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opinando

por M.J., em 30.07.15

não há muita forma de dizermos certas coisas sem parecermos uns porcos xenófobas e fascistas, egoístas, apenas a olhar para o nosso nariz. o que não é verdade. vistas bem as coisas, a não ser que eu vá ao espelho, não consigo olhar para o meu nariz.

mas dizia eu, que há mesmo certas coisas, socialmente aceitáveis, que apenas a opinião correcta, aquela que fica bem escrever ou dizer, é aceitável. que de resto, qualquer outra coisa que se diga, é vista como estupidez, como má formação, como ausência de valores. 

assim seja.

e talvez seja mesmo por isso que alguma opiniões me custem a ser ditas. e que algumas piadas não possam ser escritas. se apontam o dedo ao caralho que escrevo vamos lá imaginar se eu escrevesse assim, ao jeito de piada, que é uma pena morrer um afogado, em vez de cinquenta, lá nos mares do não sei onde. era dramático não era? não vinha já meio mundo chamar-me de porca fascista, sem respeito pela vida humana e que há coisas que não se gozam? ia, claro que ia. se quando o disse, a rir, em gozo, para o moço que sabe que gozo com tudo, incluindo com a minha anormalidade e mama esquerda maior que a direita, até ele me disse que há certas coisas que não se pensam.

enfim, seja como for, vamos receber mil e não sei quantos refugiados. somos todos altruístas, todos a mão de deus. recebemos por imposição, não porque, creio, o nosso alto governo esteja para ai virado. eu também não estou para ai virada. uma chatice eu sei. o politicamente correcto, os valores, a formação que me foi dada deviam levar-me a afirmar o contrário. a dizer com ar sério e bondoso que há sempre lugar para mais um. que há sempre capacidade de recebimento. que devemos estender as mãos a quem mais precisa. que eles não têm culpa e são pessoas e procuram na terra dos outros o que não têm na deles.

devia, pois devia.

não digo.

não sei a quantidade de apoios sociais que lhes serão dados. espero, o mais francamente possível, que lhes sejam dados vários. é como tudo na vida. depois de aceitarmos é para fazer como deve ser. mas esses apoios sociais vão ser tirados de algum lado. e custa-me, juro que me custa, ver o estado social posto em função de quem aqui não nascendo, quem aqui não tendo feito nada, dele usufruiu em nome da dignidade da pessoa humana. e sabem porque custa? porque as pessoas que eu vejo todos os dias perder a casa, pedir nas ruas quando há dois anos tinham uma vida estável, contar o arroz que comem porque não há mais, desesperar por um emprego porque têm mais de quarenta anos, porque essas pessoas de alguma forma contribuíram para esse estado social e dele não recebem o que era suposto.

sabiam vocês que um desempregado que já não receba subsidio de desemprego tem de comparecer a acções de formação no centro de emprego e pagar do seu bolso o transporte? e que se não comparecer tiram-nos das listas? assim como arranjar alguém que lhes fique com os filhos? e só depois, mais de dois meses é que o centro de emprego reembolsa? sabiam vocês que há gente que de facto, depois de uma vida inteira de trabalho, honesto, perde a casa onde sempre viveu porque o desemprego é mesmo real? que há gente que não consegue pagar a electricidade? e que há gente que quer mesmo trabalhar e não consegue? sabiam vocês disso? e sabiam vocês que muita dessa gente não consegue o rendimento social de inserção? e que essas pessoas, tal como os refugiados, também têm direito ao principio constitucional da dignidade? que também são pessoas?

sei que não é bonito escrever isto. se virem bem raramente escrevo o que penso em questões de politica. cada um com os seus valores, com as suas ideias e como dizia o meu avô, no inicio dos anos noventa, nesta casa nem política, nem religião.

seja como for, desta vez, apeteceu-me dizê-lo. venham daí esses insultos. não me deixem ficar mal. 

