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fiz sopa no domingo à noite

por M.J., em 28.06.16

comi hoje. estava no frigorifico e não aqueci muito que não se pode, com este calor.

soube-me a azedo mas insisti uma vez que porra, fi-la no domingo.

 

estou enjoada.

 

aceitam-se apostas: é coisa para me dar vómitos ou diarreia?

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publicado às 14:13


30 comentários

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De sarabudja a 29.06.2016 às 11:58

Em continuando...

Estrela, a gata persa cinzelada a gris, com arrulhar rouco e preguiçoso, tinha lugar cativo nos braços de Libânia, nas brincadeiras, na colcha bordada que encimava a cama, no canapé estufado a adamascado. A felina com ares de boneco de pelúcia, igual aos que os tios traziam de França, só não era convidada para as refeições na sala ou para as idas à cozinha para conversas profundas com a Francisca, a empregada que veio da serra e que se ocupava a amar esta família. Fazia pequenos depósitos deste amor quando lhes esticava os lençóis imaculados das camas, lhes corava as roupas brancas em verdes ervas depois de lavados com o melhor sabão, lhes servia os guisados e assados, até os cozidos tinham gosto de comida aconchegante, para não falar nos bolos que a Francisca fazia, que perfumavam a casa até à varanda. O de laranja regado a calda de sumo espremido pelas mãos sempre muito limpas e macias de Francisca e açúcar mascavado, sempre foi o preferido de Libânia. Engraçado como Pedro Henrique, o jardineiro moreno, de olhos escuros e cabelos de noite, um rapaz com ossos de quem carrega a vida, também sentia um sorriso desenhar-lhe no canto da boca, que somava saliva, quando sentia o cheiro do citrino quente vindo do forno a lenha. Tão distantes embora tão parecidos: Libânia e Pedro Henrique distavam, entre si, uns 21 anos, duas ou três classes sociais e financeiras. Estas coincidências seriam obra dos acasos, dos desencontros de fim de tarde, ou mesmo coisas de vidas passadas ou pesadas.
Francisca também amava Estrela, mas o lugar de bicho peludo é longe de tachos e panelas, copos e garfos, longe também das mesas onde se serviam as refeições. Sempre teve a compreensão de Libânia e da própria Estrela, que aproveitava estas ocasiões de solidão para descansos noutros lugares: a biblioteca, a sombra da árvore que nas estações quentes floria e aromatizava os devaneios pequenos da gata pacata.
Habituada a iguaria fina e a submissões mais canídeas do que da sua condição de nascença felina, Estrela não havia provado jamais o gosto de peixe cru, o risco das espinhas cortantes e picantes em garganta estreita ou mesmo do roubo de alimento. Estas aventuras eram desconhecidas.
Mas aquela casa tinha a particularidade de ter fêmeas que ignorando os perigos e alguns prazeres, acabariam por cair neles com a facilidade de quem molha os cabelos aquando da experiência de beber água na bica da fonte.

Numa dessas solidões, Estrela passeou pela casa, saiu para a varanda e sentiu cheiro misterioso. Um misto de repelente com atraente. Deitou-se sobre a curiosidade e viu passar um gato de porte atlético, de carnes rijas e saltos circenses, pelo áspero mas olhos hipnotizantes. Um gato bem miante, embora de poucos mios, mais de olhar fixo e falante.
O macho miou-lhe o nome que lhe haviam dado numa casa que ficava a duas ou três ruas dos De Reis e Pignatelli: Tico. Tico? Que nome tão... como dizer sem ofender o espécime áspero, mas tão sedutor... simples, sem significado ou significância, nome de bicho.
Desde essa tarde que, de todas as vezes que Libânia se entregava às perguntas e respostas de Francisca, aos ensinamentos dos truques de culinária ou mesmo às horas de colo e penteados dos longos cabelos de noite que Francisca gostava de trançar e decorar com brilhos e flores, que Estrela se encontrava com Tico.
O tempo foi passando, a partilha dos biscoitos de azeite com o macho rejuvenesceram o pêlo e o convite chegou: amanhã, fazemos um picnic? Trago eu os morfes, 'que sei que é dia do peixeiro passar perto de minha casa.

