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fiz duas bolhas nos pés. ou uma bolha em cada pé. não morri na viagem. nem de ida nem de volta, apesar de irem sentados atrás de mim três catraios em excursão escolar que, absolutamente deliciados com a vida, gritavam a palavra sémen. 

ficámos num hotel que se poderia dizer no meio da serra tal o silêncio. foi por acaso que nem reparáramos ao escolher. tinha um enorme jardim no meio para onde o nosso quarto estava virado. não haviam televisões e juro que não ouvi um único barulho durante as três noites. estranhamente o pequeno almoço não tinha bacon.

no metro há uma vida estranha e ainda ouço vozes que me mandam afastar da plataforma.

comemos no mcDonald's e ia morrendo, que depois de três anos sem lhe tocar, o meu corpo não achou piada.

perdi-me no meio de milhares de pessoas num multiculturalismo a que nunca assistira. o constante correr de idiomas transformava-se numa espécie de linguagem universal que calcorreava as estradas com a mesma força dos turistas na procura do big ben.

vimos todos os pontos turísticos que constam dos postais. ou quase todos.

fomos brindados com o verão londrino e nos parques as pessoas deitavam-se na relva, muito naturalmente.

tirei uma fotografia da praxe junto de uma cabine telefónica e falei cinco minutos com uma brasileira na espera de um dos autocarros.

fomos ao museu de história natural, que nerd que se preze não perde tal.

comemos fish and chips numa lojeca estranha perto de uma das mil entradas para o metro.

caminhámos pela city onde as pessoas seguem pelas ruas com um ar de missão séria. senti-me numa espécie de filme de negócios que mudam o mundo. ia dando a volta ao pescoço na imensidão de prédios e não consegui conter a admiração de quem vivendo na serra uma infância, adolescência e parte da juventude entra num cenário que jamais poderia imaginar aos doze anos. pensei na mamã a caminhar por entre os prédios e a ouvir a mistura de idiomas. lembrei da avó que passou uma vida na aldeia ali, a ver o mundo ao seu lado. senti-me triste.

tirámos pouquíssimas fotos mas fiz um monte de vídeos parvos, que nos levaram às lágrimas de riso no hotel.

passámos na torre de londres e jantamos em piccadilly circus num restaurante chinês onde não haviam facas.

entrámos na loja da m&m's, que vende chocolates iguais aos que se compram no lidl mais ranhoso. mesmo assim gastámos dez libras em pintarolas coloridas, absolutamente fascinados.

comprámos pequenas lembranças, que todos os turistas compram e sentámo-nos ao lado de uma fonte a ouvir o mundo.

entrámos na abadia de westminster e fiquei uns vinte minutos em frente ao túmulo de isabel I, uma vez que sou absolutamente fascinada pela época tudor. ouvimos o coro e passei mais tempo do que o planeado no canto dos poetas.

comprámos dois bilhetes para o city tour na vontade de ver o que não veríamos de outra forma.

jantámos num restaurante cubano com uma amiga que eu sentia conhecer desde que nasci e não há cinco anos. o blog segue-me nas pessoas extraordinárias que traz, mesmo noutras partes do mundo. ficámos horas os três, numa conversa animada, como quem se reencontra depois de umas férias, esquecidos de que era a primeira vez que falávamos cara a cara.

não andámos no london eye porque as filas eram descomunais e não fomos ver pessoas em cera porque haviam milhares de carne e osso a passar por nós.

na soho quis sentar-me e ficar dois dias só a observar o que me ficou em em dois segundos e recordo uma imagem que permanece gravada: cinco senhores com vestimentas do tibete caminhavam placidamente seguidos por uma série de coreanos e por nós. na mudança de direcção, parámos todos mesmo ao lado de uma sex shop de onde saíram três inglesas com um sotaque cerrado a rir histericamente, cruzando-nos com senhoras de cara tapada numa burca.

 

cor, sol, amizade, pessoas, idiomas, imensidão, luz, agitação, fervilhar de vida.

 

e agora não consigo sentir outra coisa se não o sentir que não sei nada: a minha aldeia não é tão grande como outra terra qualquer nem eu sou do tamanho do que vejo.

mas seria enorme se fosse do tamanho do que existe para ver.

 

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publicado às 10:46


11 comentários

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De Gorduchita a 12.04.2017 às 11:18

Que relato extraordinário! mesmo! Fiquei com (ainda mais) vontade de revisitar Londres!
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De M.J. a 13.04.2017 às 10:19

:)

acho que daqui a uns tempos vai ser mais chato por causa do brexit. seja como for, foi o aeroporto mais chato onde já estive a nível de segurança.
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De O Coiso a 12.04.2017 às 12:25

Amei o relato, tirando o facto de McDonalds estar mal escrito... Fora isso, "impacável"!
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De M.J. a 13.04.2017 às 10:20

pois estava :D
bem se vê quantas vezes lá vou :)
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De Um quarto para as nove a 12.04.2017 às 13:34

Adorei o post, pelo conteudo e porque adoro Londres. E os esquilos? Gostaste dos jardins? Fascinam-me.
Percorri tudo a pé porque se conhece muito mais dos espaços e tive de comprar um par de ténis porque fui armada em chique com sapatos a condizer e ao fim de um dos dias estava uma lástima.
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De M.J. a 13.04.2017 às 10:21

eu ganhei bolhas mesmo com sapatos adequados. caminhamos em dois parques imensos, no primeiro dia e o objetivo era caminhar sempre. no entanto, percebemos que queriamos ter uma noção mais abrangente da cidade e por isso acabemos por comprar uma viagem nos autocarros vermelhos :)
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De Cristina a 12.04.2017 às 13:51

"parece" que gostaste; muito bom!
( mind the gap!)
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De M.J. a 13.04.2017 às 10:21

(estou sempre com essa frase na cabeça :) )
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De Cristina a 13.04.2017 às 12:31

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De Gaffe a 12.04.2017 às 13:58

Essa sensação de desolação à chegada, acontece sempre, sempre, sempre.
As estações do nosso quotidiano mudo e desiludido é inevitavelmente menor do que o som de uma noite de Verão vivida pelos outros.

Depois passa. Ficamos apenas com a realidade nos dedos. Isso é bom.
:)
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De M.J. a 13.04.2017 às 10:21

é isso mesmo. sem tirar nem pôr.

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