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estranhamente, repara, é como que se jamais tivesses feito parte da minha vida. e houve um tempo, tu sabes, foste tudo nela. amigo, irmão, pai, mãe. foste, naqueles anos de descoberta e crescimento o pilar vital que me suportou viva na desgraça que haveria de acontecer depois.

acredito, ainda hoje, que se estivesses do meu lado, anos mais tarde, a dor não teria atingido os graus que atingiu e tudo teria sido incomensuravelmente diferente.

recordo de ti todos os pequenos pormenores que uniram as nossas vidas. não penses que sou ingrata e me esqueci dos passos que demos, das confissões que trocamos, da aprendizagem mutua, dos abraços, das horas.

sei exactamente o tom dos teus olhos. que clareiam no verão, num verde quase translúcido e ficam vermelhos, às vezes, só porque sim. sei o cheiro do teu perfume ainda que não lhe consiga dar um nome. sei dos teus medos, se ainda forem os mesmos. sei dos teus defeitos. sei do teu sorriso, grande, num som que ainda me inunda, quando preciso de me lembrar de ti. e é sempre do teu sorriso que recordo primeiro.

lembro da tua voz. acredita que a sei na exacta tonalidade. sei das tuas ânsias. sei como precisas de rodear-te de pessoas, na certeza da aprovação por aqueles a quem te dedicas sem pedir nada em troca.

conheço melhor a tua bondade que a minha. acredito mais na tua inteligência que tu mesmo. tenho presentes todas as tuas qualidades. continuo a desculpar os teus defeitos. mais do que os meus. desejo, ainda que esconda, esqueça, calque, numa idiotice qualquer que me faz como sou, e tu sabes, que sejas incrivelmente feliz, mesmo que isso seja uma banalidade e tu estejas reservado para coisas extraordinárias.

por mais que o tempo passe, por mais que os anos se metam entre nós e as árvores vão mudando de folhas e os nossos cabelos fiquem mais brancos (e os teus inexistentes), por mais pessoas que nos cruzemos na vida, por mais objectos de que nos rodeamos, eu serei sempre aquela que te ouviu, longas horas, na angústia do não saber o que fazer. eu serei sempre aquela que te mostrou as incríveis capacidades que tinhas. eu serei aquela que te puxou ao limite para cumprires um objectivo. serei aquela a quem telefonaste centenas de vezes apenas para falar. aquela que abraçaste e secaste lágrimas. aquela que ensinaste a ser adulta. aquela a quem mostraste a verdadeira dimensão do amor fraternal e desinteressado.

e por mais palavras que não digamos um ou outro, por mais coisas que não saibamos um do outro, eu saberei sempre o tamanho dos teus braços e e tu saberás o dos meus, num abraço de irmãos, num dia solarengo, na véspera de mais um objectivo.

e eu saberei sempre da emoção, que não irás jamais esquecer, daquela luz, inexplicável, a descer sobre ti, numas escadas simbólicas, num dia de comemoração.

e tu sabes quem és e eu sei que tu, algum dia, de alguma forma, irás ler isto.

 

e para já isso basta.

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publicado às 17:23


4 comentários

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De Gaffe a 29.01.2015 às 17:49

O assustador é que talvez nunca o cheguem a ler.
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De M.J. a 29.01.2015 às 17:58

mais assustador é a minha incapacidade de lhe ler, eu própria.
mas todos nós somos feitos de tantas incapacidades que às vezes duvido como conseguimos sequer ser.
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De (des)Esperança a 29.01.2015 às 18:10

belissimo...
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De M.J. a 29.01.2015 às 18:24

és um doce:)

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