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humor, amor e livros.

por M.J., em 22.02.16

rir, como eu faço, de piadas de criancinhas com cancro, que nem uma labrega, atirando ao mundo as liberdades do humor e depois não compreender certos gostos, de certas pessoas, por certas questões digamos... literárias pode ser um tanto ou quanto contraditório.

assumo e concordo.

poderão até apontar-me os dedos todos à insensibilidade de rir com piadas bem apanhadas de cancro. não falo de piadas sem piadas o típico rir de boca cheia com a possibilidade de alguém estar doente. falo de pormenores. de coisas que levam alguém a saber rir do que lhe acontece. o humor negro não é para todos. reformulo: o humor não é mesmo para todos.

uma vez, há largos anos, encontrei uma colega que se ria desalmadamente sempre que via um senhor caminhar. era um homem com uma certa idade, que arrastava uma perna. não tinha nada de cómico. nem a maneira como empurrava a perna, num gesto metódico a seguir pelos caminhos, nem a maneira como o cabelo no alto da cabeça se modelava aquele empurrar. era banal. não chamava grandemente a atenção. sabíamos dele e daquela pequena enfermidade e achávamos presente das coisas, tal como o facto de eu usar óculos ou um dos meus colegas ter o dente da frente furado. no entanto ela ria. era incontrolável. quando via o homem tinha de virar a cara, afastar-se, qualquer coisa porque algo no senhor lhe dava uma séria vontade de rir. e mesmo quando, já cansados daquilo, lhe chamávamos a atenção a minha amiga (hoje respeitável mãe de família) justificava-se ainda com um sorriso, agora envergonhado, quase nervoso, que não era sua culpa, simplesmente não conseguia, a sério que não, evitar rir.

o mesmo comigo. não consigo evitar rir com certas piadas ditas de humor negro. mesmo as que gozam com miúdas gordas. ou serranas. como eu. as badochas. a gorda solitária. são estereótipos com que se faz humor. às vezes mesmo bem apanhado. e rio. ou riu. dou gargalhadas.

seja como for, diziam-me há uns dias que é normal que me apontem o dedo a esse facto. concordo. é preciso um certo estômago para entender alguém que ri de uma piada tipo esta: "Sabem qual era o prato preferido da miúda chinesa que caiu do vigésimo primeiro andar? Chão Mim (do daniel carapeto). na cabeça da maioria das pessoas não se entende, não se assume como alguém com princípios e valores possa achar certa piada a isto. entendo.

respeito. cada um como cada qual.

eu por exemplo não entendo gente que lê certos tipos de livros. pior do que ler: gente que assume como valer a pena ler certos tipos de livros. é mais forte do que eu. não consigo desligar-me da ideia que automaticamente crio na cabeça de alguém que lê e gosta e repete e recomenda, certas merdas. tal como na cabeça de quem não gosta de humor negro se criam conceitos do género "vaca de merda, como é que se pode rir da morte de uma criança? só pode ser uma insensível sem valores" eu crio pré conceitos de "como é que alguém pode ler esta merda e gostar? só pode ser alguém muito frustrado com a vida."

é que há livros abjectos. há livros mesmo muito maus. muito pequeninos. muito torpezinhos. que criam histórias e romances e fantasias na cabeça de pessoas altamente influenciáveis. livros que levam gente a acreditar em coisas doentias e perigosas. livros que são vendidos como arte quando não passam de pequenos pasquins, cheios de pornografia. há livros de uma pequenez absurda vendidos com uma grandeza incompreensível. e como são livros assumem-se, quase sempre, com uma aura qualquer de cultura. de valer a pena. de não fazer mal.

há livros mais perniciosos do que humor negro. livros mais preconceituosos do que certos tipos de piadas. livros mais perigosos do que certos conceitos. há livros atrozes vistos como pequenas maravilhas. lidos e avaliados por pessoas que entendem neles as suas vivências. 

podem não conseguir entender gente que, como eu, se ri de como é que impedem um bebé de gatinhar em círculos? - só tem piada quem souber a resposta.

