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estigma e doença mental

por M.J., em 06.04.17

aos vinte e cinco anos fui diagnosticada com stress pós traumático e depressão.

não me foi explicado muito porque, vistas bem as coisas, não estava na disposição de entender fosse o que fosse.

o que sei é durante meses, anos até, lidei com as consequências de uma doença que não escolhi. foi-me dito até, preto no branco, que talvez nunca viesse a passar totalmente e acredito que uma crise ou outra que sinto, muito de vez em quando, possam ser provocados por resquícios do que ficou. 

ou isso ou é traço de personalidade. 

 

não tenho vergonha alguma em assumir semelhante facto.

desci a um cenário tão negro que se torna incrível, anos passados, que tivesse conseguido dali sair. falo das coisas com a naturalidade quase banal com que se fala de uma outra doença qualquer. sem qualquer estigma ou vergonha. como quando explicamos as dores e os sintomas de uma perna partida ou uma pneumonia.

falo disso porque foi uma realidade minha e da qual não terei, jamais, vergonha.

falo disso - e escrevo, o que mais há neste blog são textos em que o refiro - não apenas e só para (possivelmente) ajudar através da empatia e do reconhecimento de situações mas, sobretudo, para não esquecer.

para não deixar que se perca nas cortinas do tempo a caixa oca que fui durante meses, esquecida das coisas mais básicas;

ou a ininterrupta dor de um cinzento atroz que se colava à alma e me fazia sentir que nada mais valia a pena;

ou as preces seguidas, todas as noites, para não acordar;

ou a desilusão por estar viva todas as manhãs;

ou o choro da minha família pelo estado em que viram;

ou a ansiedade que me cortava o peito todos os dias, num frenesim louco e me impedia de ser;

ou a incapacidade de viver, presa num limbo de sobrevivência torpe;

ou as cicatrizes no braço quando nada, mesmo mais nada, acalmava a não ser outra dor;

ou os planos de fim;

ou a certeza de que apenas deixando de respirar podia ser.

 

escrevo e falo disso com a naturalidade porque não há outra forma que se possa falar e escrever. 

e não me assusta nem poderia assustar que me definam e me assumam como louca.

ou que ainda rodeiem a depressão, a ansiedade e o stress pós traumático num estigma de tolinhos w doentes incapazes.

ou que me assumam como apenas uma fase da vida. 

ou que me mandem tomar a medicação, numa espécie de ataque. 

 

não tomo medicação alguma, mas tomarei todas as vezes que for necessária.

não vou, neste momento ao psiquiatra, nem faço terapia, mas recorrei a eles sempre que sentir que preciso.

recorrerei a todas as ferramentas que encontrar para nunca mais sofrer um milésimo do que sofri há cinco anos. sem qualquer tipo de vergonha. sem qualquer medo do que pensem. rindo, sem maldade, na cara de quem diz que psiquiatra é para malucos. se o é, ainda bem que sim, porque me curou.

 

a doença mental é - e vai ser - sempre incompreendida.

porque não se vê.

porque é fácil assumir como mania, como personalidade, como falta de atenção.

numa altura em que tudo desabou e eu morri por dentro e me transformei num pedacito de nada - sim, o estado de choque existe - e passei meio verão sentada à espera de ser, sem saber que o esperava, houve quem dissesse que tudo em mim era chamar a atenção. houve quem pegasse na minha dor e a enrodilhasse num bocadito de papel sujo e decretasse, do alto de uma sapiência torpe, de que eu nada mais queria do que atrair vistas e olhares quando, na verdade, a única coisa por que ansiava era  que deixassem de me vigiar para ser livre de findar.

soube meses mais tarde e há uns dias descobri que também está, ou esteve, doente. que sofre na pele talvez a mesma intensidade - as dores são intimas - do que sofri. 

não tive vontade de rir. ou de dizer que a vida se encarrega da vida: senti apenas uma imensa piedade. e quase empatia pela batalha mental que alguém vai travar, ou travou se não acredita na doença.