Continuará.
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De M.J. a 29.06.2016 às 12:09

"Deitou-se sobre a curiosidade e viu passar um gato de porte atlético, de carnes rijas e saltos circenses, pelo áspero mas olhos hipnotizantes. Um gato bem miante, embora de poucos mios, mais de olhar fixo e falante. O macho miou-lhe o nome que lhe haviam dado numa casa que ficava a duas ou três ruas dos De Reis e Pignatelli: Tico. Tico? Que nome tão... como dizer sem ofender o espécime áspero, mas tão sedutor... simples, sem significado ou significância, nome de bicho."

isto é arte!
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De sarabudja a 29.06.2016 às 12:20

Arte não diria, mas é uma bem apanhada escrevinhice. Influências de gente que sabe escrever com humor, personificações e metáforas que me empolgam. Não há como não se colarem ao que escrevo. Uma copiona.
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De M.J. a 29.06.2016 às 12:22

jorge amado. tanto dele :)
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De sarabudja a 29.06.2016 às 12:33

Sim, coisas com sotaque açúcarado, e também temos um génio do humor escrito e do desconcerto: o Zambujal. Adoro aqueles tropeços no imprevisível. Alguns escritores africanos também são bons, muito bons diria, nisto de tornar as palavras juntas mais plásticas. Usar o português e enriquecer, mesmo que choque os puristas.
Das coisas melhores que podem acontecer a alguém é saber ler e interpretar em diferentes línguas. As palavras e as expressões dos diferentes povos deveriam ser património dignificado.
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De sarabudja a 29.06.2016 às 15:50

[Em continuando e finando]

Estrela pouco vivera ainda: Pouco conhecera além dos abraços e beijos de Libânia, do escovar de Francisca, do peixe cozido a vapor e sem espinhas servido numa tigelinha que ladeava outra com água sempre fresca da nascente, dos afagos de D. Rubina, das brincadeiras um bocadinho tontas do Sr. Eduardo e agora das solidões nada solitárias com Tico.
Como as semanas foram passando também pelo pêlo do bichano que se apresentava agora mais lustroso, Estrela esquecera-se da aspereza do primeiro encontro. Acrescente-lhe, quem ler esta história, meia dúzia de borboletas dentro do ventre da gatita, faíscas que lhe dão novos descompassos ao pequenito coração e a cegueira da paixão para perceber que, com esta receita, a Estrelinha estava prometida à topada. Os gatos poderão ter sete vidas, mas as gatinhas doces gastam-nas num primeiro desamor.
É secular a verdade de que gatinhas mansas, criadas com recato e preocupações do que poderão as fileiras de outros e outras cuspir na sua conduta, a maior parte das vezes queimam os rabos caprichadamente penteados. Caprichos tem a vida e os credos de uns, são benzeduras nas más línguas de outros.

Chegou-se amanhã.
Esperem, deixem-me contar o dia anterior a amanhã, para que possam perceber a envolvência dos acontecimentos que ditam o desfecho desta história.
No dia anterior a amanhã, Libânia foi brincar um bocadinho no baloiço à sombra de uma árvore. Sentiu um olhar fixo no brincar e um ouvido atento ao seu cantar de menina serena. Olhou em volta e fixou o olhar nuns olhos muito seus.
Desde que a menina nascera, Pedro Henrique foi afastado da convivência com alguns da casa. O sr. Eduardo, por exemplo, lembrava-se de um jardineiro, mas não o reconheceria porque, desde que D. Rubina parira se tornara alérgica aos arranjos que dantes enfeitavam os cantos e recantos da casa. Percebia a erva aparada, as árvores bem tratadas, os citrinos nos cestos, mas o moço chegava muito cedo e saía a horas que não eram as suas. Francisca e poucos mais privavam com o moreno. Quando a menina nasceu, D. Rubina fê-lo prometer que se manteria afastado dos olhos de todos. Não queria mancebos perfumados a jasmim, magnólias e margaridas perto da menina milagre para não se dar o caso de baralhar a criança com as fragrâncias e coincidências.
De todas as vezes que Pedro Henrique perguntou a Francisca com quem se parecia a menina que tardou em nascer, a ama da família fingiu não ouvir, desconversou, prometeu bolo de laranja para o dia seguinte, mas não falou nos olhos de escuros, nos cabelos de noite que penteava e cobria de pequenas estrelas feitas de prata ou daqueles ossos de promessa de mulher vistosa que carrega a vida sem fardo. Não lhe sabia mentir, preferia omitir. Francisca amava muitos e muito. Só sabia amar, desde que se levantava e silenciosamente se preparava para servir com modesto olhar sorridente, até que se deitava, depois de todos, num profundo cansaço maternal, mesmo que do seu ventre ainda não tivessem nascido filhos. Gerou todos na aorta e aí os carregava sem sensação de peso ou vontade de parir e entregar às crueldades do mundo. Francisca nascera anjo na terra. A mãe cortou-lhe as asas à nascença para que coubesse na roda da casa das irmãs de caridade e misericórdia.
Voltemos ao baloiço, à sombra do dia antes do amanhã.
Pedro Henrique pôs os olhos numa menina tão igual a um garotito que vira na única foto que lhe fora tirada na infância, tão parecida com o reflexo no espelho partido e com ferragens ferrugentas onde se olhava a cada manhã para escanhoar a barba brilhante, do mesmo tom do cabelo que lhe afligia o olhar, de tez morena como se o sol a beijasse em horas de ouro, com longas pestanas escuras, com cabelos trançados e repletos de estrelas que lhe deixavam a nu a testa onde uma marquinha escura, forma de elipse lhe denunciava um amor proibido vivido e sentido há pouco mais de meia dúzia de anos, quando chegara à idade da tropa, a que escapou por falinhas mansas da patroa ao comandante, amigo de infância.
Os entes congelaram o momento, reconheceram-se apesar da estranheza da não apresentação, o baloiço chiava sozinho e a menina choveu palavras que bateram em terra seca de um coração moreno, ignorante de tão próxima afinidade.
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De sarabudja a 29.06.2016 às 16:06

