Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




fim

por M.J., em 15.11.16

há qualquer coisa de muito macabro num funeral católico.

ultrapassa as barreiras da dor para espetar, em constante loop, facadas num espécie de masoquismo sádico: vela-se quem partiu uma noite inteira, na casa mortuária (quando era miúda era mesmo na sala da casa, a mesa de jantar desmontada para dar lugar às velas e flores, caixão e morto). as horas são longas e permanece-se, encolhido a um canto, na espera do tempo e nas recordações toldadas para incerteza do fim, porque não se consegue abarcar, maior parte das vezes, o significado da eternidade que aí vem.

no dia a seguir continua-se encolhido no transporte da urna para a igreja. os cânticos irrompem pelas paredes. as pessoas acomodam-se nos bancos corridos. há olhos vermelhos, palavras de circunstância, um choro mais lento que se ouve na multidão. repara-se na conveniência do preto vestido ou no garrido esquecido da camisola. há quem se ajoelhe, quem se levante e se sente. o padre discursa o que, praticamente, ninguém ouve. promete a passagem, o rito, a ausência do fim na espera do que somos. não diz que é ali a certeza do não regresso das mãos quentes com vida. não fala do corpo depositado no fim porque, consta, a alma prossegue. 

fecha-se a urna ao término da missa e vai-se em cortejo até ao cemitério. a dor agrava na finitude os gestos. leva-se para debaixo da terra alguém que se ama. caminha-se ao toque dos passos, ainda que a vontade seja ficar. entra-se no cemitério vendo a derradeira morada de quem já lá está. recorda-se outros momentos em que se acompanhava um corpo não tão querido. 

no cemitério abre-se a urna. reza-se. é o derradeiro final. é a última despedida. há um corpo e uma certeza de fim eterna. pode haver fé mas não afastará a ideia da solidão de quem fica. do bocado a menos que permanece no mundo. 

na entrega à terra há flores e choros e lamentos e dor. 

 

e constato, sem dúvida alguma, que a escolher morra eu primeiro, antes da dor de saber do fim do amor (por três ou quatro pessoas nesta vida) na terra: morta por morta, morta sem dor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 09:30


8 comentários

Imagem de perfil

De Melhor Amiga Procura-se a 15.11.2016 às 10:05

Existe tanta dor associada por na religião católica, associa-se ao fim, mas há associe a uma passagem e não ao fim...
Imagem de perfil

De Olívia a 15.11.2016 às 10:15

Não apenas em funerais católicos, mas cristãos.
Penso que é um ritual de passagem, mesmo para quem opta pela cremação... alturas houve em que eu fugia sempre que ouvia "funeral". Hoje vejo as coisas de outra forma, sinto que devo estar ao lado das pessoas que são minhas amigas nestes momentos. Apenas estar. Sem discursos vazios e moralistas.
Mas isso sou só eu... que sou esquisita...
Imagem de perfil

De Sarah a 15.11.2016 às 13:19

A culpa judaico-cristã, a expiação dos pecados, o padre que reza o morto para que este ascenda aos céus....tudo me parece e sempre pareceu demais.
Abrir a urna uma vez mais, agora no cemitério. O choro do dia de finados e as flores sempre frescas na campa....podendo eu escolher, cheguem-me um fósforo e vão comer e beber como se não houvesse amanhã. Para mim já não vai haver mesmo...
Imagem de perfil

De Outra a 15.11.2016 às 13:21

Sabes que precisamente por achar macabro a parte do velório, pedi à minha mãe que não fizéssemos velório ao meu pai . Pedi que não se velasse caixão aberto porque há sempre aquelas pessoas que só lá querem ir ver em que estado acabou a pessoa e achei que se queriam vê-lo, podiam ter feito visitas em vida (esteve uma temporada doente). Não sei se foi mais fácil assim, mas menos macabro foi de certeza.
Sem imagem de perfil

De Cristina a 15.11.2016 às 14:36

há dores que não têm religião. ou formalismos. dói e pronto.
Imagem de perfil

De Rooibos a 15.11.2016 às 14:45

Há hábitos muito enraizados na nossa sociedade. A sua origem, não sei.
Mas já participei em funerais católicos sem algumas dessas coisas.
As pessoas é que resistem a mudar os hábitos, porque depois comenta-se, critica-se, etc... Faz-se por causa daquilo que os outros pensam. Ou simplesmente porque são hábitos e se acha que não há outra forma de o fazer.
Sem imagem de perfil

De Mônica a 15.11.2016 às 16:41

O processo pôs morte é violentíssimo para quem vive (ou sobrevive) uma perda.
Dizem que faz parte tudo isso, para que o cérebro veja o que o corpo vê e a alma sinta.
Não sei. Há outras maneiras.
O luto, a perda, a dor devem ser vividas e sentidas cada um a sua maneira.
Eu se puder escolher o que faziam comigo sei bem o que queria, mas não sei o que queria para os que amo. Não consigo sequer imaginar porque sinto dor. Uma dor oca por ser uma dor sem sentido, mas dor daquelas que rasga a carne e quebra os ossos.
Sem imagem de perfil

De Pseudo a 15.11.2016 às 23:12

Eu devia escrever sobre os dois funerais a que assisti - sendo um deles o da minha avó materna - há poucos dias, no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo local. Nem que fosse para afugentar fantasmas. Tão distintos um do outro, sendo que o "nosso" foi muito menos macabro e mais sociável do que o outro.
Como te sentiste depois de alinhares as palavras e estes sentimentos?

Comentar post