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inverno

por M.J., em 14.11.17

sou uma pessoa de inverno. gosto de chás quentes, noites longas e dias curtos. gosto de meias às bolinhas e às riscas. tenho sempre os pés frios. mesmo com meias quentes, com riscas ou bolas. e as mãos. ouço muitas vezes as mesmas músicas. dou comigo a sentir falta de livros que li e que sei de cor. volto a lê-los outra e outra vez. descubro novas vírgulas e fico feliz. sinto-me incompleta a maior parte do tempo. e questiono constantemente as minhas acções. nunca chego a resposta nenhuma. às vezes escrevo só para sentir que domino o tempo. a não ser quando tenho as mãos frias. dói-me escrever com gelo nos dedos. mas acalma a dor da alma mesmo que sejam coisas sem sentido. e pretensiosas. percebo as vezes que fui uma idiota. não resolve nada. constato feitios e opiniões e atitudes. não domino os pensamentos. quando entro em cadeias deles chego sempre à conclusão que não mereço um pirulito furado. não é agradável. outras vezes acho-me um caso perdido por incompetência alheia. entro em considerações completas do que não fui e não sou por culpa do outro. dura sempre muito pouco porque estou formatada para perceber que a culpa é minha. sempre. mesmo quando não é, é porque em última instância somos sempre donos de quem somos. sou uma pessoa de inverno. gosto de chuva, dias cinzentos, músicas melancólicas e folhas secas. gosto de vidros embaciados pela humidade, de vapores suaves dentro de uma cozinha e da alquimia do conforto. gosto de inverno e por mim todos os dias da minha vida seriam inverno. por mim toda as coisas seriam as minhas decisões e a vida seria um barco em água estagnadas, em que os dias se perdem na igualdade dos dias anteriores. por mim as decisões seriam concretizadas, mesmo aquelas que não controlamos e demoram o tempo que não temos, ou achamos que não temos, perdidos a contestar o que ainda não conseguimos. sou uma pessoa de inverno. e tenho um medo que me pelo de todos os invernos de que disse mal, na sensação que é castigo pelos que agora não vêm. sou uma pessoa de inverno e este texto é uma metáfora de tudo o que queria dizer e não posso. porque sou uma pessoa de inverno e abri demasiadas portas agora este espaço tem tantas frestas, tantos vidros abertos, tantas portas escancaradas, que quem sou não pode desnudar-se aqui. e é uma pena. sobretudo porque o inverno não chega.

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publicado às 10:00


8 comentários

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De Fleuma a 14.11.2017 às 15:03

Existe numa certa terra do norte e onde a M.J. de certeza nunca mais iria desejar outra coisa que não o inverno, um olhar muito próprio em relação a pessoas com este desvelo pessoal: são respeitadas como "feiticeiras" porque quando se exprimem encantam mesmo a mais bruta e surda das pedras.

Como é óbvio o inverno e o frio são a minha preferência absoluta e estas palavras são uma poção de mistura a que não consigo ficar indiferente. Mesmo sendo bruto e por vezes surdo.

Saúde,
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De M.J. a 16.11.2017 às 14:51

bruto, surdo, não sei.
gentil para mim é. às vezes com palavras a que não sei responder.
obrigada.

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