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ódio

por M.J., em 10.07.17

a primeira vez que senti ódio visceral tinha sete anos e andava na escola primária.

eu era, como sou, uma trapalhada ambulante: gordita, mau feitio, ar mandão, rezingona, carente, chata, cabelos sem graça e uma péssima conjugação de roupa, que oscilava entre a vontade da mamã e o que a avó achava adequado, numa conjugação estranha de fatos de treino rosa neón dos power rangers com uma blusa de linho de formidáveis golas de renda.

 

a mamã trabalhava o dia todo, naquela época, numa fábrica de confecções longe da aldeia. era o tempo áureo da indústria e por todo o lado havia um armazém com centenas de máquinas de costura e mulheres sentadas, dobradas, o dia todo a cozer.

o facto de estar o dia todo longe da minha mãe causava-me ânsias.

sempre fomos apegadas de uma forma primitiva com sentimentos estranhos que iam do desespero a uma angústia sem nome sempre que ela se atrasava ou não respondia aos meus chamados durante a noite. coisas que, creio, a terapia explicaria, se me desse a vontade de voltar.

 

aos sete anos a mamã, longe de mim durante o dia, fazia questão de me mostrar que eu estivera nos seus pensamentos: um punhado de rebuçados doces quando chegava; um livro sobre os amigos da floresta no fim do mês; uma caixa de cereais que não se vendia na aldeia de vez em quando e, um dia, um elástico para o cabelo que ela mesma fez na fábrica, na hora de almoço. era um elástico estranho. funcional, lá isso era, mas no tecido e padrão com que costuravam na época: militar.

talvez hoje estivesse na moda, quem sabe*, mas na altura não estava.

usavam-se saias coloridas - nunca mais esqueço a saia amarela de uma amiga ainda hoje, com as suas duas tranças compridas e uns olhos gigantes, o mais bonito ser que eu achava existir na minha infância - elásticos com bolinhas azuis e combinações de cores, num pandã adequado.

já eu usava as combinações esquisitas de duas vontades de ferro da mamã e da avó e o meu elástico da tropa no cabelo. 

 

um dia, na hora de almoço, a cantina térrea ao lado do campo de terra, as árvores ao fundo, a menina bem da escola, filha de uma personalidade ilustre da aldeia, sabedora da sua posição - as crianças sabem sempre - apontou o meu elástico e gozou, muito alto e muito bem, sem a minha alarvidade ou espalhafato, sorrisinho ao canto do lábio e cabelo impecavelmente alinhado. gozou forte e feio, mas em bem, com o elástico que a mamã me dera, dias antes e que simbolizava a certeza de que pensava em mim constantemente.

foi a primeira vez que senti o tal ódio profundo.

um sentimento atroz que me fez dores de barriga e lágrimas abundantes, mesmo que eu já soubesse muito o que eram umas e outras, e me perseguiu durante muito tempo, numa conjugação estranha de factores ao longo da vida.

 

lembrei-me disto na semana passada, como tantas outras coisas que o cérebro me recorda quando preciso de clarear a mente e descobrir onde estou.

é estranho que me venham à memória dias que não sabia já terem existido, momentos que pensava não serem importantes ou horas perdidas que nem sabia que me podia lembrar. 

 

conto isto não com o objectivo final de "e olhem onde estamos as duas hoje" (até porque não acredito que quem fomos aos sete anos e as acções que por ali tomamos, desta pequenez, sejam reflexo do que somos e fazemos aos trinta) mas porque me lembrei que a primeira vez que odiei alguém, num sentimento de antipatia que me perseguiu o resto da vida - se me perguntarem da moça hoje em dia, que nem sei onde para, não sinto grande coisita por ela - foi porque apontaram o dedo ao amor abismal que sentia pela mamã.

pensando bem nisso, parece-me um dos motivos mais válidos para odiar. 

 

*fui ver à net, numa pesquisa curiosa: parece que se vende hoje, até, como uma coisa bonita. nunca tão bonito como o meu mas, ainda assim, aceitável aos olhos da moda. 

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publicado às 11:05


3 comentários

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De A rapariga do autocarro a 10.07.2017 às 12:15

Nada mudou até hoje, o meu pequeno (7 anos) não quer calçar determinado calçado porque gozam com ele, não quer levar determinado lanche porque gozam com ele...
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De O Triângulo Perfeito a 10.07.2017 às 14:18

Adorei o teu post. Eu também me sentiria assim, se pusessem em causa o amor dos meus. Continua a partilhar estas histórias.
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De Cristina a 10.07.2017 às 14:57

um ódio mais que justo!

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