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olímpicos

por M.J., em 05.08.16

há uns anos atrás, ainda antes de ficar doente, conheci uma pessoa que me inspirou bastante. há sempre aquela história que temos para contar do momento em que nos sentimos tocados, inspirados ou com vergonha de nós por nunca termos feito semelhante coisa e eu não sou excepção.

tinha saído da faculdade há pouco tempo e trabalhava muitas horas por dia. uma noite, cansada de tanto trabalho, fui tomar café com um amigo que me apresentou um colega. 

não diria que foi amor à primeira vista, que não acredito nisso, mas foi empatia ao primeiro momento.

durante semanas saímos num ritmo frenético de cafés, a ponto de me tornar ansiosa com tanta cafeína e trocámos histórias, acontecimentos, coisas de vida. não era como se esperássemos mais do que aquilo: uma troca de palavras acompanhada de café e horas longas que caiam no parque em frente.

sinto muitas saudades desse tempo.

umas das coisas de que falávamos amiúde era dos jogos olímpicos. sou um fã incondicional o que nem sempre se percebe. nunca fui atlética, nunca me esforcei para treinar o meu corpo e teria tirado constantemente negativa a educação física se não fossem as notas altas das outras disciplinas e se os professores (alguns, vá) não achassem piada ao meu feitio da tanga. ainda assim, passava grande parte do tempo, sempre que havia jogos olímpicos, presa à tv à espera de ver a bandeira verde e vermelha, num nível de entretimento que não encontrava nos restantes canais. aprendi a conhecer desportos que os meus amigos não faziam ideia, regras e personalidades. 

 

o meu colega fora esperança olímpica uns anos antes. tudo começara por brincadeira digna de filmes do domingo à tarde: desajeitado, um pouco fechado em si próprio, inteligente q.b. mas desinteressado conhecera um professor que vira nele potencial e o ensinara a correr. por um acaso, esse professor fora em tempos atleta de alta competição e, apesar de não se mover no meio, treinava ainda quando solicitado. a amizade entre os dois solidificou-se e durante a adolescência o meu colega treinava arduamente enquanto os amigos aprendiam o sabor das primeiras bebedeiras e corpos entre lençóis. entrou na universidade num curso de engenharia com muito pouco das experiências sociais que a maioria já tivera e continuava a treinar, todos os dias, de manhã cedo e depois das aulas.

um dia houve uma final qualquer de apuramento para competir noutro país. não lembro datas ou locais mas ia jurar que seria seul. no dia, enquanto corria que nem louco para aquilo que treinara, houve um problema qualquer e o meu colega perdeu um dos ténis. assim, num solavanco qualquer, um dos ténis saiu.

e ele continuou.

descalço de um pé correu os quilómetros que faltavam sem desistir acabando com o mesmo em sangue. 

o final feliz é que, apesar de não se ter qualificado, foi com os outros, numa oferta da organização pela perseverança.

 

anos mais tarde, por causa de uma lesão, o meu colega sentiu-se de tal modo perdido que perdeu anos de faculdade, entrou em caminhos duvidosos e desistiu de treinar. viveu tudo de uma vez só até retomar o caminho do desporto, já sem esperança olímpica ou possibilidades superiores que não fossem estar mais em forma do que a maioria das gentes.

 

creio que já contei este episódio porque me marcou terminantemente. eu teria desistido mal o sapato se desapertasse. teria ficado sentada, quietinha, a praguejar contra a falta de sorte, a culpar-me por um acontecimento tão idiota, chamando nomes ao karma e ao universo.

ele permaneceu continuando a correr apesar das dores, de saber que estava perdida a competição e do pé ficar em sangue.

acredito que é essa a diferença entre os vencedores e os vencidos.

infelizmente só me conheço na segunda categoria. 

 

 

bons jogos olímpicos. 

 

para quem não conhece no vídeo está derek redmond e o seu pai.

 

 

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oh vai ver ali:

publicado às 12:30


3 comentários

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De Maria Araújo a 05.08.2016 às 13:12

O vídeo está desactivado, MJ.
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De Magda L Pais a 05.08.2016 às 13:55

a mim sempre foi esta história, nos jogos olimpicos de 1984 que me marcou. O quanto eu gostaria de ter um unha do empenho e da força de vontade desta mulher

https://www.youtube.com/watch?v=Sg58B8z_JVM

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De Cristina a 05.08.2016 às 15:41

e conheces "a lebre, a tartaruga e uma flor no cabelo" ?

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