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música

por M.J., em 02.02.18

consigo ver claramente a minha obsessão com certas músicas.

é como um encontro: ouço-as e sinto de tal forma, colam-se a quem sou com tanta intensidade que as persigo, me aproprio totalmente das palavras, da melodia, e faço delas um pedaço de mim, como um braço e uma perna, de tal modo que são tão eu como eu e é impossível olhar para trás e não as reconhecer em mim.

 

há umas quantas:

quando tinha 16 anos passei um verão inteiro a ouvi mad world, de gary jules, em loop, de tal forma que a mamã proibiu a música sempre que estivesse em casa, cansada de ouvir aquilo de manhã à noite, a soar pelas paredes num choro triste. 

 

aos 19 passei meses ininterruptos a ouvir avec les temps, de léo ferré.

a letra era os meus pensamentos e podia chorar sem lágrimas sempre que a ouvia.

e ouvia sempre.

foram dias seguidos, meses, como um encontro, um hábito, um vício a manter à deriva a pouca sanidade mental que tinha.

 

aos 20 persegui verdes anos, de carlos paredes.

a intensidade pela música era tal que a ouvia sempre antes de adormecer, como uma canção de embalar.

fiz poemas que recitava mentalmente ao som dela, planeei o futuro como se a guitarra me guiasse os passos. e casei, anos mais tarde, ao som dela.

 

aos 24 encharquei-me com ornatos violeta.

foi na fase em que a doença se alastrou e os indícios do que iria acontecer eram mais do que evidentes.

a música deles, a voz do manuel cruz, a violência quase das letras, o cru dos sentimentos fizeram-me apropriar das músicas como minhas.

não ajudava.

empurravam-me numa dor tétrica e mórbida que praticamente acarinhava.

e ainda hoje, não consigo ouvir até ao fim "chaga" sem sentir uma revolta nas entranhas, um medo escuro e um frio atroz, me me queima como gelo.

 

também nesse ano, quando já não era eu mas outra qualquer consumida pela doença, sem sentir absolutamente nada, ouvia de forma constante, como acarinhar dos cortes na pele, a dor da alma, no fim do céu dos quinta do bill.

não consigo hoje ouvir mais do que vinte segundos sem sentir que o mundo vai desabar e eu vou desaparecer em dor.

sem evocar imagens que não desaparecem:

o caminhar sem rumo. o vento na pele ferida. o som dos comboios no espaço entre o fim e o recomeçar da música. a sensação de abandono. a certeza de morte. as ondas em turbilhão numa praia deserta à noite. 

 

aos 25  depois de ultrapassar o fim, apaixonei-me e entrei numa nova obsessão musical: agnes obel com riverside.

ouvia-a dias seguidos, numa espécie de hino sem lógica, uma esperança a que me agarrar no recomeço, enquanto alguém juntava os cacos que eu era e me prometia, como cumpriu e cumpre, que tudo ficaria bem.

e ao ouvi-la lembro-me de dias pequenos e beijos com chá.

as primeiras gargalhadas de um ano inteiro, as glícinias a perder as folhas e mãos dadas ao anoitecer.

 

há outras. umas quantas que são mais minhas do que de quem realmente são.

e agora, numa outra fase, num outro momento, percebi a minha obsessão por esta, que ressoa pelas paredes e me faz os dias: 

 

 

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publicado às 10:00


3 comentários

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De oBomIdiota a 06.02.2018 às 11:34

Estas são tão tuas

Como a "About Today" dos The National é para mim. E lá estarei no NOS Alive, no dia 13 de Julho a cumprir uma promessa.


Um beijinho e um abraço do tamanho do mundo MJ.

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