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o que dizem os olhos dela*

por M.J., em 12.05.15

diz que o luto é ultrapassável em seis meses. disseram-me e eu acreditei ainda que não possa acreditar. que temos o corpo programado, com capacidade plena de enfrentar a morte, a perda e seguir, funcionando, comendo, dormindo, tomando banho, trabalhando, comendo e dormindo. que podemos sair à rua e respirar ar puro como quem acorda de manhã depois de uma noite descansada de sonhos com cheiro a tulipas.

diz que sim e eu não acredito. ainda que queira. porque mesmo que me repetia, em ladainhas seguidas, que há que seguir em frente com quem me rodeia; e que repita que o tempo tudo dilui e que não se morre de amor nem de saudade; e que mesmo que eu saiba que te amar ainda como te amo esgota todos os que me respeitam e cansa-os de mim, quem sabe levando-os ao afastamento, ao exílio em que me mantenho desde ti; e mesmo pensando e sentindo tudo isto não consigo aceitar. não consigo calçar as botas, vestir a roupa e perseguir numa autêntica caminhada num trilho onde tu não entras. abrir o meu corpo e perceber que está oco meu filho. que está oco, vazio, completamente cheio de nada porque levaste tudo o que eu era.

não consigo. não consigo ignorar o vazio que me povoa os dias, esta dor latente e esgotante que não deu ou ensinou nada. sem ti, acredita, não sei viver e as banalidades dos dias são escarpas de solidão que me agrilhetam a alma. 

queria poder deitar-te e aconchegar-te a roupa em noites de inverno. segurar-te no colo enquanto me choras ao peito, na dor do joelho rasgado. queria continuar a amar-te com a devoção que te ensinei o pai nosso. queria a tua presença aqui, enquanto tu no teu sorriso que levava o mundo numa bandeira de esperança.

diz que o luto é ultrapassável em seis meses. e eu levanto-me e como e tomo banho e trabalho e como e durmo. numa cadência de oração na espera da dor morrer, como tu, em ausência de mim.

mas não acontece.

 

*se olharmos com atenção, sentada, na nossa frente, na amargura dos dias. 

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publicado às 14:54


18 comentários

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De marrocoseodestino a 12.05.2015 às 16:07

Não sei o que dizer desses texto tão sentido...
Um beijo
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De M.J. a 12.05.2015 às 17:03

seria de facto difícil dizer qualquer coisa. enfrentar nos olhos alguém de luto torna-nos vazios. e as palavras banais, às vezes, são mesmo as únicas que restam.
na minha terra, quando morria alguém, chegava-se aos familiares da pessoa e dizia-se-lhes, com ar sério, "os meus sentimentos".
só mais tarde percebi que era a fórmula ensinada a quem não sabia o que dizer à dor.
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De Gaffe a 12.05.2015 às 16:54

Já te disse que há textos teus que não sei comentar.
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De M.J. a 12.05.2015 às 17:07

sim. eu sei. ainda que qualquer frase tua ponha escondido debaixo da cama qualquer texto que insisto em escrever.
mas isto são opiniões e não fica bem entrarmos em troca de elogios.
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De Cláudia Oliveira a 12.05.2015 às 16:56

como é que queres que uma pessoa comente este texto? não dá, desculpa.
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De M.J. a 12.05.2015 às 17:07

talvez tenhas razão...
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De Maria Araújo a 12.05.2015 às 19:09


"só mais tarde percebi que era a fórmula ensinada a quem não sabia o que dizer à dor"

ainda hoje, não sei lidar com isto.

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De M.J. a 13.05.2015 às 00:08

creio que é uma das coisas mais difíceis de aprender.
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De Cris a 13.05.2015 às 09:25

Infelizmente revejo-me neste texto... tão sentido e não, não há prazo para fazer o luto...nunca se faz, aprende-se a viver com ele! Palavras lindas...
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De Cris a 13.05.2015 às 14:09

MJ não quis de maneira nenhuma insinuar que conhecia ou tinha algo a ver com a escrita do texto....só quis dizer que passei por uma fase de vida com luto e que é difícil! cumprimentos
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De M.J. a 13.05.2015 às 14:11

ah sim, eu percebi. a pergunta era só no sentido de te pôr a falar sobre isso (caso quisesses).
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De Cris a 13.05.2015 às 14:15

obrigada...mesmo sem a conhecer, gosto da sua escrita e foi a primeira vez que comentei...obrigada pela simpatia e continue no seu modo descontraído e por vezes sério (como desta vez) que tanto me tocou
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De M.J. a 13.05.2015 às 16:26

muito obrigado.
mas tratamo-nos por tu, sim?

beijinhos.
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De lady_m a 13.05.2015 às 09:39

Eu acho que se aprende a sobreviver, a dor pode até diminuir mas não acredito que desapareça por completo, aprendemos é a viver com ela, uns dias melhor outros dias pior.

Beijinho
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De M.J. a 13.05.2015 às 14:03

sim, creio ser essa a noção mais... compreensível do luto.

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