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há uns anos atrás vi uma cena conjugal triste: um marido deu dois sopapos na mulher de longa data fazendo com que ela caísse no chão, de costas e ali ficasse deitada durante longos minutos. 

não sei o que mais me incomodou:

  • se o ar de absoluta vergonha que a mulher fez ao reparar que eu passava na rua, nessa mesma hora e assistia à cena;
  • se a sensação de que eu estava a violar com os meus olhos, mesmo sem querer, uma pessoa já por si violada;
  • se a idade com que o vi e me fazia não compreender ainda tantas coisas;
  • se o absoluto desprezo que o homem lhe lançou;
  • se a certeza que me veio à mente, naquela altura, de que sendo mulher (ou miúda àquela data) podia estar destinada a.

no entanto o que me ficou gravado para sempre, como uma frase esculpida numa árvore por uma navalha foi a resposta que me deram depois, quando o contei a alguém próximo:

- e depois? a mulher lá serve para mais alguma coisa?

 

podia isto ser uma história inventada por uma feminista numa plataforma que vende t-shirts enquanto proclama igualdade.

por uma mulher que apenas imagina o que seja uma situação destas.

não é.

é real.

vi, contei e responderam-me desta forma sendo que o mais grave é a ligação de quem mo respondeu e a forma como mo disse:

como se eu não fosse também menina a caminho de ser mulher.

 

era isso.

eu estava destinada a apanhar nas trombas. a ouvir, ver e calar.

a pôr-me na posição dominada.

a ser um ser inferior porque nasci com uma vagina.

a saber que as minhas opiniões, as minhas certezas, a minha alma era incomparavelmente menor do que outras que tivessem um bocado de carne a mais no meio das pernas.

eu estava destinada a tal e de nada valeria.

com a diferença, apenas, de nunca acreditei nisso.

 

soube desde sempre, desde que vi esta cena, desde que percebi a dimensão da violência doméstica, da humilhação da mulher por ser mulher, da ideia de que é menos, que eu não seria mais uma. que a mim não apanhariam na teia. que a minha voz seria sempre mais alta, a minha mente teria sempre mais força e as minhas opiniões teriam o mesmo peso.

que nunca, jamais, um homem que fosse (ou mulher) me desrespeitariam ao ponto de dizer certas palavras ou, pasme-se, de me fazer sofrer abusos físicos. 

eu não.

 

soube disso como poucas coisas soube e sei da vida.

há certezas mais certas do que outras e essa era e é a minha. tão certa, tão convicta que raramente penso nela.

é um dado adquirido como o é respirar, o coração bater ou precisar de dormir: faz parte de mim, enquanto algo básico. 

 

e é por isso que às vezes me esqueço dos motivos por que se luta.

esqueço-me, no meio de uma série de coisas, no meio da vida, que há mais gente como aquela que vi cair no chão com dois sopapos na cara e se sentiu envergonhada, não pelo acto em si, mas por alguém ter visto.

esqueço-me que ainda há quem diga - já não a mim- que a mulher não serve para mais nada que não apanhar.

e que faz parte da sua condição natural.

 

esqueço-me e depois, sem esperar, lembro-me quando passarico pelas redes sociais e vejo isto. 

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lembro-me e sei, com um misto de vergonha por me ter esquecido, que ainda há muito para lutar.

caramba como há!

 

uma luta sem 760, sem t-shirts, sem frases ridículas ou patrocínios.

sem mulheres que não sabem nada do assunto mas julgam que sabem.

sem os exageros ridículos de quem cai no exagero porque põe a causa na sua própria pessoa em vez da causa em si.

sem o protagonismo incapaz de quem apenas o procura. 

 

mas é preciso lutar ainda.

em casa, com os amigos, na rua e no trabalho. é preciso educar. é preciso sentir (e ensinar a sentir) que a nossa voz será sempre mais alta, a nossa mente terá sempre mais força e as nossas opiniões terão o mesmo peso.

e que nunca, jamais, um homem que seja (ou mulher) nos desrespeitará ao ponto de dizer certas palavras ou, pasme-se, de fazer sofrer abusos físicos. 

 

quando isto for uma realidade na mente das mulheres não haverá homem, juiz, padre, médico, agricultor ou político que se atreva a fazer, sentir ou dizer diferente:

de nada valerá!

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oh vai ver ali:

publicado às 11:30


3 comentários

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De andreina a 24.10.2017 às 19:42

Subscrevo e concordo, é preciso continuar a lutar, educar e sentir! Fogo é incrível a capacidade e tens em dizer com tão pouco tudo o que é preciso!
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De Corvo a 25.10.2017 às 09:27

"Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte"
E a nossa constituição é regida por essas sociedades ou pela nossa?
De uma certa maneira, esse juiz julgando pela constituição dessas sociedades, não está a justificar como válido o terrorismo?
E não há, não houve um advogado que lhe dissesse:
Meritíssimo, ele, o agressor não era o marido. Já estava divorciado dela há muito tempo.
Enfim; particularmente acho que há sérios motivos para recearmos quem nos deveria garantir os nossos direitos de cidadania.
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De Joana B. a 25.10.2017 às 16:52

Essa é uma certeza que eu também tenho e sempre tive desde que me lembro de me ter apercebido de que por ser mulher podia haver quem viesse a pensar ser superior a mim, nunca irei permitir que um homem me bata.
Algo que eu costumo dizer quando se fala no assunto é que o primeiro sopapo ainda posso levar por não estar à espera mas a partir daí garanto que não levo mais nenhum.

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