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publicado às 17:05


36 comentários

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De Pandora a 30.07.2015 às 17:31

Foda-se pá, eu sabia!
Sabes a ironia? Ontem ouvi a notícia na rádio quando passava na estrada da nova estação de Aveiro. E naqueles abrigos semelhantes a paragens de autocarro estão lá sem abrigos, gente que dorme na rua, com sorte embrulhados num cobertor, a escassos metros do Banco Alimentar, e bem sei eu se lá vão comer ou andam nos caixotes do lixo, como infelizmente também já vi. E esta merda custa, porque como dizes e bem, ajuda-se os de fora que não fizeram nada cá, e os de cá que, por infortúnios da vida e da puta da crise em que este país mergulhou, vivem na rua e comem dos caixotes do lixo, completamente esquecidos pelo estado social.
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:08

é tão triste. às vezes nem sei mesmo que diga.
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:10

não sabia que dormiam sem abrigos aí. só vi alguns perto do tribunal.
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De Pandora a 30.07.2015 às 23:17

Sim. Naqueles rectângulos envidraçados que ficam do lado do estacionamento. Vi lá um, sentado num colchão, mas ao lado tinha lá num canto um cobertor e um pequeno amontoado de coisas, que provavelmente pertence a outro. E ouvir essa notícia precisamente quando me deparava com a miséria dos nossos, sim, revoltou-me. Não é culpa dos refugiados, que no desespero arriscam a própria vida. Mas que proteção e segurança pode este país dar aos refugiados, quando não a tem para o seu próprio povo? Eis a questão.
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:21

a questão é que o país está a ser "obrigado" para o fazer.
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De (des)Esperança a 30.07.2015 às 17:42

concordo contigo. que deus nos perdoe. e o diabo também.
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:02

há-de perdoar. pelo menos espere que perdoe mais que a hipocrisia.
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De O Homem Certo a 30.07.2015 às 19:30

Percebo-te.
Não li a noticia, e não sei quantos são. Mas se pensarmos dividir os males pelas aldeias sempre é mais fácil do que ser um ou dois.
E pensar o que se há de fazer a tanta gente.
Devia-se era ajudar os países como a Síria, Líbia entre outros, para que isto não aconteça.
Enfim.
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:03

não sei qual a solução. mas distribui-los por países que não conseguem sustentar-se a eles próprios não me parece plausível, também.
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De O Homem Certo a 31.07.2015 às 00:26

Sim mas na falta de solução melhor...
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De Violinista a 30.07.2015 às 19:47

Se te chamarem cabra sem coração, então aqui também somos uma família de cabras sem coração.
Quantas e quantas vezes não ouvi os meus pais, e eu própria, a comentar isso mas substituindo os imigrantes desses países em guerra por ciganos ou outros que tais. Nem te conto a conotação negativa que o rsi tem aqui por estas minhas bandas.

O problema não são os refugiados. É óbvio que eles querem fugir de condições piores que as nossas, é óbvio que estão, na sua grande maioria, desesperados a ponto de atravessarem o mar em barquinhos decrépitos de borracha e correrem o canal da mancha ao lado de camiões a correr o risco de ficar debaixo de um deles. Mas eu acho que a solução não passa por isto. Também não sei se passa por fechar fronteiras, acho que não. Sendo um coração altruísta, eu digo que a solução passa por matar o problema pela raiz, mas a situação daqueles países sempre foi um valente cú de boi com petróleo e americanagem à mistura.

