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escolhas

por M.J., em 07.11.16

somos uma extensão de nós próprios naquilo que fazemos profissionalmente.

assumir que um trabalho é só um trabalho, desmerecedor de demasiada importância, é meio caminho para a infelicidade, para a doença do domingo à noite, para a percepção de que a vida passa por nós sem lhe darmos o devido valor, presos em algo que nos dói por dentro.

creio que uma das coisas que mais me incomodou, na entrada para uma vida activa mais dura (que sempre trabalhei, mesmo a estudar, ainda que com os meus próprios horários) foi a sensação de prisão. a sensação de que me prendi voluntariamente, cheia de algemas até aos ossos, em troca de um salário que não compensava, nem num terço, a infelicidade que aquilo que me trazia. foi a ideia de que não era dona e senhora do meu tempo, que precisava de suplicar para fazer tarefas básicas acessíveis aos comuns dos mortais. o que mais me molestou, a pontos de bater com a porta,

que sa foda esta merda toda, prefiro ser cantoneira, por exemplo, mas apanhar ar fresco nas trombas,

foi a ideia de que a vida se desenrolava num cenário qualquer, que via através da janela mas que me estava privado porque tinha de permanecer dentro de quatro paredes, com prazos e um stress atroz, diariamente, incluindo aos fins de semana.

não estava preparada e, tenho a certeza, nunca estarei. o dinheiro faz parte da vida, quase que a comanda (não venham com merdas, bem sabemos que sim) mas a vender-me tem de ser por muito mais: tenho de retirar daquilo que faço um prazer que compense a sensação de prisão.

quando estive em cabo verde o guia que era de uma simplicidade atroz, ao apresentar-nos as belezas da ilha foi presenteado com mimosices dos meus colegas de excursão:

então e qual é o salário mínimo daqui? só? é conseguem viver disso?

a cidade é só isto? por que não pintam as casas?

não há agitação nocturna?

nunca sentem vontade de conhecer a vida numa grande cidade?

não fica triste por estar aqui preso?

assim, nas perguntas de quem não tem noção da merda do que diz, porque estando preso a maior parte do tempo se torna um selvagem ao ser posto em liberdade.

o homem sorriu sempre e respondeu com uma sensatez gritante, a servir-me de gorro tricotado à medida para a minha vida:

"vocês passam o ano inteiro a trabalhar poupando para uma semana de férias aqui. andam um dia de praia em praia, pagam a um hotel comida que já comem em casa e colocam fotos nas redes sociais. depois vão trabalhar mais um ano à espera das próximas férias. eu estou aqui o ano inteiro. e não preciso de férias porque as tenho, naquilo que faço, ao longo do ano".

assim, toma que já almoçaste, calando o pessoal e fazendo-me ter a certeza de que não assumo mais nenhum compromisso que me molde a uma personagem que não sou; fazendo-me ter a certeza de que um trabalho faz parte de mim e eu não sou só aos fins de semana.

 

tenho muito pena de quem doem os domingos pela segunda do dia a seguir. de quem necessariamente se sujeita a nove horas diárias de perda de vida porque delas não retira mais prazer que não seja pagar contas de coisas que apenas usufrui em um quatro da sua vida. de quem poupa um ano inteiro para passar as férias que aos outros são vida, e nelas anda de peito feito porque o dinheiro comprou hotéis de cinco estrelas que duram sete dias.

tenho mesmo pena. e mais depressa me vejo no meio da serra, a cavar batatas e fazer medeiros de palha, do que a sentir que a vida me foge por entre os dedos em troca do dinheiro que me permite ser feliz uma semana por ano. 

