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a história é breve e repetitiva: a rapariga girinha, magrinha, coisinha e plenamente satisfeita com a aparência, dedicando a atenção devida a cabelos e unhas, ancas e peitos, engravida e esquece-se do que era outrora. pega na máxima que "é preciso comer por dois" e quando dá conta está uma pequenina lontra.

nada de mal.

diz-se que a gravidez é estado de graça e menos é mais. mesmo que o mais passe da barriga para as omoplatas, pescoço e pernas, e a carinha outrora laroca fique só gordoca. ai de quem fizer reparo. gravidez é bênção de deus, gordura formosura, ninguém controla o que quer o bebé, a hormona tem muita força e baldes de gelado são precisos para o crescimento da criança.

uma atrocidade que só depois se toma consciência: a criança sai em gritos pipi fora (pelo menos passa por lá, não me apoquentem) e ao fim de um ano a mamã bonita não perdeu barriga, braços, pernas e queixo. não há mal nenhum. cuidar de recém nascido é dose, cansa, não se dorme, não se pensa, não se come o que é suposto comer. exercita-se costas, mamas e de vez em quando braços mas a gordura permanece, acoplada onde pode.

a menina lindita é agora gordita. tem o cabelo impecável, a unha devidamente pintada e usa salto, que ao menos os sapatos de outrora ainda servem, alongam a perna e diz que dá a ilusão de emagrecer. dá nada. apenas uma valente dor de pernas e duas chouriças equilibradas em agulhas. 

a menina lindita é agora gordita.

mas não faz mal mesmo fazendo. não se assume que é preconceito. não se chamam os burros pelos nomes pois que já bem basta o que ela sente. não se explica que é preciso força porque ela tem mais é que se dedicar à criança. aceita-se, encolhe-se os ombros, finge-se que não se vê enfardar açúcar e doses industriais de massa. escondem-se as fotos de corpo do facebook, usam-se correctores de maquilhagem e fazem-se contornos que disfarçam a gordura.

a menina gordita sente-se mal por já não se sentir lindita: mas não tem a força, a motivação e o espírito de sacrifício que é preciso para mudar.

 

não me julguem mal. sou gorda. sempre fui gorda. creio até que nasci gorda. mas não meus senhores, não tenho ossos largos, compleição forte ou metabolismo lento.  - ou tenho, mas não é isso que causa a estria, o queixo a mais, o braço gorducho.

eu sou dotada de uma extraordinária vontade de comer e uma incansável preguiça no que diz respeito a mexer o traseiro para exercício físico. sou uma preguiçosa comilona, as coisas são como são e assumo: a culpa é integralmente minha.

no ano passado perdi cerca de dezassete quilos.

a coisa atingiu-me quando percebi que não cabia num pijama. NUM PIJAMA, meus senhores. para quem não sabe, por norma, os pijamas esticam, são maleáveis e cabem mesmo numa vaca gorda: pois que em mim nada. aquele em especifico mal passava, apertava ancas e barriga.

uma absoluta vergonha causada unicamente pelo meu desleixo.

haviam sido anos de intensa frustração no trabalho e vingara-me na comida. engordara mais do que alguma vez achara ser possível e olhem que sempre fui gorda. comia doses industriais de hidratos, açúcar e afins. não mexia uma palha porque dizia que não tinha tempo (apesar de ter tempo para ver tv, filmes e estar no pc a jogar merdinhas). quando me chamavam a atenção inventava desculpas, alegava as circunstâncias: trabalho muito. não tenho tempo. não consigo.

em todo o tempo fingi que aquela montanha de carne não era eu e que eu não vivia ali. é incrível a capacidade de dissociação entre corpo e cérebro e esta pequena lontra sabe-o por experiência:

eu não cabia no filho da mãe de um pijama!

naquele dia não me chamei gordita: estava, meus senhores e minhas senhoras, atendei, obesa! com todos os nomes, letras e sons que a palavra tem. e bem que vos digo que, ao lado da palavra que usam para denominar o pipi (começada por c e acabada em a) não há, para mim, palavra mais feia: obesa! obesidade! doente. 

o resto é sabido. reeducação alimentar (não acredito em dietas), muita frustração (o açúcar é efectivamente viciante), muitas recaídas, muita praga rogada, muito espírito de sacrifício (continuo a odiar fazer exercício e a adorar comer). preciso de emagrecer muito ainda (há fotos minhas no instagram do casamento e bem se vê que sou tudo menos magra) e todos os dias cometo erros: há muito exercício que não faço, muita desculpa que invento para comer chocolate e muita caloria inútil que ingiro.

gorda, obesa por minha culpa, meus senhores, minha única exclusiva culpa.

se as circunstâncias em que vivi ajudaram a chegar a este ponto? evidentemente! mas se em ultima instância eu era a responsável pela porcaria que comia e sabia que não devia? mais evidente ainda! 