Isto de receber os mil e tal refugiados e dar o que aparentemente não temos para os nossos também não me parece solução que se preste. E vou ouvir agora que os meus se insurgem contra isto porque sai do bolso deles enquanto contribuintes. Porra. O altruísmo social parece muito bonito, mas depois vai-se a ver e para alguns é uma valente merda.
Mas temos de sorrir e abrir os braços, e dizer sim senhora somos todos muito bondosos para com estas pobres criaturas, enquanto empurramos com o pé os desempregados e aqueles de quem a sociedade parece querer livrar-se por terem mais de quarenta anos e não terem onde cair mortos.
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:04

a questão é que não sei como se resolver o problema directo nos países de origem mas não assumo que a solução seja esta.
uma solução, para evitar a remessa de gentes diariamente, era levá-los todos de volta.
sim, sim, não devia dizer isto.
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De Isa a 30.07.2015 às 21:58

este opinanço faz-me lembrar duma polémica recente, sobre a resposta da merkel ao pedido de ajuda de uma rapariga refugiada em risco de ser deportada. meio mundo indignado pelas palavras da mulher, que embora duras, não podiam ser mais politicamente correctas.

o melhor comentário que li sobre o assunto foi qualquer coisa do género: queria ver as pessoas que criticam a atitude da merkel, se eram capazes de acolher no seu lar, uma família de refugiados. se calhar não eram..

a tua coragem, gabo-a :)
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De M.J. a 30.07.2015 às 22:03

É muito bonito dizer o altruísmo. Se-lo é que custa. Mandei-te uma pérola para o facebook.
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De Cris a 30.07.2015 às 22:27

Falando a sério, eu também concordo contigo. Mas, quer-me parecer ainda algo pior: vão dar os apoios nos primeiros tempos e depois vão tirá-los e vão ser mais umas centenas de desgraçados à míngua. Quem manda o governo querer brincar ao estado rico?
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De M.J. a 30.07.2015 às 23:04

quem manda? a UE.
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De Sarabudja a 31.07.2015 às 10:24

Ó pá, tens tanta razão.
Queria "disconcordar" mas não consigo.
Gostava de te dizer que onde cabe um pobrezinho, cabem dois porque são magrinhos. (hum... achas que corro o risco de apanhar quatro chibatadas no tronco da blogosfera?)

A alimentação não é a maior das minhas preocupações. (pronto, é agora que sinhá me vende para um coronel muito cabra da peste sanguinolento).
Os "nossos" pobres vão tendo acesso a bens alimentares. De forma digna? Claro que não. Essa é uma preocupação grande que me consome. Mesmo.
Ter quarenta anos e não ter emprego? Ter trabalhado uma vida inteira, ter sido demitido porque não há uma estrutura que suporte o país como seria aceitavel em democracia? Ter tido casa, forma de a pagar, ter constituido família e, num ápice, ver-se de regresso à casa dos pais - com malas e com filhos?
Este país que adormece nas ruas vai receber gente? Este país que distribui sopas quentes e dá pães e mais pães a quem precisa de um banho, de um creme que hidrate a pele (ou é só para quem pode? A derme dos pobrezinhos não merece? Ainda por cima, eles têm aquela mania de ter feridas, pele seca, enrugada, macilenta de tristezas acumuladas e desvios de olhar que cansam e desgostam almas que não escolheram aquele caminho. Que só deixaram de ter emprego e por isso não conseguem estar entre os pares, que há muito o deixaram de ser) ... vai receber mais gente que precisa de todos os apoios? - será que trazem empregos no bolso ou casas?
É este país que não vem nos postais - tão desactualizada, Sarabudja, tão mofenta- , nos vídeos promocionais, este país dos Allgarves e de um Douro feudal que receberá os refugiados?
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De M.J. a 31.07.2015 às 13:19

gosto tanto do que dizes.
o que me apoquenta é que eu assisto a isso. eu vejo gente a perder casa. eu vejo gente com fome. eu vejo gente com pobreza muito envergonhada porque não entende o que fez de errado para estar na pobreza em que está. sinceramente, se estivéssemos as duas num café eu dir-te-ia "enquanto esta gente não for socorrida, primeiro, quero que se foda o resto". mas não é bonito escrevê-lo, pois não?
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De Sarabudja a 31.07.2015 às 14:34

Então não é?
Não sou nada de palavrões por isso enquanto esta gente não tiver a dignidade devolvida o resto que vá de barco para onde quiser.
E se fosse eu? Então aí, faz-o-favor de me passar da condição de refugiado para a condição de qualquer outra coisa, mas num país muito em condições. Assim tipo Noruega, mas em solarengo.
Não me importava nadinha de ser hippie, se chic, para não chocar, num paraíso desses com água limpinha. Desde que houvesse um bom hospital.

