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conta-se de um trago, sem muita coisa, adjectivação ou mesuras:

o casal na casa dos trinta e muito, bem de vida, emprego estável e casa certa descobre que está grávido,

estamos grávidos,

no anúncio à família, alegria evidente de quem não espera o que ai vem mas não faria melhor se esperasse.

e nove meses depois a criança nasce. um ser pequenino, lindito, desprotegido e frágil. alteram-se rotinas, motivações, horas e planos. há a vida e há o centro da vida,

coitadinha, tão pequenina.

e a criança cresce, rodeada em amor e devoção paternal,

não esqueças o casaco, o joão é mau? eu falo com a mãe dele. dá cá que eu faço essa conta. tanto trabalho de casa? vai brincar, se tiveres falta não interessa. negativa? quem é a professora? deve saber tanto disso como eu. se tens tarde livre vou buscar-te, não ficas lá a fazer nada. tens razão, eu vou-te levar e trazer, no autocarro cheira mal.

e vai perdendo aos poucos a gordura infantil e as tranças pelas costas. 

coitadinha, tão pequenina,

e a mamã e o papá são a vida, o centro, e a menina é a vida e o centro, e os coleguinhas são maus, onde já se viu, dois deles apanhados aos beijos atrás do balneário, uma sem vergonhice, criados ao deus dará, telemóvel para quê? vê aqui a novela com a mamã.

e aos dezoito anos entra na universidade,

coitadinha, tão pequenina,

mamã e papá a escolherem casa, mas eu não quero estar sozinha, um deles a permanecer, fazer a cama e lavar casa de banho, almoço e jantar a horas certas, cantina não serve que ela não come nada de jeito quando está sozinha,

coitadinha, tão pequenina.

e dez dias depois desiste que universidade não é para ela. os professores não entendem, o mundo é grande e mete medo e faz frio e,

coitadinha, tão pequenina

e depois fica doente,

não entendo doutor, fizemos sempre tudo, ansiedade de quê? tristeza porquê? pois se fizemos sempre o que nos era pedido, se a criamos com tanto amor, essa medicação serve para quê?

coitadinha, tão pequenina,

e aos vinte e três anos os dias desenrolam-se no sofá e na cama, medicação e vida na janela, que o mundo é grande e mete medo e faz frio, e é doente, incapaz de trabalhar, se ao menos as pessoas não fossem tão más e o mundo tão exigente,

coitadinha, tão pequenina,

e a completa incapacidade de lidar com as coisas básicas do quotidiano,

olha lá a menina tem o penso cheio: vais mudá-lo ou vou lá eu?

 

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publicado às 11:00


9 comentários

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De Malik a 26.10.2016 às 11:10

Uma palavra: EXCELENTE!!!
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De M.J. a 26.10.2016 às 17:34

pior que é real...
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De Malik a 26.10.2016 às 18:01

Daí a pertinência do texto... pode sempre ajudar a despertar...
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De Outra a 26.10.2016 às 14:53

Amor não é (nem pode ser) sinónimo de carregar ao colo e amparar todas as quedas. Amor tem de ser deixar o ser ver o mundo, cair e esfolar os joelhos e ter um colo para chorar e uma mão que lhe estenda a água oxigenada...
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De Teresa Almeida a 26.10.2016 às 15:50

Excelente texto!
Não sei se é real ou ficção, mas lembrou-me uma senhora que o ano passado foi minha 'vizinha' de hospital...«caía-lhe a boca ao bocado» a falar na menina dela; o marido quase não saiu de lá, excepto para ir buscar e levar a menina; sempre a perguntar se a menina tinha comido bem, se tomou o pequeno almoço, quase só faltava perguntar se fazia xixi e cocó como deve ser.
A senhora era (ou aparentava ser) muito mais nova que eu e, naturalmente, quando me falou na menina, perguntei se era miúda pequena: não, está a acabar o curso na universidade!
Já nem perguntei mais nada...A «menina», a dois passos do hospital, nunca foi ver a mãe por aquele não ser sítio para crianças; fiquei com a dúvida se ela saberia que a mãe estava internada, tal era a protecção.
E juro que me senti muito bem por «só» não ter autorizado visitas dos filhos e marido no dia da cirurgia!
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De M.J. a 26.10.2016 às 17:34

é real.
absolutamente real.
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De Quarentona a 26.10.2016 às 17:31

Promete-me que, se me vires a ir por esses caminhos, dás-me duas galhetas no focinho, sim?
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De M.J. a 26.10.2016 às 17:35

posso tentar.
mas em casos tão extremos como estes os visados não deixam que lhes deem estalos.

(além disso nunca precisarás de mudar o penso do menino ;) )
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De Ana a 27.10.2016 às 09:37

É pá caramba. É mesmo isto. E qualquer um diria que isto é exagero. Pois, não é não. Está aqui a prova. Que ao agirem assim, estes pais não estão a ajudar em nada os seus filhos, muito pelo contrário. Ainda bem que publicaste esta história. Devia ser lida por tanta tanta gente.

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