Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




escrevo

por M.J., em 30.11.17

o que mais prazer me dá, nas palavras alinhadas em textos, é a sensação de juntar às coisitas do dia uma colher de mel, muito doce. 

sou uma sentimentalona, descobri isso com o tempo, mesmo quando mascarava emoções com a rudeza da arrogância.

sou uma sentimentalona e percebo isso nas banalidades da vida.

na lágrima que escorre fácil quando recebo uma palavra mais doce, na sensação de enlevação quando faço tocar o globo de neve que ele me deu, logo no inicio do namoro e uma música enche o ar de recordações de mãos dadas, gargalhadas, manhãs na cama, bolos de chocolate acabados de fazer. sou uma sentimentalona quando recebo pelo correio pedaços de carinho e lembranças de pessoas extraordinárias. há uma lágrima fácil no vídeo com música pirosa que resgata um cão ou um desabamento da alma quando um idoso chora na tv porque perdeu a casa que era a sua existência.

 

a possibilidade de escrever a vida como a vejo faz-me viver também.

vivo escrevendo.

avivo recordações do que acabei de assistir.

encontro definições do que senti.

o vento que vai na rua transforma-se em farripas da manhã, envoltas na face com o cheiro do frio e da serra.

o café que emborquei de um trago passa a ser o conforto da certeza das coisas simples.

um chá quente é também a alquimia de um cheiro e das mãos geladas contra a chávena. 

o que é, é maior, mais doce, mais vivido. 

 

não tenho dúvidas que é isso que me faz viver. 

quando o avô morreu, numa manhã fria como esta, depois de confortar a avó, ver a mamã em dor, correr pelo dia com a sensação de inacreditável incapacidade de percepção, não chorei.

vi as flores depositadas na campa, racionalizei o depois.

percebi a dor que circulava nos caminhos e permaneci.

segui o cortejo embutida num choque sem quase sentir.

fiquei.

quando me sentei depois, e escrevi o que me lembrava, na possibilidade de a mente ser livre, desabei num pranto do que realmente acontecera:

eu sentia finalmente.

 

escrever, no meu caso, ultrapassa a barreira de juntar palavras.

escrever transforma-me e, ao mesmo tempo, constrói-me.

descubro quem sou, o que sinto, para onde vou e de onde venho num raciocínio que me desce num lampejo aos dedos.

há dezenas de blocos de notas espalhados pela casa - muitos oferecidos pela maria e pela magda - que vou rabiscando em frases soltas, totalmente imperceptíveis a quem as ler, tal como imperceptíveis são os pensamentos desgrenhados que me definem.

 

escrevo como quem vive. 

vivo como quem escreve.

e quando um dia o mundo acabar e eu me for numa manhã fria, o vento a correr pela vida trazendo a sensação de outrora, saberei que descobri o que muito poucos descobrem numa existência incompleta:

a sensação de absoluta entrega às palavras. a certeza de total liberdade no que sou através do que escrevo.

mesmo que o que escrevo não valha um pirolito furado.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:15


1 comentário

Imagem de perfil

De Gaffe a 30.11.2017 às 10:20

Como te invejo!
Comigo, as palavras são apenas penas de almofada.
Deito-me nelas, adormeço, acordo e vou embora.

Comentar post



foto do autor