Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




comentava há pouco um texto da Olívia - de quem gosto muito - e que se mostrava agastada pela mistura de fátima com piadas acerca do festival da canção e futebol.

apesar de respeitar a fé de cada um - na mesma dimensão que respeito que a valorização do que é importante na vida de cada qual só a ele diz respeito - não entendo porque ficam os crentes - seja de que religião for - tão magoados com situações de humor, critica ou até de incompreensão pelos restantes.

e não entendo por vários motivos, apesar de nunca conseguir ter tido uma conversa deste tipo com ninguém.

 

esta coisa de fátima - sim, chamei-lhe esta coisa - não me incomodando, provoca-me um pouco de estupefacção.

é que habituei-me a olhar para todas estas... festividades como um evento turístico e respeitando quem sente de maneira diferente, quem olha para o que está a acontecer com fé e abnegação e sacrifício - e este respeitar é sentir que a pessoa está no seu direito e eu não tenho grande coisa a ver com isso - não percebo como se pode sentir um ataque, um desconforto ou uma mágoa por quem não sente e expressa o mesmo.

e mesmo não tendo nada a ver com isso gostava de perceber. 

 

é a própria igreja ou, enfim, quem nela manda, que transformou - ou permitiu que se transformasse - este acontecimento num evento turístico:

  • usam-se terços gigantes, que se acendem na entrada do papa;
  • usam-se corações gigantes;
  • fazem-se estruturas gigantes para acomodar imagens gigantes;
  • aceita-se que se vendam e se queimem velas gigantes.

(tudo em grande, tudo em proporção megalómana, tudo usado como uma marca, como uma imagem).

  • aceita-se que haja um aparato descomunal numa cidade.
  • organizam-se acontecimentos,
  • estrutura-se eventos,
  • aceita-se manifestações de alegada fé que envolve crianças a cumprir penitências de joelhos.
  • leva-se a bem que seja dada tolerância de ponto,
  • que se gastem milhões em segurança,
  • que se controlem as fronteiras. 

meus senhores não há dúvidas que é um evento - também, mesmo que não seja só - de turismo religioso, por mais que doa ouvir por aqueles que não o sentem.

e sendo um evento de turismo religioso,

e havendo uma aceitação de toda um... teatro por parte da igreja - sem conotação negativa, mas concordemos que todo o ritual católico assenta numa dramatização de gestos, roupas e acontecimentos -  porque lhe dá jeito que isto tenha proporções megalómanas...

por que motivo há uma incompreensão que esse evento então seja visto, nessa dimensão, como todos os outros?

 

reparem:

há gente que acorrenta cadeiras a cancelas para ficar na primeira fila, como adolescentes que dormem à porta dos locais onde vão estar os seus ídolos. 

há gente que caminha no meio da estrada, que encalacra o trânsito, sentindo plena legitimidade porque vai na sua fé.

há gente que acampa numa carrinha de caixa aberta para ver o papa, durante uma semana.

 

e então por que é que vendo tudo isto, e assumindo como natural até, um crente, um verdadeiro crente que assume fátima como oração, penitencia, fé, silêncio fica chateado, magoado com humor, mas não com a transformação destes valores num festival de carnaval?

 

por que é que há uma compreensão com o ti manel que aparece na tv em horário nobre, dentro da sua tenda, a dizer que vai para lá com uma semana de antecedência, a sua garrafa de vinho na mesa do campismo avançando a animação e dizendo que a sua vida é um milagre, mas há um sentimento de repulsa por assumidamente se brincar com um dia que junta o festival da canção, o papa e futebol?

 

não proclama afinal a vossa senhora de fátima um sentimento de compreensão mesmo pelos que não compreendem?

não fazem penitências no respeito pelo que a vossa senhora de fátima pediu?

por que motivo é que a minha incompreensão, o meu humor, o meu riso de uma piada que junta três coisas de dimensão para o país vos choca?

mas não é esse um pilar da vossa fé? o respeito pelo outro?

