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guarda-chuva

por M.J., em 11.12.17

uma das plantas da varanda perdeu praticamente as folhas todas.

encontrei-a despida esta manhã; o penduricalho que lhe amarrei ao vaso - e que faz barulho com o vento - partido, depois de uma tempestade para que não foi feito; e a triste da planta nua, num ar envergonhado de quem pode estar moribundo.

fechei a porta da varanda com rapidez.

o mundo está de um cinzento esbranquiçado e eu sou de cinzentos escuros.

coloquei água num fervedor, em cima do fogão, e juntei-lhe um pau de canela e uma raspa de laranja. da laranjeira da mamã.

e deixei ferver enquanto fazia as torradas e o café de cevada.

na cozinha, poucos minutos depois, cheirava a natal, a casa da avó, a dias de inverno, a bilharacos e rabanadas, a canela e a laranja e se fechasse os olhos poderia ouvir a voz da mamã, do avô, da chuva a bater no telheiro e do odor agreste do fumo quando, numa rabanada de vento, se enganava na chaminé.

 

quando bebia o café um pedaço de sol iluminou as árvores em frente, cansadas do vendaval nocturno, fez brilhar em mil cristais a água das folhas, numa espécie de joalharia natural, antes de ser esquecida no cinzento logo depois.

quando me sentei para trabalhar já era tarde.

tenho uma lista de coisas pendentes, que se foi acumulando três dias longe da secretária e do computador.

a minha roupa cheira a laranja e a canela e de vez em quando chove intensamente contra os vidros da varanda do escritório.

e não consigo levar para longe o pensamento de tempos idos, em detrimento de tempos de agora.

 

quando andava na primeira classe, num dia chuvoso como este - talvez menos, talvez mais, a memória não guarda tudo e temos tendência a moldá-la de acordo com a disposição - fui para a escola levando um guarda-chuva da mamã.

disso não esqueço: era um guarda-chuva grande, com enormes ramagens vermelhas e um cabo preto com um plástico brilhante na ponta que eu segurava com força. 

a subida até à escola era feita - na maioria das vezes - a pé por nós, quatrou cinco miudos, com botas de chuva e mochilas grossas. só mais tarde uma carrinha da junta de freguesia passava de casa em casa a recolher a canalhada.

no meu primeiro ano nós íamos sozinhos e a pé, com a mesma naturalidade que antes de nós foram os nossos pais.

havia um caminho pré-definido e várias subidas.

e levávamos muitas recomendações: não falar com desconhecidos - mesmo que isso fosse algo inexistente na aldeia - não saltar nas poças, não ficar a brincar muito pelos caminhos e, no meu caso, não partir nem perder o guarda-chuva.

o grande e reluzente guarda-chuva com ramagens vermelhas.

 

antes de chegar à escola, a meio da encosta, uma rabanada de vento veio e virou-me o desgraçado do chapéu.

eu tinha sido avisada para o fechar quando não houvesse chuva mas era a primeira vez que me confiavam um tesouro colorido para as mãos e não cabia em mim de contente, no orgulho de ter uma coisa nova.

o vento veio, virou as ramagens vermelhas ao contrário e partiu as varetas.

 

fiquei ali num grande pranto.

tive perfeita noção da desilusão da mamã desde muito cedo. e mais do que uma ou outra palmada, um ou outro castigo, uma ou outra palavra mais azeda, o que me magoava, a pontos de provocar sensações estranhas no peito, era a tristeza que eu lhe pudesse provocar.

e ali estava eu: a causar uma imensidão de desgosto ao partir, de uma vez só, um guarda-chuva novo que me tinha sido recomendado que estimasse. 

 

nas lágrimas e choros um senhor que morava ali perto veio ter comigo.

creio que morreu já e não me recordo do nome.

vivia numa casa perto da escola e às vezes caminhava por ali, com ar triste. e prometeu-me que me compunha o guarda-chuva se eu parasse de chorar e lho desse para as mãos.

talvez noutro sítio, noutro local, aos dias de hoje, isso fosse estranho. eu estendi-lhe os restos do meu tesouro com naturalidade de quem não tem motivos para desconfiar, ainda limpando as lágrimas e o ranho, e fui, à chuva o resto do caminho, até à escola, não pensando em mais nada o resto do dia.

à tardinha, quando desci para casa, ele estava à porta da entrada, de guarda-chuva em riste, composto e novo outra vez.

entregou-mo a sorrir. talvez tenha dito qualquer coisa que não recordo. talvez não.

recordo sim, que este foi um dos momentos de felicidade que tenho com mais carinho da minha infância.

 

e esta manhã, quando fervia canela com laranja para resgatar odores de outrora, lembrei-me disso, vindo das profundezas da memória onde estava encaixotado e senti-me mais bem-disposta, numa decisão parvinha:

vou comprar um guarda-chuva.

vermelho. 

com ramagens.

e um cabo preto de plástico brilhante. 

e vou ter nas mãos não um objeto chato e corriqueiro mas um tesouro de infância que poucos terão algum dia.

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publicado às 10:20


4 comentários

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De Teresa Almeida a 11.12.2017 às 10:44

Que boas memórias! E, de repente, vi a minha irmã, também na 1ª classe, num belo dia de chuva (ou não, mas vaidosa) com o guarda-chuva vermelho que madrinha lhe tinha oferecido, a enfiar-se na vala que descia dos Lóios até à passagem de nível do Calhabé, cheia de água. A boa da cachopa tinha de ir apanhar maçãzinhas de Outono (ou pilritos, como também lhes chamavam) e nunca mais quis saber do sítio onde poisou o guarda-chuva, até que eu, do cimo da vala, lhe gritei para ela o apanhar, que parecia um barco à vela pela água abaixo... E lá seguiu, que a corrente era forte; e fortes foram os ralhetes da minha Avó para ela, mais a palmadona no rabo que eu levei: era a mais velha, tinha de tomar conta da fedelha e não a deixar ir para a vala - de que eu tinha um pavor de morte - e perder o bonito guarda-chuva vermelho...
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De Ana a 11.12.2017 às 11:45

Adoro a história das duas. Beijinhos
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De Bruno a 11.12.2017 às 18:06

Olá e que bonita história, de bonitas e doces memórias!

Devo dizer que, ao ler o teu texto, em muito me reconheci, em muitos sentimentos, nas memórias... senti as lágrimas nos olhos, ao recordar outros tempos meus, de infância, inocência...
Devo dizer que, com o frio que temos sentido, tenho sentido aquele cheirinho típico da lenha na fogueira, o que era raro, aqui onde moro, mas que tem trazido várias recordações dos meus avós, de outras pessoas, que, também, já cá não estão, mas que deixaram das mais bonitas e doces memórias em mim.

Muito obrigado
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De Anónimo a 12.12.2017 às 10:42

Na minha infância também houve um guarda-chuva... Branco com flores cor-de-rosa. Lindo, lindo. Estreado num dia de farrapinhos de neve :)
Estava eu com o guarda-chuva mais lindo do mundo, oferecido pela minha mãe, quando uma das árvores antiquíssimas do largo onde sempre brincávamos caiu.
(Na minha memória a árvore tombou em câmara lenta com pequenos flocos de neve nos seus ramos secos).

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