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eu também tive um cão

por M.J., em 03.03.16

há uns anos decidi, apesar das vozes que se (a)levantaram contra, que queria ter um cão. tínhamos começado a viver juntos há pouco tempo e eu imaginava idílicos passeios com um cão a dar ao rabo, piqueniques com um cão a dormir, tardes no sofá com um cão aos pés, exercício físico no levar o cão à rua, entre mil coisas.

se colocassemos uma banda sonora e vestisse um vestidinho vaporoso a minha imaginação era era um filme rasca em que o cão era a personagem principal.

de nada me valeram os avisos. que era demasiado niquenta para conseguir ter um animal com pelo dentro de um apartamento. que o cão ia exigir gastos que a minha sovinice não comportava. que o facto de trabalhar cerca de dez horas por dia não me permitia ter um animal. nada disso. eu estava delirante com toda a tela cor de rosa de um patudo e só via o cão aos saltinhos ao meu lado num amor devoto, cheirando a rosas e jasmim ou relva acabada de cortar.

arranjei o cão.

era de raça pura (não foi isso que pesou) tinha um ano e estava  numas condições um tudo nada deprimentes pelo que me compadeci. fomos buscá-lo e trouxemo-lo para casa tendo o bicho chorado desalmadamente. ninguém na família onde o pobre estava quis saber de despedir-se e o animal estava perdido.

quando o larguei em casa, perante latidos descomunais e pelo em rastas, cheirava nauseabundamente e presenteou-me com uma xixizada no tapete. como tinha umas imensas orelhas mal pôs o focinho na taça da água limpou o chão da casa toda. tentei estabelecer-lhe um perímetro de permanência assumindo que o animal não entraria nos quartos mas, desabituada da sua existência, quando dei conta estava em cima da cama, a roer-me um peluche com as patas repletas de xixi no edredão branco.

apercebi-me, imediatamente, que tinha sido um erro e que não estava minimamente preparada para ter um animal. mesmo assim, a partir daquele momento, era responsável por ele e tentei fazer o que era suposto.

gastei horrores em materiais para o cão. camas, brinquedos, alimentação, trelas, coleiras, champôs e tudo o que era suposto. tinha uns dentes excelentes e comeu, logo na primeira tarde, o  brinquedo cor de laranja que supostamente devia - de acordo com as instruções - durar uma semana. nessa noite não esperou para ir à rua, conceito que lhe era desconhecido, e fez uma valente carga de cocó no sofá com pedaços de borracha laranja.

fiquei feliz que tinha bons intestinos.

comecei a desesperar. a casa deixou de cheirar a ambientadores para cheirar a cão. não havia um chão limpo, pela empregada semanal, mas repleto de pelos. um dos meus casacos felpudos estava agora com tanto pelo que ninguém sabia se era sintético ou de cão e havia em todo o lado poças de xixi.

muito deprimente.

comecei a ganhar raiva ao pobre animal que não tinha culpa. latia e gania a noite toda se não o deixássemos solto pela casa e quando acordávamos de manhã havia cócos e xixis espalhados, mantas do sofá estraçalhadas e pedaços daquilo que antes era almofadas. 

nunca pensei abandona-lo.

no entanto, confesso sem medos, nãossentia qualquer ligação ao bicho se não a carga de trabalhos descomunal que me estava a dar. percebi que não estava talhada, de todo para o manter em casa. acordava cedíssimo para limpar a porcaria que ele fazia e mal dormia porque ele corria pela casa e eu recusava-me a deixa-lo a dormir na varanda ao frio. era possível educá-lo e o rapaz, bem mais paciente do que eu, conseguiu, na primeira semana, que deixasse de fazer xixi em todo o lado. mesmo assim, a casa não cheirava a minha casa mas a cão, por mais banhos que lhe desse.

um pesadelo.

e agora meus senhores? era suposto na responsabilidade que assumira permanecer com o animal sentindo, todos os dias, ganas de o trucidar e cozinhar como cabrito? tomara uma decisão errada baseada na minha imaturidade e infantilidade. era suposto andar infeliz o tempo todo, vendo a minha casa dominada por um bicho demoníaco?

sim, diriam todos. era meu filho, adoptado para sempre e devia devotar-lhe o mesmo amor que ele devotava às minhas almofadas.

não consegui. coloquei um anuncio de adopção. como era de raça pura recebi dezenas de respostas. analisei todas enquanto levava ao veterinário e mandava tosquiar. fiz aquilo que grande parte dos pais fazem: compensei a minha culpa dando-lhe presentes e creio que ele não se importou.

a família que lhe arranjamos, do outro lado do país, era amorosa. manda-nos fotografias de vez em quando. o cão está sadio, bonito e deve ter aprendido a deixar as almofadas em paz. a minha casa voltou a cheirar a baunilha, lavanda e canela e há almofadas imaculadas nos sofás.

e eu aprendi uma lição. 

juro-vos, muito baixinho, que foi a partir dessa altura que comecei a ver a maternidade/paternidade com os olhos de uma decisão irreversível, com mais inconvenientes do que vantagens.

e vejam lá, eu nem sequer pari o cão!