 

lembrei-me disto ao ver a foto da menina grávida, agora mãe há mais de um ano, no facebook. o cabelo está impecábel. as unhas devidamente arranjadas. a maquilhagem o melhor possível. mas o duplo queixo, bochechas, pescoço, a barriga, pernas, braços e o resto permanecem com gordura do que ela alguma vez imaginou. 

gostava de saber que desculpas diz a si mesma.

bem sei quais eram - e são - as minhas. 

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publicado às 10:50


30 comentários

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De F. a 12.09.2016 às 11:43



A carapuça a mim serve-me na perfeição. Oh se serve!!
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De M.J. a 12.09.2016 às 13:06

gordita? mamã?
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De F. a 12.09.2016 às 14:09

É um dois em um... apesar de mamã é mais uma gordita que virou obesa, e que só pode culpar-se a si mesma. É que é TÃO bom comer... eu sou tão feliz quando como. Isso aliado à preguiça e desmotivação...
A carapuça só não serve nas unhas arranjadas, nem no cabelo alinhado, nem nos saltos altos...
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:51

ora aí está. entendo plenamente. mas nós também somos o nosso corpo...
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De F. a 12.09.2016 às 16:13

Somos pois. E somos o corpo que escolhemos ter. É tudo uma questão de escolhas.

Não acredito em gordas felizes por o serem - a não ser que andem a concorrer a obesa mórbida do ano - nós fingimos-nos felizes, fingimos aceitar bem que as mamas assentem em cima da barriga como se esta ultima fosse um tabuleiro, fingimos aceitar bem o cansaço e a falta de ar, as pernas assadas de roçar umas nas noutras. Fingimos. Umas vezes muito, muito bem. Tanto que até nós acreditamos nisso. E porquê? Falta de motivação... diria até falta de auto-estima. Tanta falta de qualquer coisa que só mesmo compensando com a comida... um circulo vicioso.
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De M.J. a 13.09.2016 às 10:30

é mesmo isto:
"Não acredito em gordas felizes por o serem - a não ser que andem a concorrer a obesa mórbida do ano - nós fingimos-nos felizes, fingimos aceitar bem que as mamas assentem em cima da barriga como se esta ultima fosse um tabuleiro, fingimos aceitar bem o cansaço e a falta de ar, as pernas assadas de roçar umas nas noutras. Fingimos."
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De sarabudja a 12.09.2016 às 11:52

É mesmo isto.
É só isto.
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De M.J. a 12.09.2016 às 13:06

haverá mais do que isto :)
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De sarabudja a 12.09.2016 às 14:25

Ohe! O que mais? Os nervos? Os horários desavindos, o mundo que se desajusta? Ó ÊmeDjay Cristhine de Sousa Esteves, onde há vontade, há conseguimento. De certo com maior dificuldade, de certo levará mais tempo, mas coiso, a coisa dá-se, pá! Nem que seja com uma bomba drástica, ou banda gástrica ou lá como isso se faz.
Conheço gente que não podendo de noite, corre de manhã mas cedo do que os galos se levantam, aliás, vão lá acordar os galináceos no fim da corrida e devem ligar os fornos aos padeiros. São vontades.
Há gente que se arrefinfa na aveia, no peixinho, na carne do perú grelhada em manteiga de vaca da etiópia. São vontades.
Há gente que come iogurtes de soja. Que deixa o chocolate dos bons e passa a comer aquela coisa do fundo do supermercado. Só para lá chegares, já fizeste meia maratona, queimaste trilhões de calorias e demonstraste força de vontade de um astronauta.
Há gente que deixa os gelado cheios de açúcar e congela fruta e depois tritura aquilo para comer.
E há gente que acha que todo um mundo conspira a favor do pequeno distúrbio que não reconhece. Do prazer que encontra na bolacha, no pão, no gelado, no chocolate, no chouriço, na massa, nos molhos, nos queijos, nos sumos, sei lá eu.
Eu encontro na bela da bolacha e no pão. Se pudesse, comia 10 pães por dia. 10. Posso garantir que haverá dias em que mais de 10 caberiam nas minhas vontades e refúgios. Não preciso de manteiga, tulicreme, fiambre... Nada. Basta pão. Se estiver quente, então. E pacotes de bolachas? Quem fez o sofá, fez mantas e inventou as bolachas. Em dias de desequilíbrio, um pacote de bolachas é o melhor companheiro. Nem me chateia de eu chorar.
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:48

entendo tudo o que dizes. o meu texto é aliás, também o que dizes.
mas tendo estado no desleixo total também consigo perceber o desleixo. também consigo perceber que as circunstâncias às vezes são mesmo muito condicionadoras e nem sempre se consegue dar a volta. que há coisas na nossa vida que nos tiram a atenção de nós próprios e que entramos numa espiral em que somos a última coisita da equação.
ainda que, em última instância, seja integral culpa nossa.
lembra-te: eu não cabia num pijama!
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De sarabudja a 12.09.2016 às 15:57

