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desculpem lá se não é igual à vossa.

 

há uns anos atrás quis morrer. reformulo. há uns anos atrás tentei morrer. reformulo ainda. há uns anos atrás quis tanto morrer que tentei que acontecesse.

foi uma decisão minha. não posso dizer se consciente ou não, mas a única que me assaltava o espírito durante dias, meses, quase anos.

não vou dissecar - por não interessar - motivações, planos, maneiras ou acontecimentos. interessa apenas que estava doente. muitíssimo doente. que me doía a alma e os ossos. que me doía a vida de uma forma que não doía aos outros. que me doíam tanto as horas e o respirar e o andar e o ser e o acordar todas as manhãs que nada mais interessava.

doía-me a vida e como só doía a mim, só eu tinha o direito de opinar sobre ela.

só eu tinha o direito, ou não, de a tentar alterar. 

 

no entanto, não deixaram que eu pusesse de lado o dom que é viver.

muitíssimo contra a minha vontade agarraram-me a ferro e fogo e ordenaram-me que prosseguisse. ninguém me perguntou se eu queria permanecer ligada à vida, porque já sabiam a resposta. ninguém se sentou ao meu lado e debateu, friamente, vantagens e desvantagens de prosseguir.

toda a gente olhou para a morte como algo a combater.

como um tabu que não se discute porque não há nada para discutir.

como um direito que eu não tinha ainda que tivesse.

como um opção que não era minha ainda que fosse. 

 

a vida, dizem os entendidos, é um direito intransponível. mas a vida somos nós e nós só podemos ser se quisermos. de que vale uma ligação ao ar que respiramos se o desprezamos? se nos magoa tanto que queremos tudo menos tê-la? com quem direito alguém nos impõe que permaneçamos quando a única coisa que nos interessa é acabar?

 

anos depois permaneço aqui pela tenacidade de quem não deixou que eu fosse.

sei, conscientemente, que devia estar agradecida. tudo o que vivi depois me mostrou que a doença era ultrapassável e que a dor, devidamente tratada, era momentânea. e mesmo assim, mesmo depois de viver tanto e passar por tanto após a vontade de desistir, continuo a achar que ninguém tinha o direito de decidir por mim. 

a ninguém era lícito substituir-se à minha vontade. mesmo que a minha vontade estivesse doente.

mesmo não tendo a percepção total do que me esperava não era lícito que a minha vontade fosse posta de lado por "não ser o melhor para mim".

porque o melhor para mim é aquilo que eu decido acerca do que sou.

porque sou eu que vivo com as minhas decisões. ou não vivo.

porque sou eu que sendo dona dos meus dias e que lidando com as minhas dores, com as minhas felicidades, com as minhas conquistas ou desilusões, com os meus sofrimentos e angústias, sei o que quero para as mudar.

 

se não me tivessem obrigado a permanecer, há uns anos atrás, não seria agora. não vos diria, não escreveria, não sentiria o sol no corpo. não saberia o valor do amor. não saberia da minha capacidade de amar.

teria sido um desperdício, bem sei.

mas seria o MEU desperdício. e só eu tinha direito de decidir sobre isso. 

20076551_bSpCP.jpeg

 (imagem roubada à gaffe, que a pediu a alguém).

 

quem raio julgam que são aqueles que pensam ter direitos acerca da sobrevivência dos outros?

serão eles, por acaso, a viver o resquício de vida que obrigam a que seja mantida?

 

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publicado às 10:15


26 comentários

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De Gaffe a 22.02.2017 às 10:38

Adicionei aos favoritos, porque é simultaneamente dura e dorida a tua opinião.
A eutanásia, discutir a eutanásia, é para mim - reforço o "para mim" - uma brutalidade, uma terrível parede de medos e de ambiguidades e de hesitações e de passos penosos e lentos.
Sabes o que faço. Não consigo contrariar de forma tão rigorosa e radical aquilo que está na vinha vida como motivo e razão e, no entanto, não consigo de forma cabal argumentar contra o que acabo de ler.

- Uma consumição - diria a MJ.
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De M.J. a 22.02.2017 às 10:43

entendo.
mas a minha opinião é muito clara: cada um tem direito absoluto sobre a sua própria vida. direito pleno e total.
e em nenhuma circunstância (enfim, com as atenuantes já mais que conhecidas) deve ser dado poder aos outros para decidir sobre a vontade, ou não, de a cada um continuar.
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De Psicogata a 22.02.2017 às 10:45

Não pedimos para nascer, não sabemos quando morreremos, mas se decidirmos por termo à vida, a decisão é nossa e só nossa.
Quando o fim é inevitável obrigarem alguém a sofrer só porque acham que deve ser assim é pura e simplesmente uma estupidez.

Ainda bem que te agarraram à vida, de outra forma não haveria este blog, o desafio livro secreto e tantas outras coisas, podemos nem sempre concordar, mas é bom ter-te por aqui.
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De M.J. a 22.02.2017 às 10:50

é isso. não percebo o que arroga os homens sentirem-se donos dos homens, numa decisão tão própria como é continuar a viver ou morrer.
a morte é uma coisa feia. é triste. é um término atroz. mas ainda assim, cabe a cada um a decisão de ir ao seu encontro ou não.

(obrigada. fiquei sensibilizada com o teu comentário).
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De Psicogata a 22.02.2017 às 10:55

A decisão da morte cabe a quem é dono da sua vida, não há margem para erro.

:)
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De M.J. a 22.02.2017 às 11:01

ora aí está.
tudo dito.
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De F. a 22.02.2017 às 10:54

Comecemos por aqui. Para mim suicido não é igual a eutanásia.