já eu não consigo entender quem lê e recomenda histórias da carochinha despida e a apanhar no lombo. histórias muito pequeninas, muito fraquinhas, cheias de longas descrições sexuais e com fins muito fracos, com uma aura de princesas em que tudo acaba bem desde que se leve o amor - que nem se consegue descrever - ao expoente.

julgamo-nos uns aos outros, bem sei, pelos nossos gostos. mas - quer queiramos quer não - os nossos gostos reflectem quem somos, como nos comportamos, o que queremos:

eu sou uma labrega javarda que se ri de piadas de temas sensíveis porque quero, na maioria das vezes, tentar aligeirar o ambiente.

há pessoas que são eternas adolescentes, à espera do príncipe encantado que as satisfaça sexualmente com muita porrada no lombo.

são ideias.

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oh vai ver ali:

publicado às 10:00


15 comentários

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De Magda L Pais a 22.02.2016 às 10:45

sabes bem que sou fã de humor negro e que, quanto mais negro melhor. Aliás, na verdade, lá em casa somos todos fãs de humor negro, sendo que a minha filha é também a maior fornecedora de anedotas negras.
No entanto e apesar de apreciadora, não consigo julgar as pessoas que não gostam de humor negro. Acho que é mais um daqueles casos em que, se gostássemos todos do amarelo, o que seria do azul?
Sabes também que aplico a mesma teoria aos livros. Aceito que haja quem tenha gostos diferentes dos meus - não os considero melhores ou piores que os meus, são apenas diferentes. Poderá haver quem ache Ken Follet a maior seca à face da terra e eu gosto. Poderá haver quem ache Cem Anos de Solidão o pior livro de sempre e eu adoro-o. Assim como poderá haver quem ache que Viagens na minha Terra é um excelente livro e eu nunca o consegui ler. O que é que isso me diz da pessoa? Só me diz que não sou eu e que é uma pessoa diferente de mim. Nem melhor nem pior. Apenas diferente.
E como dizia alguém - a diversidade de opiniões é o sal que tempera a monotonia da vida.
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De M.J. a 22.02.2016 às 10:55

nenhum dos livros que referiste é pequenino. é pernicioso. é torpe. nenhum dos livros que falaste - creio - faz de alguém que os idolatre aquilo que referi nas ultimas frases.
além de que vai uma diferença entre gostar e idolatrar, recomendar, achar que vale a pena.

e quanto ao humor... bem, eu por exemplo, não suporto gente que não consiga rir-se de si própria.
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De Magda L Pais a 22.02.2016 às 10:58

eu só me permito rir dos outros porque primeiro me rio de mim. Sem isso não tenho o direito de rir dos outros....

Dei aqueles exemplos porque são livros que me dizem alguma coisa. Eu não leio nem nunca li as Sombras, já gostei de Sparks (agora não o consigo ler) e li um livro de Paulo Coelho aqui há uns anos. Se me acrescentou alguma coisa? nada! deixei de ser eu própria? não. Continuei a ser a mesma pessoa que era antes. Porque não é o que leio que me define mas sim as minhas atitudes
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De M.J. a 22.02.2016 às 11:00

mas estás a ver magda? tu dizes que esses autores (e eu nem me estou a referir a todos eles) não te acrescentaram nada. o meu texto não fala de pessoas que sentem o mesmo que tu. fala daquelas que lendo aquilo que eu referi o assumem como grandeza, como verdadeiras histórias de amor. que recomendam e passam aos filhos. é só isso. e essa recomendação é perigosa. essa ideia de cultura é irreal. desculpa mas quem lê e adora e idolatra certas coisas tem necessariamente que se sentir identificado com alguma coisa daquelas.
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De Magda L Pais a 22.02.2016 às 11:10

