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era uma vez uma história triste #5

por M.J., em 24.01.17

seu grandessissimo filho dá puta, seu cabrão de merda.

os gritos da mulher eram frequentes e ouviam-se pela aldeia inteira, numa espécie de morte anunciada, a voz sonante - de quem podia declamar poesia - a matar o som do nada na serra, 

seu filho dá puta, eu mato-te hoje,

se não em porrada pelo menos em berros,

seu cabrão de merda,

assim, dito sem medo, em berros, corneta grave.

 

a mulher era forte, grande, usava o cabelo à escovinha e esgoelava ao filho impropérios destes, tão banais em berros sonantes como quem diz,

estás de castigo, ficas sem mesada,

em repressensão serena à criança que se portou mal. 

 

para o resto das pessoas um portento de boa educação:

olhos baixos, sem dar nas vistas, um muito bom dia, um muito boa tarde, um até amanhã se deus quiser. o cabelo à escovinha, as calças larguinhas, braços fortes, solidez no corpo, metida na vida e sem nada a apontar a não ser aquele,

seu filho dá puta,

a acentuação no à, como quem descarrega a raiva numa vogal aberta,

eu racho-te hoje,

em gritos berrados, de tal forma que não havia quem não escutasse, dirigidos à criança que se tornou rapaz e que ouvia, dia sim, dia não, a mulher de cabelo à escovinha, olhos raiados de sangue, um portento de boa educação para o mundo,

eu mato-te seu cabrão de merda,

porque se esquecera de tirar os sapatos, esmurrara a bicicleta ou não fora buscar o molho de erva. 

seu grandessissimo filho dá puta,

miudo mais novo do que eu, olhos baixos, voz fina, sentido de humor apurado e aqueles gritos, dia sim, dia não, lançados em fúria, um ódio cuspido,

seu filho dá puta.

 

e a mamã, a minha, que ouvia aquilo pelos campos e pelo ar, o roçar pelas árvores a correr em bando como pássaros, serena, quieta, ombros encolhidos e cabeça abanar de quem não entende:

pois então se o filho é dela e ela o chama filho da puta, o insulto é para ele ou para ela?

 

e eu, sem entender, a tremer de medo de gritos e berros e os silêncios da vergonha onde se ouve mais voz do que vento, a perceber mais tarde - tão mais tarde que o rapaz é agora quase homem - que o insulto era dele:

que ninguém quer ser filho de uma puta.

 

vi há uns tempos aquela criança, agora quase homem.

ria em gargalhadas e perdeu o medo no fundo dos olhos. 

só não sei se esqueceu o , com acento, no meio de filho e puta. 

 

não me venham com a história de que uma galheta na fralda são maus tratos.

maus tratos era aquela fúria em palavras, gritada, anunciada, berrada ao mundo. 

 

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publicado às 11:00


14 comentários

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De Miss Winter a 24.01.2017 às 11:08

Eu tinha um pouco disso tudo e umas belas tareias mas estou aqui sem ressentimentos, já passou :)
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De M.J. a 24.01.2017 às 11:37

Há casos e casos mas em todos os casos esse ressentimento nunca passa. Acredita-se que sim de maneiras a ser mais fácil viver
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De Malas, Sapatos & Cª a 24.01.2017 às 11:13

Que horror! Mulheres assim não deviam poder ter filhos.
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De M.J. a 24.01.2017 às 11:37

E quais são as mulheres que deviam poder ter filhos?
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De Malas, Sapatos & Cª a 24.01.2017 às 11:44

Não é fácil responder. Óbvio que não existe um modelo predefinido, e ainda bem. Mas essa forma de educar não me parece correta.
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De M.J. a 24.01.2017 às 12:41

era quase uma pergunta retórica.
aquilo não era educar. era maltratar.

infelizmente não creio que seja possível educar quando não se tem valores. e isso depois torna-se um ciclo.
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De Maria a 24.01.2017 às 12:24

Eu sou defensora acérrima de que uma palmada na hora certa faz milagres.
Já os impropérios...
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De M.J. a 24.01.2017 às 12:44

os impróprios matam os milagres.
concordo plenamente nisso.
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De M.J. a 24.01.2017 às 12:44

*impropérios, evidentemente.
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De Sofia Marques a 24.01.2017 às 12:28

Os maus tratos verbais tendem a magoar mais que os maus tratos físicos...
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De M.J. a 24.01.2017 às 12:45

não podia concordar mais.
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De Sarah a 24.01.2017 às 13:43

Ela até pode nunca lhe ter batido mas cada palavra dessas, é o equivalente a uma tareia de cinto. as palmadas o tempo leva as marcas mas as palavras.....essas, vão ecoar enquanto o miúdo tiver memória.
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De Narciso Santos a 24.01.2017 às 14:13

O mundo está doido, um tabefe dá direito a um tipo ir para a cadeia, com as tipas da SS nos bater à porta de casa.
Eu apanhei, Sim.
E olho para trás e penso, deveria ter apanhado mais, pois foram poucas dada a tanta asneirada que fiz.
Não me matou, fez-me Homem.
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De Quarentona a 24.01.2017 às 15:20

E haveria tanto a dizer sobre isto... mas há fantasmas que eu prefiro manter lá no canto escuro do sótão...

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