Uma coisa é eu não querer viver outra é eu decidir ajudar quem já não quer viver. Posto isto, quero te dizer que concordo com a eutanásia. Não tenho dúvidas que quando não há soluções para outrem, se for de sua livre e expressa vontade, que sim, concordo com uma morte digna. Em muitos casos é só isso que se pede...morrer enquanto ainda se é digno.

Suicido (normalmente) provem de uma doença diferente, silenciosa, das piores que pode haver.
Durante muitos anos, e por ter pessoas que tentaram por termo à vida, achei que quem suicidava era simplesmente um egoísta que não pensava nos outros. Que não pensa no sofrimento que isso iria causar, na falta, não pensa pura e simplesmente.Sabes? Como se eles próprios, o que eles queriam e como eles se sentiam não importasse. Importava só que não o tentassem, não fizessem os outros sofrer.
Porque as depressões não são doença que se veja a olho nú, porque são doença não aceite, não compreendida. Hoje ainda olho para o suicido (embora já não com o olhar de antigamente) como algo que não aceito, como algo que deveria me ser explicado antes, uma conversa... um não quero mais, uma despedida. Hoje cheguei à conclusão que de que não é egoísta quem não quer mais viver, a egoísta sou eu que os quero para mim.

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De M.J. a 22.02.2017 às 10:59

são, evidentemente, coisas diferentes. dei este exemplo porque era algo pessoal e relativamente próximo.
e quanto ao resto... bem meu amor, quando dói, quando dói muito, quando acima de qualquer coisa e de uma forma que nada mais interessa... o egoísmo é o menor dos problemas:
como pode alguém exigir-me que viva a vida mais não seja por amor a essa pessoa, quando a única maneira que ela faz sentido é ser vivida em decorrência de mim própria?
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De F. a 22.02.2017 às 13:58

Tens toda a razão.
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:18

era *quando dói acima..." acho que ficou perceptível mas só agora vi a falha :)
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De Olívia a 22.02.2017 às 10:55

Não queria nada opinar sobre este assunto. No entanto, vou deixar aqui a única frase sobre isto:
quando a lei for aprovada - porque vai ser um dia - que nunca me peçam a mim que tome a decisão de tirar a vida a alguém que amo.
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De M.J. a 22.02.2017 às 11:00

entendo. mas também peço que nunca me recusem a mim o direito de terminar com algo que é tudo menos viver. que é o amor sse não aliviar a dor de quem se ama? amar é obrigar a permanecer mesmo que o outro se recuse a tal?
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De Gaffe a 22.02.2017 às 11:11

Sabes, minha querida,
Leio os comentários que fazem e as respostas que dás e não consigo deixar de sentir que vais escrevendo poemas nessas respostas.

"Um poeta e um vagabundo nunca deixam de ter razão".
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:19

não tenho grande jeito para a poesia. ainda não aprendi as vírgulas ;)
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De Maria a 22.02.2017 às 12:15

"mas a vida somos nós e nós só podemos ser se quisermos."
pois, concordo em absoluto contigo!
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:19

é essa a essência disto tudo.
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De Me, myself and I a 22.02.2017 às 12:17

Já te disse que te admiro? Pois bem, se não o disse ainda, digo-o agora...admiro-te! Beijinhos
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:19

(o sentimento é mutuo, bem sabes).

obrigada
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De Quarentona a 22.02.2017 às 12:19

Não tenho palavras para descrever o que acabei de ler, ultrapassa-me uma dor tão brutal... uma coisa é certa, concordo plenamente quando dizes que o Homem não tem o direito de decidir as vidas dos outros homens e se algum dia eu me vir numa situação que me impeça de querer continuar, só espero que algum anjo atenda o meu último grito de desespero...
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:20

(ainda bem que te ultrapassa. a sério. por mais romanticamente que as pessoas falem dela quando a ultrapassam... só serve para matar aos bocadinhos).
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De Ricardo_A a 22.02.2017 às 12:53

A tua opinião, que é totalmente coincidente com a minha, é brutal por vir precisamente de alguém que podia já cá não estar, caso a eutanásia liberal existisse naquela altura. Digo liberal porque aquilo que vai ser aprovado será seguramente uma pseudo-eutanásia, muito longe do que se permite noutros países.

O argumento utilizado por quem é contra a eutanásia, de que a sociedade deve providenciar cuidados paliativos ou continuados e medicamentos para suprimir a dor, permitindo uma morte natural, com os quais concordo, ignora, contudo, a vontade da pessoa, enquanto pessoa não apenas física, mas também espiritual.

Eu quero lá saber se tenho alguém para me dar a sopa e mudar-me a fralda até que a morte me leve. Que interesse tem isso se já nem consigo reconhecer a minha família, os meus amigos ou lembrar-me onde estive ontem ?

Eu respeito argumentos contrários mas não os compreendo. Que raio de pensamento é este que quer obrigar as pessoas a viverem uma não existência ?
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:23

se soubesses as histórias que sei de pessoas que não se mexem, nem falam, nem podem manifestar-se e que podem, ou não, ter consciência do espaço e tempo...
não percebo. não percebo como podem as pessoas achar que têm direito de decidir a vida dos outros.
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De Suspiro a 22.02.2017 às 13:34

Estas palavras vão completamente de acordo com o que penso e nunca tão claramente o vi explicado como tu o fizeste. Eu sou e sempre serei a favor do direito de escolha. Só. E sem ses ou mas. E falo-te de coração aberto como alguém que já tentou e não conseguiu pôr fim a um sofrimento da maneira que pareceu mais fácil naquela altura. Apesar de tudo, fiquei cá para contar a história... Mas é como dizes, teria sido o meu direito a decidir de mim a prevalecer. Beijinho
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De M.J. a 22.02.2017 às 14:24

é isto:
"Eu sou e sempre serei a favor do direito de escolha. Só. E sem ses ou mas."

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