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enxovais

por M.J., em 12.10.16

com aquela idade já podia era pensar em fazer um enxovalzinho,

dizia a avó acerca da vizinha lá de casa, moça nova e bonita que um dia não saiu na paragem do autocarro ao vir da escola, perdida de amores por um fulano das imediações, a mãe em prantos, as vizinhas a abanar a cabeça,

bem que sabia, aquela é fresca,

eu perdida: fresca mesmo no inverno deve ser uma chatice, antes convencida de que tinha sido raptada como a menina pequenita no primeiro livro dos cinco lido* que tinha um fato azul,

compras-me um fato azul, mãe?

e a mamã sem entender o fascínio pelo fato azul, saia-casaco, 

raio da miúda, agora deu-lhe para isso,

e a moça casadoira que apareceu no dia a seguir, quando se pensava mesmo em raptos e polícias, longe, distantes na vila,

chamar a guarda para quê? lá querem saber da gente,

aparecida então no dia a seguir e eu, no autocarro, pensamento em raptos e dores, saia-casaco azul e racionamento de pão,

foste raptada?

cala-te sua gorda!

pois ainda bem que sou gorda que assim ninguém me rapta.

 

com aquela idade já podia era pensar em fazer um enxovalzinho,

dizia a avó, sentença bem dita, assente em convicções tiradas do livro das moças, um calhamaço verde com ilustrações e dicas do comportamento aceitável "da boa mulher cristã",

«as moças devem lavar o cabelo no dia em que o noivo as for visitar»,

mas 'vó, a mãe diz que tenho de lavar o cabelo todos os dias para não ficar oleoso. isto não tem jeito nenhum,

a indignação por um livro que não era lei, e a avó a sorrir, olhos brilhantes debaixo dos óculos,

qual noivo qual quê? vais é estudar e ser médica, para cuidar da avó na velhice, que com essa inteligência bem que és capaz,

mesmo que eu não quisesse ser médica mas outra coisa qualquer que me permitisse ler todo o dia e escrever e ter a minha biblioteca, com muitos livros dos cinco e raptos e, 

que é um enxoval, avó?

são coisas que as moças compram e guardam para quando se casarem. ainda tenho lençóis do meu, de linho, que bordei aos serões e nas tardes de domingo,

quando o avô te vinha visitar? e lavavas o cabelo?

pergunta ingénua, a avó que tinha um cabelo tão grande que chegava ao rabo, entrançado no cimo da cabeça, um carrapito na nuca, e cheirava a alfazema dos lençóis de linho bordados nos serões, velas em luz e lareira a adormecer,

com aquela idade já podia era pensar em fazer um enxovalzinho,

e eu também avó?

tu não, que não precisas. vais ser médica para cuidar da avó na velhice, que com essa inteligência bem que és capaz.

 

não fui avó.

não fui. 

 

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oh vai ver ali:

publicado às 09:24


14 comentários

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De F. a 12.10.2016 às 09:31

Um chá e uma fatia de bolo caseiro para as duas. Para ajudar a empurrar para baixo o nó que se forma acima do peito pelas ultimas 5 palavras.
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De M.J. a 12.10.2016 às 15:49

bolo de cocô e chocolate (do muito negro) com farinha integral.
pode ser?

é o que há.
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De sarabudja a 12.10.2016 às 09:52

Às vezes, conseguimos ser mais ainda.
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De M.J. a 12.10.2016 às 15:49

gosto de acreditar nisso.
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De Susana a 12.10.2016 às 11:30

Tantas vezes que me disseram isso do "ser médica". Professores, família...
Escusado será dizer que também não fui.
Nem sequer tenho um curso superior e o meu curso de secundário vale-me tanto quando um lenço já usado.
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De M.J. a 12.10.2016 às 15:49

vale sempre.
mais não seja pela experiência.
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De Susana a 12.10.2016 às 21:11

Nem experiência me deu, não era curso profissional. Só serve mesmo para dizer que tenho o secundário...
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De Pandora a 12.10.2016 às 15:41

Gosto tanto destes teus textos.
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De M.J. a 12.10.2016 às 15:50

(é por eles - quase só - que mantenho este blog).
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De Pandora a 12.10.2016 às 15:56

Que seja pelos teus vários textos, porque a diversidade só enriquece e cativa quem aqui vem, porque é sempre uma pequena surpresa.

Estou a pensar pedir-te um favor, que seria uma espécie de serviço público baseada numa situação que vivi nestes dias: a lei das garantias em bens móveis usados. Podias escrever sobre isto no blog aprender uma coisa nova por dia. (eu a fazer olhinhos de bambi).
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De M.J. a 12.10.2016 às 16:15

é uma ideia.
mas também me podes mandar um mail a explicar a situação em especifico.
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De Pandora a 12.10.2016 às 16:19

Acabei de publicar um post com o assunto.
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De Maria Araújo a 14.10.2016 às 13:09


Adorei ler este post .
Leva muitas de nós para tempos passados em que o ambiente que se gerava na família, sobretudo quando chegava a idade de a rapariga casar, cerca dos 20, porque aos 25 já tinha passado a idade, e estava arrumada na prateleira, o enxoval preparado e ela sem namorado.

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