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um amigo meu, em férias no estrangeiro, recebeu um telefonema da empresa onde trabalha a solicitar que voltasse ao trabalho, o mais rápido possível, se fosse naquele dia ainda melhor, porque precisavam dele.

assim. 

de nada valeu anunciar que estava fora do país, que havia descanso e planos, pagamentos e coisas decididas. a empresa foi peremptória no que precisava e, esquecendo os seus direitos, ao que podia recorrer, o que podia fazer, o meu amigo cedeu a bem da sua sanidade mental e do que precisa.

pôs numa balança pós e contras e concluiu, triste como a noite, que sim, abandonaria as férias a meio.

uma merda.

 

a senhora que vai começar a vir cá a casa dar uma limpeza geral, e com a qual falei na semana passada, contou-me, muito aberta e francamente que tivera um cancro de mama há uns anos e ficara sozinha.

para o bem e para o mal era só ela, que o companheiro dera de frosques.

ficara mutilada e só numa época em que precisara de toda a companhia que o mundo lhe pudesse dar.

ficara mutilada, na recusa de pôr prótese ou reconstrução e erguera-se, contando com ela e os seus medos e fantasmas, na procura da sobrevivência, mais ferida na alma do que no peito incompleto, pela quebra de promessas e compromissos. sentindo-se a não valer nada pela ausência provocada. 

uma valente merda.

 

há uns anos, uma amiga minha que trabalhava no mesmo sítio há muito tempo, ficou grávida e viu um familiar próximo sofrer de um cancro.

foi tudo assim numa assentada, notícia boa e notícia má, um toma lá é a vida, amanha-te, arranja-te, pega nas emoções e lida com elas, que é tua obrigação.

logicamente a minha amiga precisou de faltar ao trabalho muito mais do que o habitual, tendo sempre as devidas justificações, desde as consultas pré-natais, ao acompanhamento do familiar doente e convicta que, depois de tantos anos de dedicação, tantas horas a mais não pagas, tantos fins de semana abdicados, tantos dias de sacrificio, iria agora ser recompensada. 

só que não.

passados dois meses despediu-se, voluntariamente, pressionada pela chefia que pegou numa alma em frangalhos e a esmiuçou até a pessoa sentir que não tinha mais opção do que fugir, sair dali, perder todos os direitos, todos os anos de dedicação a bem de quem era e do que podia suportar.

uma senhora dona merda. 

 

lembrei-me destes episódios ontem, enquanto tomava café na varanda e via as mil folhas de algodão que voam pelas árvores e entopem o ar. 

não entendo.

não percebo ao ponto que chegamos.

nunca se viu tanta frase de amor, amizade, complacência, altruísmo e afins.

as palavras juntas correm pelo facebook como cogumelos. como lia ontem na página de um humorista - não recordo do nome, sigo vários - o "já foste" é o novo horóscopo.

as pessoas orgulham-se de evoluir e construir uma sociedade melhor. estamos no tempo em que tudo está ao nosso alcance. aprendemos a seguir. temos séculos de história para aprender e fazer melhor. os animais já não são considerados coisas juridicamente e achamos que o 1.º de maio é um feriado de sol onde há promoções nos supermercados, tal a certeza de que não é preciso lutar por direitos. as pessoas não são trabalhadoras, mas colaboradoras. há assistências a doentes, voluntários, terapias alternativas e a convicção de que a alimentação muda a saúde. o espírito colaborativo muda a internet e a economia de partilha muda o mundo.

o ser humano no seu melhor e mesmo assim, tem dias, nunca estivemos tão mal.

 

não lembraria, por exemplo, ao avô deixar a avó se ela ficasse doente.

mesmo que ela definhasse e ficasse ausente de quem era, e se transformasse numa outra pessoa, o avô, convicto do compromisso que assumira num dia lindo de sol, permaneceria a ferro e fogo ao seu lado. numa completa convicção de amor e responsabilidade.

porque estava escrito nele, como estava escrito que o dia tinha vinte e quatro horas, que o rio corria ao fundo da aldeia e que o limoeiro dava limões e não laranjas, que não se abandonam pessoas frágeis, mesmo quando tudo à nossa volta definha. mesmo quando parece que aquela pessoa abandonou aquele corpo e não é mais quem conhecemos.

faz parte do amor e o amor não existe só quando é conveniente. 