"Olá, sou a Libânia e tu és qualquer coisa meu, ainda não sei o quê ou porquê, mas ouço o meu coração bater no teu. Ainda não estão em harmonia, como me ensinou a menina Lurdes, a professora de piano, mas ouves a melodia?"
Foram interrompidos por D. Rufina. O jardineiro poupou a criança de perguntas tontas, por lhes saber a resposta. A mãe poupou os dois dos raios e coriscos que lhe saíam dos olhos e fincou-os no chão enquanto pedia à menina que fosse saber da gatinha.
Francisca velou um sono febril da menina. Um entra e sai do quarto durante a noite e madrugada para baixar a temperatura daquela alma, não deixaram a nossa Estrela descansar.
Chegou o amanhã.
Os primeiros raios de sol trouxeram uma frescura ao corpo de Libânia. Francisca trocou lençóis, deu banho à menina e vestiu uma camisa de dormir em fino linho. A gata deitou-se na colcha e dormiu um sono grande, tão grande que não percebeu serem horas de picnicar com Tico.
Na varanda aguardava a fera amorosa. Francisca viu-o e afagou o pêlo, agora tratado a biscoitos de azeite que ela mesma cozia no forno, e disse, como se soubesse que o gato a entenderia: hoje a Estrelinha não desce. A menina está doente e a gatinha toma conta de tudo em quanto eu trato da casa. Toma uns biscoitos e volta amanhã.
O gato comeu os biscoitos e deixou as sardinhas, que roubara ao peixeiro, debaixo de uma planta. Francisca não deu conta. Às vezes, as preocupações sentimentais roubam-nos os sentidos.

No outro dia, a meio da manhã, a gata desceu e viu as sardinhas. Olhos mortiços, cheiro fétido, tripas por amanhar, mas resolveu experimentar. Na verdade, viu-as viçosas e sentiu-as aromatizadas pelo delírio da paixão.
Comeu-as. Uma ou outra espinha picaram a estreita e delicada garganta, as tripas escorreram e sujaram o pêlo e no dia seguinte a Estrela estava caída, qual estrela decadente, vomitou as entranhas: as dela e as das sardinhas.

E tu, vomitaste a sopa?
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De M.J. a 29.06.2016 às 16:25

não vomitei.
embatuquei nas palavras que queria dizer e não sei.

tão lindo, tão bom!
valha-te Deus que isto merecia mais do que uma caixa de comentários de uma tasca pelintra como esta.

maravilhoso.
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De sarabudja a 29.06.2016 às 16:31

A tasca é o único sítio onde me sento e conto coisas aqui dos arrabaldes do burgo. A Êmedjay lê-me como quem me ouve. E a poucos entrego palavras assim tão sem querer mais do que um visto e lido.
(cá para nós, que nunca gostei de gente falsamente modesta, hoje a coisa correu bem).
E tudo porque a sopa estava azeda. Imagina que tinhas provado feijoada... (pratinho para me fazer trocar prioridades e que se lixem as curvas adelgaçadas)

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