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a escola primária ficava ali no centro, rodeada de grandes pedras e flores enormes. havia uma árvore no recreio, duas salas, uma com lareira, e uma cantina. as casas de banho eram fora das salas, num grande coberto. via-se do pátio a igreja ao fundo e era pelo sino que se regiam os intervalos e os começos de aulas. em frente ao recreio havia uma enorme cruz onde ainda se fazem hoje as procissões na páscoa e ao fundo, perto da entrada, um enorme lago com girinos (os cacarrelos, como lhes chamávamos) que nós pescávamos no verão.

eu entrava, creio eu na distância do tempo, às 9:30 e saía às três. íamos a pé desde casa até à escola, todos quatro, chamando uns aos outros pelas casas que passávamos. levávamos grossas botas no inverno e guarda chuvas que, uma vez ou outra se partiam. tínhamos indicações claras para não falar com estranhos, não entrar em carros de estranhos e caminhar pela beirinha, o que nós respeitávamos, sobretudo no verão, calcando com as sandálias os regos da água.

mas entrávamos, sobretudo eu e a ana, em grandes aventuras, no caminho para a escola.  um dia decidimos ambas, com os dois rapazes fazer um grande concurso de saltos. atirámo-nos de um muro numa terra, que tenho a certeza, se fosse hoje, me faria partir a coluna. entrávamos em discussão para ver qual de nós seria a power ranger cor de rosa ou a navegante da lua com os totós. competíamos nas notas, na aprendizagem, na vida e, ainda assim, perseguiamo-nos para todo o lado.

foi ela quem me disse que o pai natal não existia, depois de lhe ter dado uma surra e a mamã me ter confessado que sim, fora ela quem me dera o porco bebe de peluxe no natal anterior, que grunhia e saltava em mortais à retaguarda.

e mesmo depois, quando seguimos a nossa vida e crescemos e cada uma levou um rumo diferente, nas opções e planos, foi ela quem numa das tardes em que o mundo acabara e eu era só lágrimas e desilusão e certeza do desistir, me levantou da cama e me apoiou nos passos que dei, sem nunca se fartar, sem nunca desistir, sem nunca passar um dia sem me mandar mensagem, na preocupação de como estava.

 

na escola aprendíamos português, matemática e estudo do meio em programa oficial. o inglês começava, já na altura a ser introduzido. uma professora, fora do horário escolar vinha dar-nos aulas, ensinar os números, as cores e os dias da semana. pouco mais sabíamos que isso. descíamos depois, com pressa no gelado que comprávamos, a correr pela rua abaixo, sem medo de tropeçar nos paralelos e dar cabo dos joelhos.

um dia, a ana, desbocada e chateada, por sairmos assim mais tarde, que nos conduzia em frente, em grandes corridas, encontrou, já perto da loja dos gelados,  a irmã do senhor padre que vinha da horta. era uma senhora, pequenina, com ar sério e cabelo arrumada em pequenos caracóis colados à cabeça. ia à missa todos os dias, ajudava o irmão e nunca passara da menina, assim, dito com reverência, na pureza de uma senhora, que afinal era menina, destinada a cuidar do irmão.

vinha da horta, era primavera, com um cesto de fruta, quando encontrou a ana, esbaforida que corria, bochechas vermelhas, no desejo de encontrar a loja e comprar o gelado. chamou-a, com ar doce e depois de sorrir disse-lhe, assim, que não era bonito uma menina correr tanto.

nós três chegávamos entretanto, cansados, com a mochila nos ombros, soltos na tarde que se escondia. a menina voltou a dar-nos a mesma reprimenda. eu, submissa aos adultos baixei os olhos, eles não ligaram no desejo do gelado, ali tão perto. foi a ana quem se acabou por desculpar. que tivéramos inglês, que queríamos ir para casa fazer os trabalhos. que era por isso que corríamos. a menina gostou da resposta. pousou o cesto da fruta no muro, fez um chorrilho de perguntas. e já sabíamos dizer o nosso nome em inglês? e as cores? e os dias da semana? e os meses do ano? e o pai nosso, conseguíamos nós rezar o pai nosso em inglês? a ana respondera a tudo com paciência cândida de santo. que sim, que sabíamos dizer o nome nosso nome em inglês, que sabíamos dizer as cores, e repetira depois os meses todos, cantados.

