Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




fiz sopa no domingo à noite

por M.J., em 28.06.16

comi hoje. estava no frigorifico e não aqueci muito que não se pode, com este calor.

soube-me a azedo mas insisti uma vez que porra, fi-la no domingo.

 

estou enjoada.

 

aceitam-se apostas: é coisa para me dar vómitos ou diarreia?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:13


30 comentários

Sem imagem de perfil

De sarabudja a 29.06.2016 às 15:50

[Em continuando e finando]

Estrela pouco vivera ainda: Pouco conhecera além dos abraços e beijos de Libânia, do escovar de Francisca, do peixe cozido a vapor e sem espinhas servido numa tigelinha que ladeava outra com água sempre fresca da nascente, dos afagos de D. Rubina, das brincadeiras um bocadinho tontas do Sr. Eduardo e agora das solidões nada solitárias com Tico.
Como as semanas foram passando também pelo pêlo do bichano que se apresentava agora mais lustroso, Estrela esquecera-se da aspereza do primeiro encontro. Acrescente-lhe, quem ler esta história, meia dúzia de borboletas dentro do ventre da gatita, faíscas que lhe dão novos descompassos ao pequenito coração e a cegueira da paixão para perceber que, com esta receita, a Estrelinha estava prometida à topada. Os gatos poderão ter sete vidas, mas as gatinhas doces gastam-nas num primeiro desamor.
É secular a verdade de que gatinhas mansas, criadas com recato e preocupações do que poderão as fileiras de outros e outras cuspir na sua conduta, a maior parte das vezes queimam os rabos caprichadamente penteados. Caprichos tem a vida e os credos de uns, são benzeduras nas más línguas de outros.

Chegou-se amanhã.
Esperem, deixem-me contar o dia anterior a amanhã, para que possam perceber a envolvência dos acontecimentos que ditam o desfecho desta história.
No dia anterior a amanhã, Libânia foi brincar um bocadinho no baloiço à sombra de uma árvore. Sentiu um olhar fixo no brincar e um ouvido atento ao seu cantar de menina serena. Olhou em volta e fixou o olhar nuns olhos muito seus.
Desde que a menina nascera, Pedro Henrique foi afastado da convivência com alguns da casa. O sr. Eduardo, por exemplo, lembrava-se de um jardineiro, mas não o reconheceria porque, desde que D. Rubina parira se tornara alérgica aos arranjos que dantes enfeitavam os cantos e recantos da casa. Percebia a erva aparada, as árvores bem tratadas, os citrinos nos cestos, mas o moço chegava muito cedo e saía a horas que não eram as suas. Francisca e poucos mais privavam com o moreno. Quando a menina nasceu, D. Rubina fê-lo prometer que se manteria afastado dos olhos de todos. Não queria mancebos perfumados a jasmim, magnólias e margaridas perto da menina milagre para não se dar o caso de baralhar a criança com as fragrâncias e coincidências.
De todas as vezes que Pedro Henrique perguntou a Francisca com quem se parecia a menina que tardou em nascer, a ama da família fingiu não ouvir, desconversou, prometeu bolo de laranja para o dia seguinte, mas não falou nos olhos de escuros, nos cabelos de noite que penteava e cobria de pequenas estrelas feitas de prata ou daqueles ossos de promessa de mulher vistosa que carrega a vida sem fardo. Não lhe sabia mentir, preferia omitir. Francisca amava muitos e muito. Só sabia amar, desde que se levantava e silenciosamente se preparava para servir com modesto olhar sorridente, até que se deitava, depois de todos, num profundo cansaço maternal, mesmo que do seu ventre ainda não tivessem nascido filhos. Gerou todos na aorta e aí os carregava sem sensação de peso ou vontade de parir e entregar às crueldades do mundo. Francisca nascera anjo na terra. A mãe cortou-lhe as asas à nascença para que coubesse na roda da casa das irmãs de caridade e misericórdia.
Voltemos ao baloiço, à sombra do dia antes do amanhã.
Pedro Henrique pôs os olhos numa menina tão igual a um garotito que vira na única foto que lhe fora tirada na infância, tão parecida com o reflexo no espelho partido e com ferragens ferrugentas onde se olhava a cada manhã para escanhoar a barba brilhante, do mesmo tom do cabelo que lhe afligia o olhar, de tez morena como se o sol a beijasse em horas de ouro, com longas pestanas escuras, com cabelos trançados e repletos de estrelas que lhe deixavam a nu a testa onde uma marquinha escura, forma de elipse lhe denunciava um amor proibido vivido e sentido há pouco mais de meia dúzia de anos, quando chegara à idade da tropa, a que escapou por falinhas mansas da patroa ao comandante, amigo de infância.
Os entes congelaram o momento, reconheceram-se apesar da estranheza da não apresentação, o baloiço chiava sozinho e a menina choveu palavras que bateram em terra seca de um coração moreno, ignorante de tão próxima afinidade.

Comentar post



foto do autor