

Parabéns querida MJ! :)
Saudades tuas, quer por aqui, quer pelo facebook. Beijinho
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De Quarentona a 28.06.2018 às 12:59

Não há no mundo sistema de medição que possa medir o tamanho da minha felicidade por ti, Émejóta! Temos que ir tomar um café para eu poder dizer a essa vida que trazes em ti que apesar de não a ver, nem sentir, já gosto muito dela ;))))
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De Edite a 28.06.2018 às 16:33

Muitos parabéns e um beijinho.
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De RC a 30.06.2018 às 01:36

De coração tão cheio que faltam as palavras <3
Ler este texto a lembrar tudo o que passaste para chegar aqui. Tu és grande (e não é só por teres essa nova vida dentro de ti mas acima de tudo pela tua vida e o que fazes dela)
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De Silvia Moutinho a 02.07.2018 às 12:07

Muitos parabéns por essa vida a crescer e a fazer abrir as janelas. Que o sol entre e ilumine. As maiores felicidades.
Obrigada por voltar :)

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De Sofia Marques a 03.07.2018 às 15:33

Muitos Parabéns!!!! Oh que boa notícia :-D
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De nada acontece por acaso a 05.07.2018 às 22:42

Uma pessoa passa uns tempos sem vir espreitar os blogs que segue e quando volta, zás, uma mega novidade! Muitos Parabéns!!!! Fico duplamente feliz. Que bom saber que estás de volta à família sapo blogs e que tens uma vida a crescer em ti.
Adorei o texto. Obrigada.
Beijinhos!!

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