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quando eu dei conta dava explicações a meio mundo. não que tivesse feito algo nesse sentido. foi o senhor alto, que se sentava sempre na primeira fila, o culpado. no inicio destoava no meio da multidão que assistia às aulas. ficava muito direito, sentado na primeira fila. usava invariavelmente calças de fazenda, tinha uns óculos grossos, magro, esguio, bastante alto.

eu aproximei-me dele não só porque ele estava na primeira fila mas porque, sendo mais velho, muito mais velho, nenhum dos pseudo doutores o vinha chatear para ir às praxes. sempre que eles se aproximavam, a rondar, e eu só queria que me deixassem em paz, sem paciência para conflitos ou bater de pé, aproximava-me do senhor alto e fazia ar de sua grande amiga. às vezes trocávamos mesmo meia dúzia de palavras.

depois, quando a minha colega de casa desistiu do curso, o senhor alto era, grande parte dos dias, a minha companhia. almoçávamos na cantina, falávamos de futebol, de planos, das lembranças dele no exército, do meu trabalho na fotocopiadora onde ele ía às vezes, na procura de livros baratos. 

um dia ele olhou para os apontamentos que eu tirava nas aulas e pediu se podia tirar fotocópia dos mesmos. disse-lhe que sim. ofereci-me mesmo para as tirar eu e dei-lhas no dia seguinte, organizadas por capas e cores. sem pedir nada em troca. estava sedenta de companhia, de atenção. e ele era, ali, nas aulas, agora quase vazias de gente, o meu único amigo.

uns dias depois perguntou-me se podia explicar-lhe umas coisas, que não entendia. concordei prontamente e no intervalo, num banco da faculdade, expliquei-lhe o conceito, que ele não percebera, de direito constitucional. a partir daí o senhor alto tornou-se meu explicando, pagando à hora.

e trouxe amigos.

quando dei conta tinha a mesa da sala, na casa velha onde me caía o estuque nos pés, repleta de trabalhadores estudantes. e o rafa, claro. eu andava pela sala, com largas passadas, explicando introdução ao direito, direito romano e direito constitucional. fazia esquemas, tópicos de tudo o que tinham de escrever no exame. e eles apontavam com reverência. faziam as perguntas mais idiotas que se possa imaginar. aprendiam. agradeciam muito.

nas férias de verão o senhor alto foi a casa dos papás, onde eu estava, para eu lhe explicar, num dia inteiro, tudo o que fosse possível de introdução ao direito, para o exame de setembro. foi um longo dia, ambos sentados, a escrevinhar, a falar, a trocar ideias. 

nesse ano o senhor alto passou na cadeira com doze. eu subi a nota para quinze. 

fiquei orgulhosa. mais dele que de mim. sobretudo quando ele disse ao professor que tivera explicações comigo. e que só assim conseguira passar.

 

foi, naquela altura, o meu momento de glória. 

 

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publicado às 00:22