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no final do primeiro ano eu fizera amizade com a senhora que tinha uma lojinha de roupas para crianças, no átrio do prédio. passávamos longas horas a falar de tudo e de nada. fazíamos as palavras cruzadas da dica da semana e riamos das loucuras da avenida.

eu estava já naquela fase de loucura que antecede uma depressão. via as coisas e não via. sentia e não sentia. um medo atroz de sair e de falar fosse com quem fosse. o mundo era uma imensidão de coisas que eu não queria. com a senhora da lojinha tudo acalmava. sentia que tinha, na minha vida de criança, um adulto a apoiar-me. nos dias. nas horas.

quando voltei no ano seguinte a depressão estava diagnosticada. as aulas começaram mais tarde, pelo menos as aulas a sério. eu recusava-me a praxes e pessoas pelo que passava longas manhãs e tardes sentada ao lado dela a falar da vida.

às vezes a senhora do apartamento de cima vinha ter connosco. era simpática, bem vestida e bem falante. dizia-se na avenida que tinha muito dinheiro e que ajudava dezenas de pessoas sem nunca o apregoar. fazia voluntariado e falava das novelas.

um dia apareci na lojinha a chorar baba e ranho. foi na altura em que, pela primeira vez, um professor explicitamente me disse que não podia com as minhas trombas. e eu, que estava doente e achava a vida uma merda, vi aquilo como o fim do mundo. o professor avançou, assim à turma, que a minha opinião não valia nada. Aquilo cortou como varas, na humilhação explicita

quando cheguei à lojinha, a chorar baba e ranho, na pequenez daquele problema que me ocupava toda a vida, as senhoras, ambas, me sorriram, acalmaram, se abespinharam contra o anormal do professor (ainda hoje se o visse, era capaz de lhe virar a tromba) e quando a lojinha fechou a senhora da avenida convidou-me para ir a casa dela, ver a novela.

os meus colegas deambulavam pela cidade em bebedeiras e noites agitadas da academia. eu, naquela noite, depois de um dia de aulas e de trabalho na loja das fotocopias, fui ver a novela, na casa da senhora.

a sala era antiga, a lembrar as casas senhoriais. tinha um sofá com flores e uma manta quentinha. vimos a novela. rimos. e passado um instante ofereceu-me licor. do dela. caseiro.

bebemos. aquilo caiu-me que nem alccol puro no estomago. repeti. provei vários.

 

nessa noite fui para a cama bêbada. não em bebedeira apanhada na praça da republica, no moelas ou num bar qualquer perto da sé ou da baixa. bêbada com bebedeira real, apanhada na casa da senhora da avenida, com os seus sofás de flores e a novela na televisão.

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publicado às 10:40


4 comentários

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De Gaffe a 05.09.2014 às 11:41

Gosta tanto, mas tanto, tanto destas tuas memórias!!!
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De M.J. a 05.09.2014 às 12:22

acredita que me lembrei diso tudo, há uns tempos, numa noite em que fui passear com o moço e ele me contou qualquer coisa da universidade. assim, num chorrilho, passei parte da noite a despejar aquelas vivências, que já me esquecera, ainda que não assim tão antigas.

foram de facto tempos únicos.
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De Susie a 05.09.2014 às 12:38

Bendita senhora !
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De M.J. a 05.09.2014 às 12:39

ahahahhahahhaahahahaha

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