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M.J. também fala do amor

por M.J., em 12.02.16

analiso a dinâmica de vida familiar dos meus vizinhos. tipos estranhos. de um lado uma família com uma cria, do outro lado um casal novito. pessoas normais, banais nos dias que, pelo infortúnio de uma paredes finas de um prédio até recente, deixam escapar para os meus ouvidos pormenores de uma vida que é sua.

uma maravilha.

ouço de um lado uma criatura ciumenta que noite sim, noite não grita por coisas que lhe incomodam a vida. parece que o moço, nas suas palavras, gosta de fazer pinturas com o pincel em tela alheia. não faço ideia se é verdade mas espanta-me aquela ladainha diária. às vezes, quando o som dos meus afazeres não consegue escapar-me à dinâmica dos gritos da menina tenho ganas de berrar alto que o deixe, se se sente assim a testa a latejar. uma pessoa não entende. à quantidade de vezes que a rapariga se queixa, em gritos lancinantes das supostas traições, olhares de soslaio, mensagens enviadas e etecetera e tal não se percebe como permanece.

nestas coisas sou preto no branco: se há motivos de escaramuça para dias intercalados por que caralho se fica? se continua? talvez a resposta esteja na bengala linguística que usei na pergunta. não sei.

enoja-me.

do outro lado uma família que vive para a cria. os serões, desse lado da casa, limitam-se a justin bibier em grandes gritos ou uma voz masculina mais grossa a pedir satisfações de tudo e um par de minissaias da infeliz cria. parece-me bem. uma criança tem de ser educada e diz que a educação da mesma deve ser feita por um aldeia inteira. no meu caso, ainda que não a eduque participo na educação, num silêncio compreensivo.

é sempre bom.

 

pergunto-me do que sairá da minha intimidade para os vizinhos através das paredes de papel. ouvirão eles os meus resmungos dos chinelos fora do sítio? incomodar-se-ão com a minha música quando não uso os phones (raríssimas vezes) porque entendo que scott matthew exige liberdade de espaço? rogarão pragas do meu riso estridente quando o rapaz dá voltas à imaginação para me tirar da melancolia parva que me inunda em dias de merda? 

saberão que dentro das paredes do lado vive uma pessoa anormalmente social que por obra da Providência encontrou alguém que lhe faz cócegas na alma, limpa lágrimas de nada com sorrisos e lhe enche a vida com gestos de chocolate?

creio que não.

eu própria às vezes me esqueço. 

ingrata.

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publicado às 16:54


5 comentários

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De marrocoseodestino a 12.02.2016 às 18:42

Arrepia-me quando oiço as zangas dos meu vizinhos. Fazem-me lembrar as que o meu ex tinha comigo. Digo que ele tinha porque eu ficava caladinha a morrer de vergonha dos berros dele.
Poderia dizer porque fui ficando, mas até a mim me faz nervos de ter aguentado 11 anos de berros.
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De M.J. a 15.02.2016 às 11:58

entendo perfidamente.
o que interessa não é o tempo que aguentaste mas a força que tiveste para te libertar do tempo em que aguentaste :)
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De Maria Araújo a 12.02.2016 às 20:30

"encontrou alguém que lhe faz cócegas na alma, limpa lágrimas de nada com sorrisos e lhe enche a vida com gestos de chocolate?"

Tens um moço meiguinho.
Que frase mais linda!
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De M.J. a 15.02.2016 às 11:58

é um santo. só um santo para me aturar.

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