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o tempo e eu

por M.J., em 23.02.17

não sei qual foi o exacto momento em que deixei de pensar/sentir que tinha a vida toda à minha espera, para pensar/sentir que cada dia que passa é menos um que me resta.

talvez tenha sido no momento em que percebi que as minhas rugas aumentaram.

ou quando reparei que o meu cabelo tem mais brancas do que um senhor de setenta anos, que se cuide.

não sei.

 

sei só que a dimensão do tempo alterou-se.

as primaveras não são sempre um novo recomeço, os outonos não são logos dias de melancolia, os invernos não são travessias desertas de chuva e mantas e sofás e os verões não são já imensos dias de nada, na espera que o calor abrande e a vida recomece.

 

o tempo alterou-se.

os dias deixaram de ter os momentos espaçados em eventos com sentido.

cada hora, que antes tinha um compasso de minutos razoáveis, transformou-se em instantes que voam e ficam unidos, uns aos outros, em dias que se convertem em meses muito banais. muito sem nada. muito sem magia.

 

talvez aconteça só comigo. 

antes cada estação do ano tinha diferentes cheiros, sentidos, sabores. era um evento único, de recomeço. de sentido de pertença a uma natureza que mudava e alterava em função de nós.

antes, cada altura do dia tinha um significado útil de pertença: apanhar o autocarro. chegar à escola. dividir a manhã em horas com diversos conhecimentos. almoçar numa aventura pela cantina.

e a hora de recreio, nas escadas do campo de futebol, era um ano de emoções.

 

agora as coisas são difusas e perdidas entre pensamentos que não trazem nada. creio que o tempo fazia mais sentido porque eu vivia o tempo. porque me dedicava ao que vivenciava na certeza de que só aquilo interessava.

agora não.

passo de tarefa em tarefa, de hora em hora, de momento em momento pensando no próximo.

há sempre algo a ser decidido. há sempre algo a ser tratado. uma hora ao sol quente, na esplanada, num dia de inverno, é uma hora dividida com o que se passou de manhã e o que passará de tarde. dividida com o livro que leio, com o que quero ler e ainda com o que quero escrever sobre eles. com o exercício que não fiz e com o que tenho que fazer. com a alimentação que é suposto manter: faço peixe para o jantar ou carne? que comemos ontem, que não me lembro?

 

as horas não são elas próprias mas misturas de uma complexidade de tempo. 

e perdem-se.

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antes o tempo era meu.

agora eu sou do tempo. 

 

porra!

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publicado às 10:30


7 comentários

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De Ana a 23.02.2017 às 10:54

Isso chama-se estar presente no momento. Todos nós o fazemos em crianças. Vamos o perdendo com o passar dos anos. Daí a diferença. Mas podemos e devemos treinar esse sentimento ou competência, como lhe queiras chamar, também na vida adulta.
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De M.J. a 23.02.2017 às 14:18

ah... acho que há coisas que não se treinam... fazem parte das épocas em que vivemos e é dificil alterar. mas...
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De C.S. a 23.02.2017 às 10:59

É mesmo incrível como vamos avaliando o tempo ao longo da nossa vida.
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De M.J. a 23.02.2017 às 14:19

é, não é? as coisas alteram-se de uma forma que nem percebemos.
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De Novembro a 23.02.2017 às 14:14

É a consciência da finitude, que chega com o avançar da idade.
Também eu sinto que cada dia que passa, é um dia a menos da vida que nos espera.
Beijinho.
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De M.J. a 23.02.2017 às 14:19

não me assusta o ser um dia a menos. assusta-me é que o dia em que estou, o presente, o que respiro seja tão menos dop que era.
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De Novembro a 23.02.2017 às 14:37

Se calhar, é porque consideras que não o estás a aproveitar como devias?

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