 

acho que, nesse caso, a compreensão pelo outro, onde se inclui o humor do outro, fica apenas quando o outro compreende da mesma forma.

e se assim é... é mais do mesmo:

não vale a pena caminharem tanto!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:01


11 comentários

Imagem de perfil

De Olívia a 11.05.2017 às 18:11

tentei responder lá no estaminé, só mais uma achega... uma piada é isso mesmo, uns acham graça outros não... e por respeito às pessoas da piada (que fazem, que riem) eu não vou lá chamar-lhes nomes, ou não estaria realmente a ser tolerante para com quem não acredita.
outra coisa, sendo eu católica, não sou santa, aliás sou do pior que pode haver sempre a cair nas mesmas falhas, daí levar certos ataques muito a peito, o que não devia acontecer... queria escrever mais, mas não posso mesmo... ah, tens razão em muita coisa, aqui descrita, se fosse eu a mandar, as coisas seriam bem diferentes!
(eu não acho o s. sobral um pacóvio, estava entre aspas)
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 11.05.2017 às 21:54

Vou a Fátima.
Mas não concordo com a agitação que se vive ( o terço vai iluminar as nossas amas) , a posse dos lugares da frente para ver Sua Santidade, andar quilómetros sem saber se se chega lá, da exploração turística, de muito mais que aqui escreveste.
E brincar com o futebol, o Salvador, seja lá tudo o que for neste dia que eu não concordo que seja de tolerância, faz parte do humor e só critica quem é santeiro para para inglês ver, e seja um sacana para o seu semelhante.
Bom fim de semana.
Sem imagem de perfil

De Cristina a 12.05.2017 às 00:17

MJ, gostei deste teu texto; considero até que dedicaste demasiadas palavras ao assunto.

quando achamos que temos de mudar o mundo, não basta dizer que achamos que temos de mudar o mundo.

esta tolerância de ponto assenta na mesmíssima matriz que institui os feriados religiosos. somos laicos quando nos dá jeito, e ser religioso é, na essência, da esfera do privado.

bom fim de semana :-)
Imagem de perfil

De Olívia a 12.05.2017 às 09:48

Só para terminar, eu não me estava a referir àqueles vídeos parvos de gente a cantar com camisolas de clubes, nem às imagens alteradas que vossemecês andam a publicar no FB, estava a referir-me a publicações ofensivas num dos grupos que "frequento" e em algumas páginas que circulam. Não estava apenas a referir-me a Fátima, como também à canção do festival e ao seu interprete, as pessoas escrevem as maiores parvoeiras... como diria alguém: uma consumição...
e agora deixa-me lá ir trabalhar!
Sem imagem de perfil

De OKaede a 12.05.2017 às 14:52

A sincronia dos 3 eventos, ou 2 (porque Eurovisão nunca foi um assunto da praça- contudo ainda bem que alguém reergueu com o seu talento e de forma espontânea), futebol e turismo religioso vão realmente testar a validade daquele lema "Portugal é um país de bola e de fé a bater no peito"- que sempre foi algo que me irritou porque se exagera sempre.
Imagem de perfil

De oBomIdiota a 12.05.2017 às 16:04

A mim faz-me é comichão confundirem fé com religião.

Vejo as pessoas serem entrevistadas e a responderem-me: sempre fui ensinada a ter muita fé. É a fé que me salva, é a fé que me traz aqui a Fátima, etc.

Não meus senhores, isso é o vosso catolicismo. Fé é uma "cena" totalmente diferente. Fé é a nossa crença em qualquer coisa indiferente ao que seja. Posso ter fé numa jarra. Posso ter fé que a mesinha de cabeceira do meu quarto é o meu anjo da guarda. Posso ter fé que as velinhas de cheiro do IKEA são a cura para todos os males. E ninguém me pode criticar porque é a minha fé.

Agora monopolizar a fé para assuntos religiosos, isso sim é que me causa espécie e o maior escárnio possível. Mas isto sou eu.
Sem imagem de perfil

De Cristina a 12.05.2017 às 20:26

não existe religião sem fé.
Imagem de perfil

De oBomIdiota a 13.05.2017 às 04:00

Certo, mas a religião não é a Fé. É isso que quero dizer. Há quem tenha fé em bruxas e videntes, pessoas que lêem a sina, deitam as cartas ou vêem o futuro numa bola de cristal. Há quem tenha fé em objetos. Etc, etc, etc.

Sem imagem de perfil

De Cristina a 13.05.2017 às 12:36

correto.
Sem imagem de perfil

De OKaede a 13.05.2017 às 18:38

Hahhahaha há gente que joga as cartas do Tarot, podendo ser condenada para ser um bom assado nas fogueiras da praça pública - que com este dom da astrologia fazem consultas médicas e prevêem o futuro, MAS tem um carinho pelas aparições capaz de ser justificação para andar à chapada a padres (looking at you Maya).

Por esta mesma razão é que concordo muitíssimo contigo. Podes ter fé nas cartas, fé nas aparições e ser uma católica com um grande ponto de interrogação.
Sem imagem de perfil

De Aninhas a 17.05.2017 às 19:29

É mesmo! Não tenho mais nada a acrescentar! Faço de suas, as minhas palavras!

Comentar post



foto do autor