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ontem, no meio de tudo aquilo,

por M.J., em 19.06.17

senti um daqueles raros momentos que se canalizam numa interrogação cega: como pode o resto do mundo continuar a girar?

como podem as pessoas continuar a rir e a viver e a prosseguir e a trabalhar e a ser e estar quando ali mesmo ao lado -  seja de faro, seja de bragança, é ali mesmo ao lado, somos minúsculos - quando ali à distância de nada se morre em chamas? se vê eclipsar em terror inimaginável vidas e tudo o que as compõe quando elas sobram?

como se prossegue?

 

e no meio desta interrogação - totalmente egoísta, como se fosse eu a ditar o que sente o outro, num direito que não tenho - qualquer réstia de prosseguimento da vida banal me parecia atroz.

o canto dos pássaros, a televisão do vizinho, as pessoas nas compras em centros comerciais, os emails de trabalho que caíam normais, como sempre. a ausência de perturbação porque a vida continua, mesmo quando ainda nem se sabe para quantos terminou. 

e confesso aqui que as publicações nas redes sociais de praias e festas, sítios bonitos e gente feliz, mesmo daqui do lado, mesma na hora do terror, pareciam-me insultos.

sabiam-me a gente que ia ao funeral do outro lançar confetis enquanto ria muito alto  por estar viva.

é um sentimento ridículo e egoísta e injusto este meu. mas foi o que senti:

como estar feliz, como publicitar essa felicidade quando aqui mesmo ao lado se morria em chamas? 

não se pode fazer nada, dir-me-iam.

nem estar triste? perguntaria.

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publicado às 11:55


16 comentários

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De Celeste Cordeiro a 19.06.2017 às 12:06

Por diversas contingencias da vida vejo-me obrigada a viver longe do meu marido, vivemos 8 anos em Angola mas agora há já 2 anos que ele continua lá e eu estou em PT. Falamos todas as noites mas ontem senti necessidade de falar com ele a meio do dia. E não consegui controlar as emoções e chorei ao falar com ele, ao contar-lhe o que se estava a passar. Só conseguia dizer "não te assustes, nós vivemos longe e está tudo bem connosco...mas podíamos ser nós!" Não consegui, ainda não consigo não sentir um peso no coração. Não é connosco e não conseguimos de forma alguma colocarmo-nos no lugar daquelas pessoas, mas estou muito triste e não a vida ontem e hoje não está igual aos outros dias todos!
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De Just_Smile a 19.06.2017 às 12:19

E de que serve essa tristeza?
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De M.J. a 19.06.2017 às 12:32

a tristeza, evidentemente não "serve" no sentido da palavra. ninguém escolhe estar triste para que isso sirva ou mude alguma coisa.
a tristeza sente-se, tal como o amor, a compaixão, a empatia, a raiva e tantos outros.
a tristeza sente-se. só isso.
ninguém é obrigada a senti-la nem a demonstrar compaixão ou a sentir empatia. tem a ver com a nossa ligação ao próximo ou a uma situação que, por qualquer motivo, nos toca mais que outra.

se sentissemos apenas o que serve para alguma coisa erámos animais desprovidos de alma.
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De Just_Smile a 19.06.2017 às 14:05

Precisamente, quem é promovido de sentimentos sentiu e sente esta situação. Mas continuamos com os sorrisos, saí na mesma para apanhar sol, li na mesma um bom livro e ao parar, sentia aquele peso de saber o que estava a acontecer e do que tinha acontecido... mas a vida não pára, acredito que para as vítimas, para os mais próximos a vida esteja estagnada por momentos, mas para os que estão de fora tudo continuou... não igual, mas continuou...
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De M.J. a 19.06.2017 às 14:37

acho que isso depende o sentir de cada um e daquilo consegue ou não fazer quando se sente assoberbado pelo que sente.
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De Just_Smile a 19.06.2017 às 14:38

Sim também é verdade, todos temos forma diferentes de lidar com a dor, com a perda e o choque, mas uma coisa também é verdade, o mundo não pára...
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De M.J. a 19.06.2017 às 14:41

e ainda bem que não para.
mas mal de nós se não fizessemos pausas ;)

é tudo uma questão do que nos toca profundamente e nada mais, pela proximidade que sentimos.
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De Maria Araújo a 19.06.2017 às 12:24

Não é um sentimento egoísta e injusto,não.
Óbvio que a vida continua, mas de uma forma mais recatada poder-se-ia respeitar quem teve um fim trágico.