mas e o pai nosso, repetia a menina, e o pai nosso? que antes de tudo, antes das cores, dos nomes, dos numeros, estava o pai nosso do nosso senhor jesus cristo que tudo sabe, tudo vê.

a essa hora os rapazes haviam-se já escapulido para a loja, a três passos dali e comiam os gelados, de nata, pequenitos, de cinquenta escudos, com ar consolado, olhando-nos e troçando por trás do vidro. a ana encolhera os ombros, perante as perguntas que não terminavam. e quando a menina a questionou mais uma vez se sabia dizer a confissão em inglês, olhou-a com desplante nos olhos e perguntou, num descaramento sem fim: e a menina, porque não se casou?

no domingo seguinte a mamã, quando veio da missa, chamou-me a um canto e explicou-me com calma, que a menina não se casara porque, tal como o senhor padre, decidira casar-se com deus, servindo-o e pondo-se à disposição do irmão.

mas juro, com estes ouvidos que a terra há-de comer, que a ouvi, nessa tarde quando contava à vovó a triste cena, que a menina não se casara porque fora parva.

 

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publicado às 09:18


9 comentários

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De Gaffe a 24.09.2014 às 16:39

Valha-me Deus! Eu gosto tanto destas tuas memórias!

Para desanuviar:
O único acidente que tive com um guarda-chuva foi quando esperava calmamente um autocarro num dia de temporal. Estava abrigada, com o guarda-chuva aberto, mas mesmo assim era um dilúvio. Não havia vento. Só trombas de água umas a seguir àsa outras.
Vejo o autocarro a aproximar-se.
Muito contente dou um passinho para a frente e fecho o guarda-chuva. O estúpido desfez-se!!!! fiquei só com a moca, o pau, a bengala na mão. O resto tinha-se esbardalhado por todo o lado! Ainda hoje não sei como. Apanhei naqueles instantinho a maior chuvada da minha vida.
O descarado do motorista mandou-me entrar e cascou entre dentes:
- Chineses. Tudo dos chineses.

Ainda hoje o detesto.
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De M.J. a 24.09.2014 às 16:58

ahahahahahahaha.
a gargalhada que dei agora, pá.
por favor, não me digas que ias de pérolas :-P
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De Gaffe a 24.09.2014 às 17:06

Sempre!
É caso para dizer que naquele momento foram pérolas e porco*.

* ... o motorista...
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De M.J. a 24.09.2014 às 17:06

ahahahahahahahah.

deixa de comprar nos chineses... :P
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De Gaffe a 24.09.2014 às 17:11

Se não fosse o cheiro, as lojas dos chineses seriam a minha sala de entretenimento.
O que eu gosto das descobertas que faço numa loja dos chineses!!!

Sabes que um dia encontrei um triturador de cocó de gato?!?!?!?!
JURO!
Ainda coloquei a hipótese de o comprar, mas depois pensei que me internavam mal chegasse a casa e desisti. Ainda hoje sonho com aquilo.
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De M.J. a 24.09.2014 às 17:13

ora essa! um triturador de cocó de gato? mas para quê?

(eu fui lá há uns tempos e não consegui sair sem uma porcaria qualquer que apregoava ser óptima para dobrar rissóis. quando cheguei a casa lembrei-me que não faço rissóis)
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De Gaffe a 24.09.2014 às 17:17

:))))
Bem feito!
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De Gaffe a 24.09.2014 às 17:19

Eu penso, penso, que o triturador para cocó de gato servia para triturar cocó de gato.

... é que francamente!...

(anulava os cheiros)
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De M.J. a 24.09.2014 às 17:22

olhe, não tenho gatos, sempre acreditei que os chineses não regulam bem da lancheira. quando a senhora me falou em triturador de cocó de gatos pensei que o fariam para um tempero.
é legitima a minha pergunta então, certo? antes de assumir tal erro!

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