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eu descia de bicicleta pela rua abaixo, com o vento nos ouvidos. era de noite e encontrava ali, na rua e na bicicleta toda a precisão do desaparecimento da dor. eu e a bicicleta, pela rua até chegar à baixa. os dias eram curtos, no começo do outono. o segundo ano era chato, longo e mais do mesmo, na imensidão do tédio, das aulas e do trabalho que me açambarcava toda. e eu levava a bicicleta sem travar, sem medo dos carros e do papão que me podia matar. só o vento nos ouvidos, nas mãos, no corpo.

as luzes eram coloridas e davam contornos e sombras às arvores que deixavam, muito lentamente, cair as folhas secas no chão. não sabia nessa altura que ia viver tanto mais, tanta dor, tanta ausência, tanto medo, tanto frio de distância e de amargura. voava na minha bicicleta e achava que a minha vida, toda ela, não tinha sentido e eu era nada.

quando chegava à baixa havia sempre, invariavelmente, o senhor que vendia castanhas assadas, encostado à pastelaria. eu parava a bicicleta, ali no chão, tirava as luvas das mãos cujo vento queria esfriar e pegava no cartucho com as castanhas, que saboreava sentada no banco, em frente à loja que vendia malas e cuecas.

passavam gentes, pessoas, agitados na noite que envolvia. as luzes acesas, o vento frio, o mondego ao fundo. e ali sentada, enquanto comia as castanhas, senti-as mais salgadas das lágrimas que chorava, só porque sim, só porque queria.

quando regressava a casa e me deitava na cama, onde caía, não raras noites, estuque do tecto sabia, não tinha como não saber, que não pertencia também ali.

não pertencia, e ainda não sei porquê, a lado nenhum. 

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publicado às 12:13



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