 

sofri de depressão um dia e acredito que seja atacada por ela num futuro, quando decidir - por exemplo - ter filhos, no pós-parto.

acredito que tenho uma tendência maior de sucumbir à dor, de me deixar arrastar pelas contrariedades e de me sentir mais miserável que o mundo numa batalha mental. 

imas sso não me define, mesmo que assim o queiram acreditar.

mesmo que assim o decidam.

 

o que me define meus senhores, foi ter subido a pulso, degrau a degrau as ondas de dor que me consumiam a alma e me matavam todos os dias.

o que me define foi, contrariando expectativas e prognósticos, recuperar - na sua maioria - durante ano a saúde mental que tinha perdido.

o que define é hoje viver mais e melhor do que algum dia pensara viver.

o que me define é a persistência em não baixar os braços mesmo quando não há expectativa de que valha a pena mantê-los erguidos.

o que me define foi ter-me apaixonado por alguém que ensinou a ser integralmente.

o que me define é tudo o resto, incluindo a batalha que travei para deixar de ser só um pedacito de dor.

 

e a vós? 

o que vos define? o preconceito pela doença mental ou o conhecimento de que não é uma opção de quem o sofre?

 

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publicado às 10:25


19 comentários

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De Gorduchita a 06.04.2017 às 10:32

Conheço várias pessoas que passaram por depressões. Conheço quem viva com essa luta, de não se deixar sucumbir, diariamente.
Não poderia nunca achar que é querer chamar a atenção. Não poderia nunca ter preconceito, mesmo não imaginando, sequer, o que é estar ali, naquele sitio.
Dou apenas graças de não passar por tal.
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De M.J. a 06.04.2017 às 11:14

isso só demonstra o quão inteligente emcionalmente és.
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De Chic'Ana a 06.04.2017 às 10:43

Antes de mais tenho de te dar os parabéns, parabéns pela forma como encaras a doença, pela forma aberta como falas da mesma, isso apenas significa que estás confortável com o que te caracterizou durante um período de tempo, e que, felizmente, conseguiste ultrapassar com mais ou menos dificuldade, acredito que com muita dificuldade, pois não é fácil... (não apenas para ti, mas para todos os que te rodeiam e gostam de ti, sofreram também, muitas vezes em silêncio, e a sensação de impotência deve ser avassaladora).

Tudo o que as pessoas não vêem, não conseguem caracterizar, não conseguem quantificar e portanto não conseguem compreender ou atribuir um grau de importância. Apenas quem passou por cenários semelhantes consegue valorizar.

Eu tive sempre dificuldade em compreender, admito, até ter lidado com as depressões e ansiedade bem de perto. É... horrível!

Parabéns MJ, fico muito contente por ti, sinceramente, e apenas desejo que consigas alcançar todos os teus sonhos e objetivos. Se algum dia a doença de voltar a bater á porta, tenho a certeza que a irás enfrentar com muita força e determinação e voltarás a vencer.
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De M.J. a 06.04.2017 às 11:14

Obrigada Ana, pelas tuas palavras.

Mesmo.
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De Gaffe a 06.04.2017 às 10:45

:)
E eu?!
E eu?!
Que te adoro?! Ficava sem te conhecer e sou tão egoísta!

Agora olha para ti. Agora olha! OLHA!
Uma mulher PODEROSA. LINDA até dizer basta. Admirável. Feliz.

O que nós sabemos - só nós duas -, chega e sobra para provar que o és.

