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o dia em que a M.J. morreu.

por M.J., em 08.11.17

esta semana tenho algo para concluir, muito importante, a nível profissional.

é algo que envolve bastante dinheiro e não posso deitar a perder.

assim, a minha vertente perfeccionista e controladora - oh, como há disso a rodos nesta cabeça - planeou no domingo a semana toda, desde as pausas para esticar a coluna aos momentos para comer. 

claro que sim. 

só que não!

 

na segunda feira, à mesma hora em que acordei, destinada e pronta a trabalhar, ouvi um berbequim no apartamento do lado, num ruído ensurdecedor que parecia um terramoto descomunal:

o meu vizinho do lado, o do cão às seis da manhã, o que tem uma filha adolescente que ouve kizomba às quatro da tarde, decidiu fazer obras que envolvem partir coisas, rasgar paredes e dar cabo do silêncio do prédio desde as oito menos dez da manhã às cinco menos dez da tarde. 

 

o barulho era de facto ensurdecedor.

não estamos a falar só de uns gemidos - como o outro, do outro lado - pornográficos facilmente bloqueados.

estamos a falar de marteladas, berbequins, pedras e uma correria escada acima escada abaixo.

 

nesse dia à tarde, depois de pensar em todas as opções e alternativas para onde ir trabalhar, enquanto tudo me gritava que estava a perder tempo e que devia deixar-me de merdas e que se quisesse conseguia era só fingir que não ouvia, e depois outra parte de mim a gritar por cima dos berbequins que não era justo, que macaco do campo não se habitua à cidade e que devia era voltar para a serra e que chega de viver enjaulada e o trabalho em cima da mesa a gritar mais alto que não estava feito e enfim, quando desci as escadas e olhei em redor havia um manto de pó banco por todo o prédio:

os homens trabalharam de porta aberta e o pó entrara inclusivamente cá em casa. e era também por isso que o barulho se projectava, como num espectáculo com palco bem acústico. 

 

(faço aqui uns parêntesis para explicar o seguinte: não pensem que este prédio é dos maus. é pequeno, tem apenas 5 famílias e o silêncio impera praticamente os dias todos de tal forma que, qualquer barulho sobressai. e claro, obras são obras. além disso, mesmo as obras continuando no dia a seguir, o vizinho deu-se ao trabalho de limpar - rudemente - as escadas e o pó nessa noite, numa demonstração de preocupação pelo bem estar dos restantes moradores. 

engoli - confesso - duas ou três pragas que lhe tinha rogado. fecho parêntesis).

 

nessa tarde, depois de uma dor de cabeça infernal, de um dia inteiro de barulho catastrófico, de uma alergia que começou assim que o pó entrou sem ser convidado, de um trabalho que não avançou uma linha, de uma sensação de injustiça e de auto desprezo por ser tolinha, depois de me acalmar e lançar duas lágrimas decorrentes também de umas certas alterações hormonais - conjugação bombástica - e sensação de auto-comiseração, depois de tudo isso, sentei-me no sofá, liguei a televisão - que continuo a achar descomunal para o tamanho cá de casa, numa espécie de mono tecnológico que grita "estou aqui" e decidi que acabou:

acabou.

c'est fini.

não passo outro ano num apartamento.

chega. 

é casa ou nada. 

pode ser pequena, no meio de um pinhal se for preciso - se bem que com  o historial de incêndios é melhor repensar - no meio da serra mais distante ou onde for... mas apartamentos acabou. 

foi isto.

 

e a m.j. de há cinco anos, que jurava a pés juntos que não ia cair no sonho provinciano de casar e comprar casa e preparar refeições da semana aos domingos e preocupar-se com um marido e quem sabe, ter dois putos borrachudos e feios como a mãe, deu voltas no túmulo, morta e enterrada mas ainda aos pontapés, porque faleceu, tadita, toda ela aos pedaços, depois de casar e decidir comprar casa, com quintal e tudo, e plantar as próprias couves enquanto limpa os vidros e repete, como a própria mamã:

"há um mínimo. e viver na porcaria é um mínimo que não se admite".

 

acendam uma vela pela defunta, por favor. 

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publicado às 09:31


11 comentários

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De a 08.11.2017 às 10:46

"há um mínimo. e viver na porcaria é um mínimo que não se admite".
Concordo*. E a isso chama-se evolução! :)
Tudo de bom, felicidades, M.J.

*[opinião de pessoa casada com o mesmo número que m.j. tem de vida (se calhar estou a exagerar mas anda lá perto... :)]

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