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medo

por M.J., em 10.08.18

não foi uma, nem duas, nem só três noites que passei em claro, a olhar o teto, convencidíssima que ia/vou morrer no parto, numa posição de fragilidade, escarrapachada que nem um frango do campo, para sempre de olhinho fechado, a vida acabada a tentar pôr outra no mundo.

esta ideia, inicialmente apenas uma coisa sem nexo, reflexos de um medo do desconhecido, tornou-se real com o avançar da coisa e as hormonas em constante ebulição. deixou de ser um "e se?" para "vai acontece, e depois?"

 

não por mim.

dou pouca importância a quem sou e esse sentimento não alterou um milímetro desde que me conheço.

considero que respirar, continuar, prosseguir, estar por estas bandas tem a importância de um grão minúsculo de areia e eu, enquanto eu, só existo enquanto existir, não havendo, por mim e para mim, mal nenhum quando isso deixar de ser real.

o medo não era por mim.

juro pela bíblia.

 

se não conseguia parar de bater nessa tecla era por ele.

e durante horas ininterruptas, a madrugada a abrir na rua, os primeiros raios de sol a despontar, a vida numa renovação matinal, o meu cérebro andava em círculos, correndo que nem maluco até ao ponto de partida, numa angústia cortante e aguda.

 

quem irá fazê-lo rir das pequenas coisas dos dias?

quem irá lembrá-lo de não trabalhar toda a noite?

quem irá colocar-lhe doces na marmita para dias de trabalho mais chatos?

quem irá recordá-lo das datas de aniversário?

quem irá tratar das burocracias que ele detesta?

quem irá comprar-lhe pequenas coisas que faltam para que não tenha de se preocupar com isso?

quem irá chamar-lhe a atenção para os botões da camisa que às vezes se descosem?

quem irá assistir com ele star trek chamando a atenção para as incoerências da série?

quem irá dar-lhe pijamas no dia de natal e colocar chocolates na árvore, que finjo proibir de comer e ele finge retirar?

quem irá esticar os lençóis com muita força para que as dobras não lhe marquem a pele?

quem irá amá-lo desta forma?

quem irá ajudá-lo a criar uma criança sozinho, as roupas, a comida, o sono, o choro, as birras?

 

tentava cortar o circulo vicioso da angústia.

sentia-o dormir do meu lado, a tranquilidade do sonos dos justos, as lágrimas a molharem-me a almofada, uma sensação de medo doentio colado à pele e o medo, por ele, era tão palpável que o podia agarrar, apertar e ser dominada por aquele pedaço concreto de angústia, incapaz de o fazer sumir debaixo da cama ou queimado pelo sol da manhã.

 

um dia falei disso à médica.

não expliquei o lamechismo dos medos pelo outro. falei só da sensação de agoiro, da possibilidade de deixar de ser naquela hora.

e como isso era real nos últimos dias.

não se riu.

não disse que era um receio tão ridículo como a minha presunção de que ele precisa de mim para prosseguir. 

não assumiu um paternalismo desmesurado ou aligeirou a coisa com palavras de nada.

colocou apenas, em cima da mesa, as estatísticas da morte no parto, em mulheres saudáveis, neste país, que prossigam os cuidados médicos recomendados. 

e o medo acalmou-se.

 

há uns dias atrás, quando acabávamos de jantar, murmurei-lhe em jeito de confidência, no receio das palavras:

"tenho algum medo de morrer no parto."

e ele, os olhos a brilhar, um sorriso travesso:

"não tenhas. provavelmente vais mesmo desejar morrer quando passares noites inteiras sem dormir porque o puto não para de chorar".

 

desatei à gargalhada.

o medo esfumou-se.

não é ele que precisa de mim:

sou eu que preciso dele para não me consumir das trevas de que sou feita.

 

 

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publicado às 13:45


2 comentários

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De Sofia Black a 10.08.2018 às 16:46

Se fores como eu, vais chegar a um ponto que estás tão saturada de estar barriguda, de não teres posição para dormir e de não conseguires ver os pés para te calçares, que vais desejar que chegue a hora rapidinho e esse medo vai desaparecer.
E quanto às noites mal dormidas, existem excepções. O meu filho em 18 anos só me deu uma noite má porque estava com o início de uma pneumonia. Mais por preocupação minha do que por me acordar e passar a noite a chorar. Vais ver que também virá um santinho por aí.
Por essa razão (por ter medo do que pudesse vir) é que não tive mais nenhum.
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De Quarentona a 10.08.2018 às 17:20

Esse vosso Amor chega a ser comovente e essa cumplicidade é linda por demais :))))
(vai tudo correr bem)

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