 

a quem lembraria obrigar um trabalhador a abandonar as suas férias, noutro país, com a família, e voltar para "um trabalho urgente" numa empresa com mais de quinhentos? quando é que chegamos à convicção de que os sacrifícios são compartilhados por todos, porque colaboram todos muito juntos, mas os lucros correm apenas para uma das partes?

a quem lembraria torturar emocionalmente uma funcionária grávida com um familiar altamente doente, apenas porque falta mais do que o normal?

 

orgulhamo-nos de conquistas atrás de conquistas. achamos que evoluímos e somos maiores.

mas se dermos uma olhada aos comentários nas redes sociais percebemos que estamos mais narcisistas do que nunca. que achamos que podemos dizer o que quisermos porque é a nossa opinião, mesmo que o único argumento numa discussão seja "estamos num país livre e esta é a minha opinião".

do género:

- tem de voltar à empresa, surgiu um imprevisto.

- mas estou do outro lado do mundo, com a minha família. cheguei ontem, não posso voltar.

- essa é a sua opinião. a minha é que tem de voltar porque é nosso colaborador e surgiu um imprevisto.

- mas já paguei tudo. nem sei se há voos. não me podem fazer isso.

 - isso é a sua opinião. a nossa é outra. veja lá qual quer testar.

- mas... mas tu disseste que me amavas, que ficavas comigo. 

- essa é a tua opinião. percebeste mal. a minha é que não aguento mais ver-te assim. a culpa não é tua, é minha.

- claro que não é culpa minha se tenho um cancro a comer-me o corpo. 

- pois não, mas eu não aguento. é a minha opinião e tenho direito a tê-la. 

- mas eu tenho justificação. tive de ir à consulta.

- pois foi. e a justificação vale o que vale para as necessidades da empresa. não tinha ninguém para o seu lugar. não posso ficar sem ninguém no seu lugar.

- mas eu tenho direito de faltar. estou grávida.

- essa é a sua opinião. não é a minha. quer ver qual das duas opiniões vale mais?

 

uma merda. 

uma valente merda. 

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publicado às 11:00


9 comentários

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De Ana a 02.05.2017 às 13:02

Concordo tanto com isto. Já escrevia té sobre isso, mais do que uma vez: o narcismo de hoje é o que sobressai mais. É muito isso é: "é a minha opinião". E portanto, ouves e calas. (e fazes)
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De M.J. a 02.05.2017 às 14:12

há cenas que parecem vindas de uma creche:
é a minha opinião e pronto.
quem diz é quem é e o teu pai chgeira a cholé.
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De Um quarto para as nove a 02.05.2017 às 14:03

Que resumo tão tristemente fidedigno na merda que vai o mundo hoje.
Vidas paralelas de faz de conta com hashtags de acontecimentos e conseguimentos e todos os entos. Pra depois se fechar nada um na concha repleta de cáca que é a sua vida.
O facebook, essa forma de escrever uma vida que não existe.
E sim, hoje há opiniões e é bom que estejamos do lado da opinião mais forte.
Diz-me muito este texto...até porque faço parte de um dos exemplos...
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De M.J. a 02.05.2017 às 14:13

lamento. não há nenhum dos exemplos bom. gostava que não fizesses parte de nenhum.
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De Um quarto para as nove a 02.05.2017 às 15:42

É a vida, dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes. A mim tornou-me mais fraca, eu pelo menos senti-me dessa forma.
Pode ser que a força esteja para vir, como numa qualquer mutação de superherois.
Se depois ganhar garras ou asas aviso.
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De Margarida a 02.05.2017 às 14:14

Desde que vi patrões indignados porque os funcionários queriam um (simples e legal) contrato de trabalho, acho que no que toca a relacões patrão/funcinário já nada me espanta...
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De Anónimo a 02.05.2017 às 14:15

Não há muito tempo, a que naquela altura era a minha chefia directa, disse-me num tom exageradamente audível e depois de meses de tortura "está a tentar testar quem vai primeiro para o olho da rua, você ou eu?“ e da minha parte obteve o inteligente silêncio. Durou poucos dias depois disso na empresa, foi ela à vida. Às vezes, quase nunca, bem sei, o bem vence.
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De Anita a 02.05.2017 às 17:49

Nem sei que diga. Infelizmente essa é a realidade
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De (des)Esperança a 03.05.2017 às 12:33

Um dos teus textos que mais gostei até hoje!

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