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oh vai ver ali:

publicado às 09:30


12 comentários

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De Novembro a 07.11.2016 às 09:49

Bom Dia!
Concordo com cada palavra escrita. É a verdade que poucos conseguem ver.
Simplicidade!
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De Novembro a 07.11.2016 às 12:01

MJ este teu texto tocou-me profundamente. Tive de o reler.... Há já alguns anos que tenho vontade de 'bater com a porta' .... quando terei condições para o fazer!?!? Os anos vão passado.... a vida vai passando.... e eu?!?? O meu 'eu' vai deixando de ter tempo de ser 'ele' neste teatro constante, cuja personagem tem de sustentar a sua actriz que tem pouco tempo para ser ela própria, porque como disseste está 'algemada'.
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De M.J. a 07.11.2016 às 16:07

é uma questão de escalar importâncias. nunca condeno quem dá importâncias a coisas que eu não dou. mas dói-me quando se perde perspectiva: a frase "se não fizer isto não faço nada" não costuma ser, pelo menos não sempre, verdadeira.
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De VeraPinto a 07.11.2016 às 13:20

O teu melhor texto neste tema. Quase que me fizeste bater com a porta, mas sei que no fundo eu amo o que faço, mesmo que só o faça há dois meses.
Mas infelizmente, dorme comigo uma pessoa que a ele, dormir é um pesadelo porque quando acorda têm que voltar ao trabalho. Não que adore a profissão que têm, pela qual estudou, e pela qual fez inúmeros sacrifícios. Conheço pouca gente que ame mais do que estudou do que ele, mas as empresas são feitas por pessoas, e são as pessoas donas das empresas que estragam o prazer de ser eu em todos os dias da semana, em todas as semanas do ano.
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De M.J. a 07.11.2016 às 16:09

há uma ansiedade em determinadas organizações que mata pedacitos de nós.
não aconselho.
é preferível viver num quarto com uma só janela para a rua mas poder olhar por ela, do que numa vivenda com dez janelas mas sempre que se olhar por elas... ser escuro.
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De Sarah a 07.11.2016 às 13:31

E está tudo dito.
Todos os santos dias sinto essa. Principalmente, num dia em que na empresa não se passe nada demais e eu só penso em 27 outros sítios onde poderia estar. Numa dessas viagens do hotéis e resorts, conheci um guia-patrão que aos 30 anos saiu de Lisboa para ir de férias. Ficou lá e passaram-se 20 anos....e eu a roer-me até aos ossos....
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De M.J. a 07.11.2016 às 16:10

todos os santos dias?
todos?
como se vive todos os dias com tamanha sensação de estar preso?
(juro que não é critica, só tentar perceber. porque às vezes, juro, penso seriamente se não devia ter ficado).
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De Sarah a 07.11.2016 às 16:23

Há dias em que sinto mais e outros em que sinto menos isso mas sim, todos os dias sinto que era muito mais feliz com os meus horários, com a minha gestão.
E sim, cavar batatas ou arranjar móveis eram coisas que me deixavam feliz. Pobrezita mas feliz
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De OKaede a 07.11.2016 às 14:20

"assim, nas perguntas de quem não tem noção da merda do que diz, porque estando preso a maior parte do tempo se torna um selvagem ao ser posto em liberdade." Hahaha
E quem é que andar a empurrar a sua vidinha para esse tipo de prisão??? *calmamente pondo a minha mão no ar e exclamando "Eu!!!"*
O que vale é que o dinheiro pode ser utilizado também para ajudar os outros.

P.S: No inicio do teu texto, já estava a bater o pé contra, porque daqui a alguns anos, tenho uma grande certeza que vou estar a fazer algo que não é extensão minha - é uma extensão imposta pelos outros e que eu fui estupidamente aceitei, pensando que dava para seguir outros caminhos. Enfim o estado de negação bate a todos :)
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De M.J. a 07.11.2016 às 16:11

antes de ajudar os outros o dinheiro deve ajudar nós próprios. e quando não temos tempo nem para nos ajudar a nós... o dinheiro deixa de servir ;)
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De Joana B. a 07.11.2016 às 17:03

sinto tantas vezes essa prisão e a vontade de ir embora, de fazer outras coisas, de ter horários mais flexíveis.
muitas vezes sinto que estou a perder coisas lá fora enquanto estou fechada no trabalho.
um dia irei conseguir bater com a porta...
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De Maria Araújo a 08.11.2016 às 14:37


Costumo ler os teus posts logo de manhã, com calma, no iphone, e digo-te, sobre o que contas de ti, são os que mais gosto, admiro a tua coragem e força.
Gostei em especial da história do cabo verdiano.


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