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lembrei-me de me lembrar

por M.J., em 30.10.14

eu sentia que não era dona da minha vida. vivia num mundo negro de angústia que não controlava. deixara de conseguir saber quem era ou tomar consciência dos meus gestos. lutara por mim, contra mim e a meu favor durante muito tempo. em meses fui-me deixando cegar pela negrura dos dias. quando dei conta estava enfiada numa cama repleta de álcool, comprimidos que engolia como doces e um braço retalhado, na superficialidade dos cobardes.

 

deixei de assumir o controlo da minha vida quando a única coisa que queria era controlar a dor e o desespero e o nevoeiro cerrado que me impelia a saltar,a cortar-me e a adormecer-me em mil comprimidos. 

desci ao fundo de uma forma que pouca gente desce, ainda que no fundo, numa réstia qualquer que era eu ainda, ainda mesmo não sendo, desci ao fundo dizia eu, de uma forma que pouca gente desce. e houve de tudo. gente que me estendeu a mão, gente que se manteve indiferente, gente que assistiu, com um longo sorriso como quando se vê um filme, esperado de comédia dramática.

quando me ponho a pensar em todas as loucuras, todos os gestos, todos os actos, todos os sentimentos, tudo e todos que envolvi num desespero que era só meu e que não consegui controlar, ainda que achasse que sim, nos cortes, na medicação e em todos os comportamentos auto destrutivos que assumi, sinto um medo descomunal de um dia, numa vida qualquer, descer ao mesmo abismo onde desci.

não estive sozinha nessa época. mas cheira-me que possivelmente ficaria sozinha num futuro.

 

o que bem vistas as coisas é um retrocesso. 

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publicado às 18:32



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