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idosos

por M.J., em 22.09.15

sempre tive uma empatia muito grande com idosos.

não é só empatia. é respeito.

acredito piamente que aquelas pessoas, todas elas, lúcidas ou já não, conquistaram um direito à vida que não pode ser negado, apenas e só porque a idade aperta. pelo contrário. terem chegado aquela idade foi, na grande maioria dos casos, sinónimo de lutas constantes  e de sacrifícios. foi escalar o tempo, virar as cortinas das horas e seguir uma caminhada forte, à custa de insistências. sem desistir.

chegar a tantos anos de vida sem desistir pelo caminho, como eu pensei, como eu tentei, merece, por si só ser aplaudido.

e respeitado.

não entendo portanto como pode alguém defender que no corte de certos meios, que na decisão de certas medidas económicas os idosos têm de ser postos em causa apenas e só porque apostar neles é um desperdício. uma vez tive uma discussão atroz, feia, com gritos à mistura, eu que não suporto gritos, com um colega ainda mais provinciano que eu, que dizia que no caso de ser necessário escolher entre um idoso e uma criança escolher-se-ia a criança. que aquela era representante do futuro e ele do passado e que ninguém vive do passado.

não consegui, perante aqueles argumentos dizer-lhe mais do que os elogios mimosos.

não consegui explicar-lhe que não se tem de fazer essas escolhas e que numa escolha a ser feita esse não pode ser o critério. não consegui mostrar-lhe como deve ser duro sentir que o corpo nos deixa de obedecer. que depois de uma vida de pujança, em constante domínio de nós próprios, se perdem capacidades. se acorda de manhã e se sabe que inevitavelmente a morte chegará e tudo o que se viveu já ficou para trás. não consegui dizer-lhe que a vida humana é mais que olhar em frente. que olhar para trás nos traz conhecimento, ensinamento. que rugas são sinónimos de vida. e que viva já vivida não se torna inferior à que se vai viver.

não consigo perceber a cobardia de se achar que depois de um certo numero de anos se torna dispensável tratar de um idoso. 

como que se com o corpo que vai morrendo por si só morresse dignidade, morressem direitos, morresse respeito. não devia ser exactamente o contrário?

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publicado às 11:18


12 comentários

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De marta a 22.09.2015 às 11:52

Plenamente de acordo.
Acho vergonhoso o desrespeito com que se tratam os nossos idosos. e não saber dar valor ao passado leva-nos certamente a um futuro condenado ao fracasso.
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De M.J. a 22.09.2015 às 12:27

sobretudo comparar. achar que é comparável um idoso com um adulto ou uma criança. como se um idoso por tudo o que representa não merecesse se calhar ainda mais respeito. mais dignidade.
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De Maria Araújo a 22.09.2015 às 13:10


Para lá caminhamos todos.
Parabéns pelo post.
Sem mais palavras.
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De M.J. a 23.09.2015 às 10:32

obrigado minha querida.
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De Língua Afiada a 22.09.2015 às 15:32

Entendo o que dizes, e é lamentável que se deixem de tratar idosos porque os medicamentos são muito caros, mas isso acontece porque para a gestão hospitalar somos números.
Por outro lado entendo que se tiverem apenas disponível uma cama com suporte à vida e estejam duas pessoas a necessitar dela com a mesma probabilidade de sobrevivência que se opte pela pessoa mais jovem apenas e só porque viveu menos.
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De M.J. a 23.09.2015 às 10:33

é exatamente esse ponto que não concordo: esse não pode ser o critério. viveu mais, lutou mais para viver. trabalhou mais. tem mais dignidade ainda. merece mais.
a questão não é quem se escolhe. a questão é nunca deixar que apenas haja uma cama:)
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De Corvo a 23.09.2015 às 16:07

Pois eu não concordo minimamente consigo e concordo, parcialmente, com Língua Afiada.
Isso do respeito que um idoso, (alguns idosos, a maioria) merece porque trabalhou durante uma vida, não fez mais do que a sua obrigação.
Merece respeito? Merece sim senhor, à condição que se saiba dar ao respeito, e a grande maioria dos idosos dão incomparavelmente mais problemas e vergonhas aos filhos do que propriamente alegrias.
Mas seria uma descrição muito longa para fazer valer a sustentabilidade das minhas afirmações, portanto em breve farei um post sobre a temática.
Entretanto e porque não me conhece, tenho 74 anos, a fazer 75 em Novembro.
Posso, portanto, com toda a propriedade e conhecimento falar sobre a velhice.
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De M.J. a 23.09.2015 às 16:12

concordemos em discordar.
o corvo evidentemente que tendo setenta e quatro anos estará mais apto que eu a falar sobre idosos. mas eu continuo a assumir que idosos merecem todo uma dignidade que lhe roubam e um respeito que lhe tiram. e sim, concordo que muitos não se sabem dar ao respeito, mas isso também muito jovem, muito adulto, muito adolescente.
:)

o foco do texto, e que talvez eu não tenha conseguido fazer, era que não se pode optar por uma vida em detrimento de outra com base na idade.
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De Corvo a 23.09.2015 às 16:33

Sim, eu compreendi e vali-me disso como uma metáfora para a contestar, porque não tenho espaço nem disponibilidade de momento para poder ir muito mais além.
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De M.J. a 23.09.2015 às 23:03

compreendido :P
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De Elsa a 23.09.2015 às 23:35

A minha mãe, por querer dar a dignidade merecida aos pais dela, está a entrar em desespero e a ficar de costas voltadas com os irmãos. A velhice é muito tramada, para quem a vive por dentro e por fora. Não sei se quero chegar lá...
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De M.J. a 23.09.2015 às 23:36

eu não quero, de todo, chegar lá.
não creio que haja sensação mais dilacerante que vermos de nós uma imagem que não reconhecemos, que não nos define e que nos cataloga como inúteis e pesos da sociedade.

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