Da mesma forma que eu nem sempre enfio o rabo nas calças.
Eu sei o que é o desleixo e sei o que é o afinar as máquinas e perceber que quem dita a última palavra sou eu (se estiver com a cabeça no sítio).
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:58

lembrei-me: a mim o problema não é o pão mas o açúcar. sou absolutamente viciada em açúcar. desde chocolates, bolos com ou sem creme, pão doce, gelados e toda a porcaria doce. doces são para mim o consolo da alma.
substituí por chá e fruta.
não é, de todo, a mesma coisa.
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De sarabudja a 12.09.2016 às 16:03

Pois, mas se reconfortar a alma. Diz que devemos ser capazes de resolver as amarguras cá dentro, sem recursos a nada externo para não criar dependências, mas desconfio que não é coisa para ser possível.
Eu masco chiclete. Não passo em padarias, não compro muitas bolachas, as que compro raciono para a criançada e ponho em sítio de difícil acesso. Uma série de malabarismos para contornar o que às vezes parece uma verdadeira ressaca de farinha com água e açúcar.
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De cristina silva a 12.09.2016 às 17:23

Sou gorda, aliás obesa, há 8 anos, desde que tive o meu 2º filho. sempre fui gordinha, mas nunca como agora. Custa-me andar, subir escadas é um suplício, não suporto olhar para o espelho, enfim, nem me vou alongar. Não vou estar aqui a falar das circunstâncias da vida, porque existiram, claro. A morte do meu pai, uma depressão... mas também faltou a minha vontade de não querer estar assim, de não fazer nada para mudar, porque estar assim me faz infeliz. Este verão, quando vi as minhas fotos na praia ao pé do meu grupo de amigos tive um choque. Há muito que não me via de corpo inteiro. Quem era aquela gorda? Como era possível estar assim? Estive em choque uns dias e finalmente algo em mim mudou e ganhei coragem para pedir ajuda. Comecei a fazer dieta há pouco tempo e já perdi alguns quilos, uma dieta equilibrada. Não tem sido fácil, sou completamente viciada em doces, até os visualizo, mas penso na minha imagem e resisto (até agora...). Não quero estar assim, até porque quero ser mais saudável. Desculpem o desabafo, este assunto é muito sensível para mim.
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De M.J. a 12.09.2016 às 18:41

nada a desculpar.
entendo perfeitamente as circunstâncias. mas sei, por experiência, que se muda. que se muda quanto se quiser. ninguém engordou tudo de uma vez, ninguém emagrece tudo de uma vez. o que não é admissivel é o desleixo total por mil anos, a dissociação entre cérebro e corpo e o fingir-se que não se vive ali.
a cristina já mudou isso. o resto está ali mesmo ao virar da esquina :)
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De Genny a 12.09.2016 às 13:47

"sou uma preguiçosa comilona, as coisas são como são e assumo: a culpa é integralmente minha." - definição de mim.
Sou tão fraca perante o comer! Dasssse
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De M.J. a 12.09.2016 às 13:48

ginástica logo?
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:46

boa, boa, bouuuua!
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De Olívia a 12.09.2016 às 15:00

Para quem já foi magra em tempos e podia comer tudo, tudo e nunca engordava, ter a experiência de ter ficado (após a gravidez) com mais quilos é trágico. Digo-te eu. Quando esses quilos se começam a multiplicar começas a perder o controlo e depois (nem precisas de desculpas) achas que nem estás assim tão mal. Até ao dia em que decides engravidar outra vez e estás obesa - sim obesa - aí percebes que tens de mudar. Eu mudei, tentei acabar com as batatas fritas, doces e bolachas em casa. Não há, não comes. As comidas também mudam... mesmo assim, digo-te tinha 76kg quando engravidei. Acabei a gravidez com 78 kg. Uma semana depois tinha 63 kg. Agora... bem agora tenho 66 kg. Com muito esforço.
E isto é o meu futuro. Muito esforço!
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:46

é mesmo: reeducação alimentar. consciência que vivemos neste corpo. como te entendo no "achas que não estás assim tão mal". é isso mesmo.
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De Olívia a 12.09.2016 às 16:55

Pois, até ao dia em que não cabes num pijama!!! Ou numas calças do teu (suposto) número!
E aí levamos um balde de água gelada!
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De Quarentona a 12.09.2016 às 15:02

Isto podia ter sido escrito por mim, sabias?...
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:45

também não coubeste num pijama?
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De Quarentona a 12.09.2016 às 22:43

Se fosse só num pijama...
Mas entendo o que dizes, supostamente um pijama adapta-se melhor ao aumento de peso, e sim, também já me aconteceu, nunca mais tentei vesti-lo :P
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De M.J. a 13.09.2016 às 10:30

eu tentei e consegui: não era o meu pijama que estava errado ;)
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De conta corrente a 12.09.2016 às 15:21

Errar, voltar a errar, e insistir, é viver.
Força nisso :)
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De M.J. a 12.09.2016 às 15:44

é isso mesmo.
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De Anónimo a 12.09.2016 às 22:12

O pior ainda é o desconforto, a barriga inchada, os pneus a sair das calças...a falta de energia.... bolas 😞
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De M.J. a 13.09.2016 às 10:31

é um pouco de tudo. é morarmos num corpo que é mais do que nós.

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