:)))************************** e por aí fora.
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De M.J. a 06.04.2017 às 11:14

Não exageres. Linda já é esticar muito a corda :D


gosto de ti.
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De Carla Godinho a 06.04.2017 às 10:49

Sei como é... Passei um ano perdida, só querendo desaparecer. Passado anos desde aí, ainda tenho dias muito negros, em que não vejo luz alguma e que a vontade de desaparecer volta a surgir. Mudei pra um rés do chão porque viver num 4º andar em dias desses pode ser muito perigoso :/
Neste momento são mais os dias bons que os dias maus e dou-me muito feliz por tal. Mas sei que será uma eterna luta pra não voltar a deixar-me engolir pela angústia e escuridão.
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De M.J. a 06.04.2017 às 11:15

Vai passar. Vai passar. Sei que passa e a receita pode ser mais simples do que parece:
Terapia, medicação quando preciso, exercício físico, alimentação saudável, horas de descanso certas e uma rotina de coisas que são prazer aliadas ao que precisamos de fazer por obrigação.

força.
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De Um quarto para as nove a 06.04.2017 às 11:25

O preconceito é comum por dois motivos (na minha modesta opinião), porque, tal como dizes, não se vê e se não está a vista uma ferida exposta então é relativizada, depois porque gozar com aquilo que achamos controlável faz com que o tema esteja mais distante. O "a mim jamais". O que as pessoas não entendem é que pode acontecer a qualquer pessoa e pode acontecer quase do dia para a noite, porque se para um tumor pode aparecer um nodulo, uma dor, uma indisposição, a doença mental pode ser silenciosa, pode ocupar-se da pessoa aos poucos, descurando os sinais porque se relativizam com as semelhanças de pequenos cansaços e insatisfações.
Fortes são os que delas conseguem erguer-se. Ignorantes são os que vivem para acreditar que só acontece aos outros.
Força, que a continues a ter, sempre.
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De Fleuma a 06.04.2017 às 11:41

Como se torna óbvio, muito do que aqui está descrito puro e duro, é familiar. Demasiado.

Não me vou alongar muito e maçar, mas sei exatamente pelo que se passa e os caminhos que se percorrem para tentar, repito tentar, sair deste estrangulamento.

Também não tenho qualquer embaraço em admitir que muito do que aqui se descreve se passou comigo. Muito menos rejeitar esse facto - rejeição que é a primeira grande causa do declínio mental e físico e quem se encontra na situação.

Pessoalmente, poderia fazer meus os " sistemas de sobrevivência" aqui narrados. Apenas não o faço porque temos feito caminhos diferentes para os aplicar.

Reconheço, não vejo a vida com o mesmo brilho e otimismo da M.J. Mas encontrei conforto numa visão mais "escura" e pessimista. Mas, estranhamente, mais clarividente e assertiva.

Caminhos diferentes mas objetivos iguais.

Não consigo terminar sem agradecer a possibilidade de ler estas palavras. Poderia vesti-las como se fossem a minha pela. E são um bálsamo.
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De Olívia a 06.04.2017 às 12:13

Gosto muito de ti. Por tudo o que és. Pela esperança que um texto destes me dá.

Apesar de ter sofrido com a depressão numa altura em que não entendia como é que alguém podia sofrer daquilo, aprendi muito recentemente que isso não era nada comparado com o que sentimos quando vemos um filho nosso sofrer de uma doença mental bem mais complicada.
Ser mãe relativizou muita coisa. E o coração de uma mãe é mais resistente do que se imagina.
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De Maria a 06.04.2017 às 12:26

não é opção de quem o sofre nem de quem tem de aprender a acompanhar um familiar, namorada, amigo com uma doença mental. lamentávelmente o preconceito é ainda enorme...

Obrigada pelo testemunho que passas
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De Just_Smile a 06.04.2017 às 12:31

Eu própria sou da área da saúde e custa-me compreender algumas doenças mentais, acredito nelas, sei que existem mas é complicado tal como dizes: é algo que não se vê... Acho que são das doenças mais complicadas de lidar e isso de não teres vergonha, admitires e lutares para nunca mais voltar é só um acto de coragem e força, muita força!
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De Miss Unicorn a 06.04.2017 às 13:17

Parabéns pelo texto MJ. Por falares de uma coisa que te marcou e que vai sempre fazer parte de ti e da tua vida, mas que escolhes encarar com naturalidade e não esconder. Sem estigmas, sem medos, sem preconceitos.
Tudo de bom para ti :)

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