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instagram: o tal do carnaval

por M.J., em 17.07.17

o que vos deixo a seguir uma republicação adaptada de uma coisa escrita no início do ano.

é repetição, bem sei, mas faz sentido numa altura em que o instagram é só felicidade: banhos, sol, mar, luz e diversão. 

 

a ideia de que temos de ser sempre felizes, lutando por isso como um ideal quase inatingível, está tão enraizada que não há um dia que não vejamos fotos, frases e textos inspiracionais, com palavras de ordem e aconselhamento do faz melhor, tu consegues, desafia-te, vai à luta. 

 

é dado adquirido e a fórmula é simples:

numa vida cinzenta as pessoas querem ver cor.

querem ver arco-íris e coisas bonitas. querem sentir que lêem, absorvem, conversam, apreendem coisas que as acrescentam, que as levam a caminhar para uma vida melhor.

mesmo que não se saiba muito bem o que é uma vida melhor. 

 

não me compreendam mal.

não vejo nada de errado no facto de nos rodearmos de coisas que nos fazem sentir bem.

o que me causa uma certa comichão nos ouvidos é a ideia de felicidade inatingível que a maioria dos gurus influenciadores transmite. e é mesmo inatingivel, ainda que passem a mensagem como sendo possível a cada um chegar lá.

 é algo que se alimenta a si próprio:

quanto mais inatingível mais deve ser passada a ideia de que todos nós podemos chegar ao estado de constante felicidade orgásmica. e quanto mais este estado for transmitido mais pessoas traz. e quanto mais pessoas trouxer mais inatingível deve ser a ideia. 

 

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os estudos estão feitos e - se formos sinceros - todos nós já passámos por isso:

um dia perfeitamente normal, na nossa vida banal, em que, passeando os dedos pelas redes sociais, sentimos uma ligeira pontada de tristeza porque toda a gente é mais feliz do que nós. ainda que essa felicidade seja só visível através de fotografias e frases.

naquele dia, em que nos levantamos na hora de sempre, tomamos banho na hora normal, comemos mais do mesmo, trabalhamos com as mesmas pessoas, jantamos na mesma hora e sentamo-nos no sofá como habitual a descansar do dia, há ali uma foto, uma frase, uma pessoa que nos faz sentir miseráveis:

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porque aquilo é que é vida!

aquilo é que é ser feliz.

aquilo é que é uma boa cara, bom corpo, bom sítio, boas férias, boas paisagens, boas mobílias, bons filhos.

é tudo, naquelas fotos, absolutamente bom.

maravilhoso. 

completamente acima da nossa pequenita banalidade. 

 e a nossa imaginação tem uma capacidade estrondosa de melhorar ainda mais o que se vê, e piorar o que vive.

 

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o instagram é perito nisso.

há milhares, milhões de fotos de gente feliz. evidentemente que não se espera que por ali circulem fotos de momentos tristes, de mortos, feridos e cafés sujos. ou beatas no chão e cocós de cão.

não é isso.

mas é preciso existir plena consciência de que aquelas fotos não representam - noventa e nove por cento das vezes - a felicidade ou os momentos de absoluta alegria, bem estar, prazer e afins que querem passar. 

aquelas fotos foram escolhidas a dedo.

muitas tiradas em estúdios, ou com verdadeiros profissionais. foram retocadas, alteradas, melhoradas. mesmo aquelas que representam o pequeno almoço de uma pessoa banal, antes de ir para o trabalho, são - evidentemente - filtradas.

são postas a jeito para que transpareçam uma imagem bonita. há toalhas lavadas e a tralha da mesa posta de lado, onde não caiba na objectiva.

 

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não tem mal nenhum.

aliás, temos todos plena consciência disso ainda que #sóquenão.

porque inconscientemente esquecemo-nos.

porque naquele dia merdoso, naquele dia em que tudo correu mal, elas continuam lá. perfeitas, maravilhosas, a lembrar-nos que podemos ser muito melhores. que podemos fazer muito mais do que fizemos. mesmo que tenhamos feito tudo o que era possível. 

 

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achamos que sabemos esta evidência mas esquecemo-nos.

acreditamos que sim mas não nos lembramos dos verdadeiros influenciadores digitais que, sabendo disto, o usam para seu proveito criando imagens falsas e levando a que pessoas simples se sintam miseráveis. 

(é evidente que é difícil descortinar se a culpa de quem se sente mais triste do que noite é de quem sente isso, por ver imagens de coisas que nunca atingirá, ou de quem as publica, alimentando-se disso mesmo.

creio que será um bacalhau de rabo na boca.)

 

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seja como for, é importante não esquecer:

  • mesmo a pessoa que apregoe ser a mais feliz do mundo, que tenha um cão, um marido, dois filhos e uma casa na praia, que passe férias na tailândia, no méxico, nas caraíbas e nas maldivas, tudo de uma vez só;
  • que tenha um emprego de sonho, sem pressão, sem expectativas e ganhando milhares;
  • que tenha mamas firmes, cu de aço e cara de menina... mesmo essa, nas mil fotos que coloca, perdeu horas a escolher as melhores por entre as que melhorou. chorou no mês passado. sentiu culpa. desânimo. tristeza. e desejou ser outra pessoa num dado momento qualquer.

 

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não há um sentimento de felicidade eterna por mais que as fotos digam o contrário.

e as vidas banais, que se desenrolam nas horas de sempre, no mesmo de sempre, com as pessoas de sempre, e que aparentam ser cinzentas, sem sal, sem cor, sem vida são muitas das vezes mais equilibradas, mais serenas, mais satisfatórias, do que cinquenta fotos de pernas longas, dentes perfeitos e praias paradisíacas.

 

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o instagram é apenas o carnaval das vidas felizes.

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publicado às 10:45


4 comentários

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De Ladys a 17.07.2017 às 12:32

Amei o post :). Está tudo dito ;) Marina

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