E sabes outra coisa que me aflige? É que não vêm muitos mulatos. Porque o mercado das adoções dá-se muito bem com as misturas. É ouvir dizer que "ah se eu adopta-se uma criança era uma menina mulatinha" como se pudessem escolher um nenuco que anda e fala.
(eu e a minha mania de trazer para a mesa um outro baralho)
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De M.J. a 04.08.2015 às 14:27

oh, mas ainda acredito que muita gente adopta não porque quer um filho mas porque quer "fazer bem a um pobrezinho". se for mulatinho a boa ação tem pontos a dobrar e chegas mais depressa ao fim do jogo com pontuação máxima.
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De sarabudja a 04.08.2015 às 14:58

*se eu adoptasse

Por causa dessas coisas, adoptei um mulatão. Obra social Sarabudjiana é assim: em bom e em grande.
Pronto, nunca houve guerra no arquipélago, a fome não fustiga alminhas, as doenças são as normais, mas ele é mulato. Ponto para mim!
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De M.J. a 04.08.2015 às 17:27

já estás vencer o jogo, bês?
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De sarabudja a 05.08.2015 às 10:43

Mil pontos para mim, até porque já o adoptei depois de ele fazer 25 anos.
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De M.J. a 05.08.2015 às 20:11

ahahhahahahahahahah
também havia véu e flores ou foste de saia casaco?
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De Sarabudja a 06.08.2015 às 10:46

Nadinha de nada.
Sou avessa a formalidades, contratos e coisas que tal.
(não acredito nas relações para sempre.Só no amor para sempre, e esse tende a modificar.)
E o jeito que dá quando vou fazer documentos para a pequenada e os funcionários do registo perguntam: são casados um com o outro? Eu respondo: somos solteiros; um com o outro.
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De M.J. a 06.08.2015 às 22:41

(não acredito nas relações para sempre.Só no amor para sempre, e esse tende a modificar.)


eu também. creio que eu também.
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De Maria Alfacinha a 31.07.2015 às 10:32

Entendi tudo, tudinho, tudinho o que disseste mas não consigo dizer o que penso e sinto, num comentário. É tudo uma dor de alma e quando me dói a alma, não me consigo explicar.
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De M.J. a 31.07.2015 às 13:17

então diz num email, se melhor for.
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De Maria Alfacinha a 31.07.2015 às 14:23

Não é preciso (és uma querida...) :-)
É mais um organizar de ideias e afastar de lágrimas para não tropeçar nas palavras. Umas horas comigo mesma - e sem ninguém a gritar-me aos ouvidos - e isto vai lá :-)
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De M.J. a 04.08.2015 às 14:25

já foi?
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De Isis a 31.07.2015 às 10:58

E sem mais nenhum comentário... subscrevo inteiramente este post!
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De M.J. a 31.07.2015 às 13:16

:)
merci.
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De Maria Araújo a 31.07.2015 às 11:40

Custa muito ver essas pessoas sem lar, sem comida, sem nada, mas também custa saber que um país de merda como o nosso que tirou muito a quem tinha alguma coisa, "mandou" famílias e jovens para fora, e agora armam-se em ricos?
Sinceramente, tenho imensa pena desses refugiados, mas dificilmente conseguiremos resolver esta grande e polémica questão, a nível da Europa
Quem pode manda.
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De M.J. a 31.07.2015 às 13:17

ora aí está, como muito bem sabes fazer, um óptimo resumo: quem pode manda.

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