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milagre o tanas!

por M.J., em 09.06.16

sexta feira à tarde (é quinta mas faz de conta que é sexta) é sempre bom para lançar a minha opinião acerca do tema grande do momento. do milagre. da maravilha. da vitória. da batalha.

da estupidez.

ontem, sem perceber como nem porquê fui inundada de noticias da "mãe guerreira", que serviu de "incubadora viva" ao filho, a quem "doou o corpo". da cesariana ou lá o que foi à mãe fantástica, fabulosa, que ganhou uma guerra contra a morte ao parir o filho depois de estar morta.

cerebralmente morta.

morta, portanto.

a notícia queria-se enternecedora. eram grandes os elogios à senhora por ter feito o derradeiro sacrifício. os médicos e os senhores do hospital reuniram-se todos em conferência de imprensa para dizer ao mundo o fantástico resultado da sua obra. mais elogios a eles próprios. ao fenomenal trabalho. e à mãe guerreira (expressão muito em voga) que venceu.

pois!

 

com mil demónios, sejamos práticos!

a senhora não venceu a ponta de dois chavelhos. estava mortíssima. sem as máquinas a que estava ligada não vivia dois pirolitos e a prova é que no dia a seguir se transformou em cinzas. foi mantida viva como um equipamento que mantém uma outra vida. não há nada de belo, nem de poético, nem de bonito nisto.

é apenas o que é. 

a criança nasce. o pai não a pode manter, pelo que vai viver com os avós "já velhinhos", dizem os vizinhos. "agora vai precisar de muita coisa", continuam os ditos. haverá por aí um milionário?

 

na verdade, nada contra o facto de terem forçado a senhora a viver. é bom para os médicos, para o hospital, para a fama que daí advém. poder-se-á fazer literatura médica, entrevistar "os milagreiros", dar a conhecer o hospital. 

no entanto, nada disto é um milagre. nada disto é uma vitória. não há motivos para elogios à força da senhora porque os mortos não têm força. os mortos estão mortos e os vivos fazem deles o que quiserem. 

 

o que interessa é que neste momento há uma criança no mundo.

sem mãe.

a única conclusão que vale a pena pensar e questionar e resolver e falar é que há uma criança no mundo sem mãe e sem um pai que queira, ou possa, sei lá, cuidar dela.

não vejo absolutamente milagre nenhum nisso. ou força. ou vitória.

só algo infinitamente triste.

 

se me fosse perguntado hoje, com tudo o que tenho, quem tenho, quem sou e quem vivo, se queria ter nascido de uma mãe morta diria que não. 

sem a minha mãe a vida não faria sentido nenhum. 

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oh vai ver ali:

publicado às 15:12


6 comentários

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De sarabudja a 09.06.2016 às 16:26

Entendo, mas discordo sob o meu ponto de vista (e já sabemos que ter pontos na vista é do caraças).

Pois bem, eu quereria ter nascido de qualquer forma. Graças a um destino bem simpático, tenho uma mãe bem escolhida, assim como um papá, um mano e restante gang familiar.
Claro que se nascesse de uma senhora em morte cerebral, eu não seria o que sou hoje, mas quem me garante que eu não seria muito melhor criatura?
Não tivessem dado conta na maternidade, e eu teria sido trocada (verdadinha). E até hoje acredito que seria muito feliz a viver num circo pobre e itinerante e a poder andar de fatos de lycra apesar da celulite.

Sem brincadeiras: mas o pai da criança já se havia dado conta da sua impossibilidade de o acompanhar enquanto pai, antes da mãe ter morrido? Ou será uma reacção a este turbilhão de emoções que é ter um filho nascido de uma mãe morta?

Acho que a imprensa tem exagerado na cobertura deste e de outros casos. Há uma criança, acabada de nascer, que precisa de poder ser ela mesma. Há uma família, duas, vá, que precisam de chorar uma morte que não se concretizava pela presença de um corpo de um coração que não deixaram parar e de se habituarem à presença daquela criança.

Por mim, faço zapping cada vez que vejo qualquer coisa sobre este assunto. Nunca fui espectadora da vida real dos outros.
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De M.J. a 09.06.2016 às 16:33

um ponto de vista absolutamente válido e admiro-o mesmo.
eu é que sou uma fraca que, na verdade, não dou grande valor à vida (à minha, bem entendidos).
a tónica que queria pôr em destaque era a ideia de que a senhora não foi uma guerreira porque não guerreou por nada. estava morta cerebralmente. os mortos não lutam. foi mantida viva, como uma incubadora.
poderá realmente haver mérito dos médicos.
poderá haver avanço da ciência.
há mais uma vida e menos uma outra vida.
e um exagero mediático como sempre.
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De hannahrbc a 09.06.2016 às 17:38

Pois, uma história de dois pontos de vista. Para os médicos foi uma coisa que nunca antes aconteceu, mas para a mãe ou a criança foi demasiado trágico...
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De Violinista a 09.06.2016 às 18:39

Tenho um certo receio a comentar isto, mas...

Achei a notícia extremamente forçada? Desde que li e tomei conhecimento de casos em que mulheres foram forçadas a manter gravidezes e morrer por causa disso em países bem desenvolvidos porque aborto é contra a religião. Porque é tão louvável que morram pelos filhos, mesmo que não passem de aglomerados de células, e são umas putas de umas vacas se pensarem primeiro na vida delas ou se tiverem medo de morrer.

Não sei se foi escolha da senhora ir para a frente com isto ou não. Se foi, respeito a decisão, mas não é nenhum acto vitorioso ou extraordinário.
Sabiam que o pai não podia? Deitaram cá para fora uma criança assim, sem mais? E isso é heróico?
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De Gaffe a 09.06.2016 às 20:20

Transformar um corpo morto numa incubadora, não é novo, mas fazê-lo durante tanto tempo tem relevância científica.

O resto é o "jornalismo" que existe
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De Cristina a 09.06.2016 às 21:27

o "milagre" é o ser que nasceu. :-)

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