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não é tão raríssimo assim

por M.J., em 12.12.17

vi com atraso a reportagem acerca da raríssimas e dos alegados - aprendam que é sempre alegados - desvios de dinheiro por parte da presidente.

só percebi o escândalo no domingo à noite depois de ter passado o fim de semana na madeira. e ontem tive curiosidade de espreitar.

vi a reportagem com um sorriso no canto do lábio.

e soltei uma gargalhada, daquelas sonantes, quando em vídeos da senhora, ela diz que "quem não a cumprimentar como ela merece vai para o olho da rua" e "que o filho vai ser o herdeiro da parada".

depois dei-me ao trabalho de ir ler alguns comentários sobre o assunto na imprensa escrita e tive ainda mais vontade de rir:

ou eu tive muito azar na vida ou o pessoal que vive num mundo de fadas e unicórnios teve muita sorte.

 

infelizmente conheço muitos casos deste tipo de arrogância, nesta coisa do "cumprimenta-me como mereço", "isto é tudo meu", "se sorrisses mais até te aumentava".

passei na pele - há muito tempo - alguns deles.

e assumi, pasmem-se, que a maioria dos sítios era igual. falta de perspectiva da minha parte, bem sei, mas foi-me inculcado - tal como a senhora dizia - que não, não nascemos todos iguais.

talvez tenha sido por isso que escancarei a porta de saída e fiz-me à vida na certeza que, não sendo todos iguais, eu não estava - ainda assim - para ser tratada de forma diferente dos critérios de educação.

 

acredito - sei - que muitas empresas, pequenas, grandes, médias, familiares, sem serem familiares, têm este tipo de pessoas a geri-las.

faz parte.

somos muito pequenitos e temos, muitos de nós, manias de grandeza na ponta do nariz. só dessa forma se entende as reverências às suas excelências, aos doutos colegas, aos doutores, todos eles alinhados, saídos das faculdades ainda com hálito de álcool mas a exigirem o tratamento que a faculdade lhes deu depois de estudo intenso, bebedeiras monumentais e cábulas debaixo das saias.

 

somos pequenitos e temos manias de grandezas.

elegemos políticos corruptos - condenados e presos - porque "ao menos roubou para a nossa terra".

damos vivas a senhores que desviaram milhões e milhões e elegemos como herói nacional gente que é investigada por fuga aos impostos e cujo grande saber consiste em dar pontapés a bolas.

 

somos pequenitos, com manias das grandezas e de grandes vistas curtas.

enfileiramo-nos todos, muito contentes, como quem vai ver o senhor dos passos, quando um político, seja ele qual for, vem visitar o sítio onde trabalhamos, o local onde vivemos ou o café onde lemos o jornal.

ajeitamos o cabelo se vimos uma câmara de tv ao lado do caminho onde passamos e gostamos de mandar beijinhos, aos domingos à tarde, através de programas de tv que julgam fazer um serviço público por ir mostrar "os parolos" ao mundo.

 

somos pequenitos, tão pequenitos que nem sabemos bem o que é um inquérito, uma instrução mas acreditamos nos hernânis, nas fatinhas, nas julinhas e em quem levante a voz a dizer que o povo é quem mais ordena.

 

somos pequenitos.

 

somos tão mas tão mas tão pequenitos que, quando numa instituição de solidariedade social há alegados desvios de dinheiro por parte da presidente, vamos todos muito curiosos em frente à tv tentar perceber no que é que ela gastava dinheiro:

duzentos euros num vestido? que abuso!

trezentos euros num supermercado? olha a gastadora.

duzentos euros em gambas? comesse sardinha em lata.

somos tão pequenitos que ficamos mais indignados por alguém cometer um crime para viver melhor do que nós... do que pelo crime em si.  

se fosse para comer pão seco... já não havia mal.

 

ai senhores.

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publicado às 11:03


3 comentários

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De Quarentona a 12.12.2017 às 15:34

Não posso estar mais de acordo!

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