Acho que já uma vez mencionei este exemplo numa conversa nossa - se eu ler o mein kampf (que vou ler em breve) e recomendar a sua leitura, vou-me tornar num novo Hitler? é um exemplo talvez excessivo mas é um bom exemplo.
A minha irmã mais nova, a irmã com quem me dou melhor, leu as 50 sombras e recomendou-me. Isso torna-a pior? não, significa apenas que tem um gosto literário diferente do meu. Há quem só leia livros eróticos (alguns são mesmo pornográficos mas adiante).
São gostos diferentes, só isso, mais nada.
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De M.J. a 22.02.2016 às 11:13

e se alguém idolatrar o mein kampf? e disser que sim, que as ideias são boas e vale a pena? és "tão boa pessoa" que não olhas de lado para esse tipo de gente?
é pá eu não consigo. sou demasiado má rês para olhar para alguém que me diz que se identifica com certas coisas e continuar a achar que sim, que é uma pessoa com os parafusos todos. há coisas e coisas.
se alguém me diz que adorou um livro ao ponto de o recomendar onde se fomenta a perseguição da mulher, se lhe dá no lombo, e se mascara isso tudo de amor e ainda recomenda isso a uma filha com a personalidade em formação, é pá, eu só consigo sentir muita pena dessa pessoa.
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De Magda L Pais a 22.02.2016 às 11:30

mas estamos a falar do gosto literário - ou seja, o livro é muito bom e eu gosto - ou do gosto pessoal - sou masoquista e gosto mesmo é de levar umas palmadas valentes no lombo?
São coisas diferentes, no meu entender. Achar que um livro é bom não é achar que o que lá fazem é bom...
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De M.J. a 22.02.2016 às 11:34

aí é que está o cerne da questão. é que na minha opinião, quando gostas imensamente de um livro identificas algo de ti nele. ou causa-te algum sentimento. seja empatia, seja vontade de viveres aquilo, seja outra coisa qualquer. a não ser que sejas uma pessoa muito especial é impossível idolatrares um livro e não te identificares minimamente com nada dele. seja história, seja personagens, seja vivências.
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De Magda L Pais a 22.02.2016 às 11:59

e o que impede as pessoas de serem masoquistas e de gostarem de apanhar umas palmadas? isso torna-as piores?
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De M.J. a 22.02.2016 às 12:08

ahhh. nadinha de nadinha.
mas o livro não se trata de masoquismo puro e duro. trata-se de mascarar o masoquismo enquanto preferência sexual para toda uma vida. (se é desse livro que estamos a falar). trata-se de mascarar a dependência extrema da mulher ao homem, a perseguição, a humilhação numa bonita e inocente história de amor.

não tenho nada contra pornografia, se é disso que falamos agora. acho até... salutar. tenho sim contra a máscara, o disfarçar de coisas mais graves em pseudo romances e histórias lindas de vida.
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De Just_Smile a 22.02.2016 às 13:22

No fundo, o que referes é que criamos pré-conceitos sobre os gostos de cada um, seja sobre o livro seja sobre o humor negro. Sinceramente? Não vejo problemas em qualquer um deles, quanto ao humor negro penso mais no seu contexto e momento de ser usado do que a piada em si (até porque gosto de humor negro, mas há momentos para tudo). Quanto aos livros, se gostam desse tipo de livro penso imediatamente que são pessoas que lêem coisas fáceis, mas nada disso me faz criar uma relação directa com a personalidade...
Mas o ser humano é assim, o pré-conceito é um comportamento inevitável, seja onde for, na rua que vemos um mendigo ou uma pessoa com rastas, já lhes estamos a criar o estereótipo... Pode não ser a pessoa, mas a verdade é que é inevitável...
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De Magui Ferreira a 22.02.2016 às 22:32

Em relação aos livros concordo com a Magda, respeitando a tua opinião.
Por falar em humor negro, qual a diferença entre Jesus Cristo pregado na cruz e um quadro com essa Imagem?
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De Magda L Pais a 24.02.2016 às 11:44

não sei! qual é???

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De Magui Ferreira a 24.02.2016 às 18:52

Até que enfim alguém pergunta - salvé Magda. Pois a diferença, é que para pregar o quadro basta um prego!
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De Magda L Pais a 24.02.2016 às 21:23

ahahaahahahahahahahahahahahahaahahhaahahahahahahahahahaahahah

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