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publicado às 10:12


4 comentários

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De Alexandra Martins a 03.03.2016 às 10:48

Olha, ainda hoje pensava nisto de ter animais. Tive durante muitos anos um coelho anão, mas eram os meus pais que tratavam da parte chata e eu limitava-me a brincar com ele e a fazer-lhe festas.
Agora, em adulta, eu e o marido decidimos que não tínhamos condições no apartamento para ter animais. Mas tivemos um filho. Que é mais ou menos a mesma coisa. E que eu pari. E desejei e quis e sonhei. E que amo muito. Mas que também me dá cabo da cabeça às vezes e só me apetece fingir durante alguns momentos que não sou mãe e que não tenho responsabilidades.
Por isso, depois do filho, cada vez penso mais: não tenho paciência para animais de estimação!
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De Sarabudja a 03.03.2016 às 12:00

Ofendam-se os de sempre, mas para mim um cão é um cão: animal mamífero, coberto por pêlo, mais ou menos curto e que estabelece com o dono uma relação de agradecimento.
Juro que me faz muita confusão as pessoas que chamam filhos e até dão nomes de gente à bicharada. Da mesma forma me faz impressão ver gente a ser mal tratada e acharia estranho chamar nomes tipo Bobby e Tareco aos miúdos.
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é, óbviamente, outra coisa. Para mim, sublinhe-se.

Se quiseres comparar porque ambos dependem de nós, aí percebo.
Mas não me choca que tenhas procurado bons donos (donos é a palavra quando se fala de bicharada, não é?) para o cão e percebas que ele esteja bem integrado numa família e tenha sido uma mais valia para ele.

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De Maria João Marques a 03.03.2016 às 16:19

Tenho 3 cães todos eles adotados. Só os tenho porque tenho um quintal, e não soube dizer que não , ás pessoas que me pediram para ficar com eles, uma porque estava doente, outra porque o senhorio não queria, e outra porque a crise bateu á porta e teve de mudar de casa ... mas tenho a nítida sensação que elas hoje têm a casinha a cheirar a baunilha e eu todos os dias aspiro os pelos do cão ( pelo menos de um deles) . Não é fácil.
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De mudadelinha a 03.03.2016 às 19:38

ás vezes é tudo uma questão de os deixar crescer... Dar tempo ao tempo. Desculpa mas eu adoro animais e, apesar de termos pontos de vista diferentes, não critico e compreendo o teu, porque até eu podia tomar a mesma decisão. Não comparo os animais a crianças, não, mas acho que é tudo uma questão de eles crescerem! A minha cadela veio para minha casa com um ano, é de porte pequeno é certo, e tenho jardim também é certo, mas não queria que a cadela ficasse o dia todo lá fora sozinha e, então nos primeiros meses a casa dela era a cozinha. Claro que nos primeiros meses levou imensas chineladas e, chegou a dormir no jardim de castigo e, mais mil e uma maneiras que a castigamos, porque todas as semanas tinha de comprar cuecas e, meias e, calçado nem se fala, compramos chinelos de quarto novos para todos. Metíamos as mãos à cabeça todos os dias, as almofadas, bonecos, tudo o que ela apanhasse fofinho era para destruir... Fazia xixi e cocó na cozinha, tomava banho e patinhava a casa toda, cujo soalho é de madeira, comia as fezes e, inúmeras asneiras que fazia...
No entanto, à medida que se foi adaptando à casa, à família, às rotinas a coisa foi melhorando... Os meus pais, principalmente a minha mãe, nunca gostaram muito de cães, mas fizemos um grande sacrifício para a educar e, hoje basicamente vive connosco dentro de casa. Aos bocadinho fomos conseguindo habituá-la a estar connosco dentro de casa, então quando quer ir fazer as necessidades dela dá sinal e começa a ladrar para o sitio onde está a coleira dela e, outras coisas. É tudo uma questão de tempo e, de paciência também! A minha casa cheira bem e, tem um cheirinho super agradável, e ela mora connosco... Quanto aos pelos a conversa é outra.

beijinho*

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