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De Gaffe a 19.06.2017 às 13:41

O que me dói agora ao ponto de abrir ferida é esta miséria amoral a babar-se em beijos e abraços; esta solidariedade futebolística que fornece um NIB para que outros depositem uns tostões; estas IPSS a anunciar a abertura oficial da caça ao depósito, como se as toneladas de alimentos que lhes são entregues e os milhões de euros a favor nos bancos, tivessem outras vocações; esta espécie de jorro de lágrimas que não extingue nada a não ser a dignidade de quem imita as sérias; estas selfies ao lado dos ministros que correm de badalo em badalo a tentar escapar ao que não fizeram; este cadáver a servir de fundo à inutilidade de Judite de Sousa.
O que dói agora é este lixo podre que mais uma vez se revela depois de terem ardido todos os biombos.
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De M.J. a 19.06.2017 às 14:40

a isso já nem vejo. estou lá atrás, presa nas imagens que vi e nem queria. estou lá atrás sem conseguir sair, egoisticamente por me sentir tão próxima daquela realidade que foi a minha. sei por que me doeu tanto esta: porque me vi ali, naquelas gentes, como que tendo crescido com eles. dói-me tanto porque poderia ser eu ou a minha gente.
esta dor é por isso só egoísta.

essa imoralidade, esse pequeninismo de que somos feitos já nem vejo. é sempre assim. este país adora unir-se a causas com o mesmo empenho que dom afonso henriques andou à porrada com a mãe. mas é só isso: um fogacho que se desvanece mal surge outra coisa em que pensar.
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De Olívia a 19.06.2017 às 14:11

Estou como tu.
E senti e sinto o mesmo...
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De Pandora a 19.06.2017 às 14:51

Sentimento partilhado. Foi decretado luto nacional por três dias e ontem à noite revolveram-se-me as entranhas quando ouço foguetes nas proximidades, seguido de um bailarico qualquer numa qualquer festarola de uma qualquer santa terrinha nas redondezas.
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De Olívia a 19.06.2017 às 15:34

Por aqui, todas as festas da cidade foram canceladas pela câmara, cujo presidente é também presidente dos bombeiros voluntários. Penso que houve algumas criticas, mas a decisão mantém-se. É uma questão de respeito, de luto e de solidariedade para com centenas de pessoas que estão a sofrer.
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De Pandora a 20.06.2017 às 12:15

E aplaudo essa decisão.
Aposto que haverá muita gente que acha que os três dias de luto deviam significar feriado para irem até à praia aproveitar o calor.
Estão a precisar de voluntários no Quartel dos Bombeiros de Pedrógão Grande, pois não param de chegar camiões com mantimentos e roupa, e estão apenas sete pessoas a receber e a triar material. Aos imbecis que passam o tempo nas redes sociais a mandar postas de pescada, façam alguma coisa verdadeiramente inteligente ao tempo: vão para o terreno ajudar.
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De Quarentona a 19.06.2017 às 16:00

Estou contigo, M.J.!
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De Joana B. a 21.06.2017 às 12:18

estou como tu, na 2ª feira quando saí à rua para ir para o trabalho pareceu-me que estava tudo tão normal, que não tinha acontecido nada, que não tinha morrido tanta gente.
Apesar de estarmos longe não consigo perceber como voltou tudo à normalidade, ontem então estive todo o dia como que adormecida, sem reacção, a pensar naquilo tudo. No domingo estive sem conseguir comer,porque a comida não passava só de pensar na aflição das pessoas naquela estrada, dos que tinham filhos e sentiram-se impotentes por não os conseguirem salvar...

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